Pela primeira vez em 135 anos de história, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) organiza um congresso em que os delegados se limitam a ratificar o novo líder, Pedro Sanchéz, eleito em inéditas primárias abertas a todos os militantes.

Os delegados ao congresso federal extraordinário do PSOE, que decorre sábado e no domingo em Madrid, inauguram uma nova fase da vida política de um dos dois grandes partidos de Espanha, mas confrontado com uma crise interna, e talvez com o seu maior desafio desde o fim da ditadura franquista e o regresso da democracia com as eleições gerais de 1977.

A nova liderança do PSOE exprime o desejo de renovação interna, com muitas caras novas, e sobretudo mais jovens, na sequência do colapso eleitoral de maio.

Assim, na sexta-feira foi confirmado que o deputado e dirigente da região de La Rioja, César Lucena, 33 anos, será o “número dois” do partido ao ocupar o cargo de secretário da Organização e Ação Eleitoral do partido. Um homem de total confiança do novo secretário-geral, que em fevereiro completou 42 anos.

O congresso está no entanto aberto aos “veteranos”, com Felipe González e José Luiz Rodríguez Zapatero, ex-líderes do partido e antigos primeiros-ministros, incluídos entre os mil convidados que confirmaram presença no conclave.

O ponto alto da manhã de hoje será a intervenção do ainda secretário-geral, Alfredo Pérez Rubalcaba, que se despede do cargo após renunciar à liderança, na sequência dos maus resultados nas eleições de maio para o Parlamento Europeu.

Este escrutínio implicou um rude golpe no tradicional bipartidarismo do Partido Popular (PP, no poder desde 2011) e do PSOE. Apesar da forte contestação social às políticas de austeridade, o partido conservador do primeiro-ministro Mariano Rajoy venceu as eleições com 26,04%, três pontos à frente dos socialistas.

Mas pela primeira vez desde o fim do franquismo em Espanha, os votos nos dois partidos do “arco da governação” não ultrapassaram os 50%. E um dos desafios de Pérez será a resposta à reemergência ou imposição de formações à sua esquerda, com a Esquerda Unida (UI) de Willy Meyer a obter 9,99% em maio e a nova formação Podemos, do jovem Pablo Iglesias, com raízes no movimento dos Indignados 15-M, a garantir 7,9% de votos.

A nova imagem do partido, num congresso sob o lema “Mudar… Mudar o PSOE, Mudar a Espanha” também deverá implicar uma alteração dos estatutos do partido para permitir que todos os secretários-gerais sejam previamente eleitos em primárias organizadas entre os militantes.

A ordem de trabalhos prevê para a tarde de hoje quatro fóruns temáticos: igualdade (dirigido por Carmen Montón), política municipal (Abel Caballero), emprego (Valeriano Goméz) e alterações climáticas (Hugo Morán).

Pelo meio, às 18:00 locais (17:00 em Lisboa), está prevista a proclamação de Pedro Sánchez como novo líder. O deputado venceu a consulta direta aos militantes com um apoio de 48,66%, à frente de Eduardo Madina (36,2%) e José Antonio Pérez Tapias (15%).

No domingo, vão ser votados os novos órgãos de direção (Comissão Executiva Federal, Comité Federal e Comissão de Ética e Garantias). Pelas 13:00 locais (12:00 em Lisboa) está previsto o discurso de encerramento de Pedro Sánchez, já na qualidade de novo secretário-geral do PSOE.

Este será o oitavo conclave extraordinário dos socialistas em toda a sua já longa história e o segundo em democracia após o celebrado em 1979, quando Felipe González renunciou à sua reeleição num congresso ordinário em maio e forçou a convocatória de um extraordinário em setembro.

Fundado clandestinamente em 1879 no restaurante madrileno Casa Labra por um grupo de intelectuais e operários dirigidos por Pablo Iglesias, o PSOE já realizou 38 congressos ordinários, incluindo o que fundou a central sindical União Geral de Trabalhadores (UGT).