Numa nota emitida esta segunda-feira em que analisam a solução encontrada para superar a crise no Banco Espírito Santo (BES), os analistas do Citi atribuem um valor de 0,01 euros a cada ação da instituição financeira. A instituição norte-americana qualifica o BES, que ficou na posse de “ativos tóxicos” como os créditos sobre empesas do Grupo Espírito Santo (GES) e as responsabilidades sobre o buraco financeiro do BES Angola, como um título de “alto risco”.

O research admite que, caso a recuperação dos financiamentos concedidos a unidades do GES seja nula, o Governo angolano não honre a garantia soberana de 5,7 mil milhões de dólares que visou segurar a instituição financeira que o Grupo detém no país e não seja encontrado um eventual comprador do “banco mau”, o valor das ações será próximo de zero, o que significa que os acionistas perderão praticamente todo o dinheiro que investiram no BES. Este é o cenário que o Citi considera mais prudente.

O Citi admite uma perspetiva mais otimista em que as ações do BES poderão vir merecer uma avaliação de 47 cêntimos por título. Neste caso, seria necessário que o “bad bank” conseguisse recuperar a totalidade da sua exposição a empresas do GES e que a garantia de Luanda fosse cumprida, o que colocaria o valor total do BES em 2,668 mil milhões de euros.

O BES realizou, em junho passado, um aumento de capital que proporcionou um encaixe superior a mil milhões de euros. Cada ação da instituição financeira que agora perdeu a licença bancária, foi colocada a 0,65 euros por título, o que representa uma perda de 98% em relação ao price target definido pelo Citi.

Uma “abordagem dura”

A abordagem escolhida depois de intensa negociação entre Banco de Portugal, Governo, Banco Central Europeu e Comissão Europeia para ultrapassar a crise em que o GES mergulhou, e que pressupõe que o BES seja partido em dois, “é uma das abordagens mais duras alguma vez tomadas pela União Europeia, se tivermos em conta outras medidas tomadas no passado em situações semelhantes”, defende o grupo norte-americano.

“Na maioria dos casos anteriores os accionistas eram expostos tanto às partes ‘boas’ como às partes ‘más’ do banco”, nota o Citi, lembrando que isso não se verifica desta vez, com os accionistas do BES a ficarem com a totalidade do “banco mau” e o Novo Banco a ficar “expurgado” dos ativos deteriorados, como sublinhou no domingo o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, na apresentação da solução encontrada.

“O Banco de Portugal justificou a escolha dizendo que o BES se tornou inviável na sexta-feira passada e, por isso, deixou o sistema bancário português exposto a um risco sistémico”, continua a escrever o banco norte-americano na sua análise ao caso do BES. Como fatores que levaram a essa inviabilidade, o Citi destaca que os rácios de capital estavam em 5%, muito abaixo do nível mínimo necessário de 8%, o acesso à liquidez do BCE foi suspenso, a elevada pressão nos ‘cashflows’, a degradação da perceção pública, transações completamente suspensas na sexta-feira e que a recapitalização através de investidores privados era impossível.

Segundo as contas feitas pelo Citi, com dados da Bloomberg, com esta abordagem os rácios de capital poderão chegar, de forma faseada, a 10% (mais do que o mínimo de 8% necessário para ter acesso aos empréstimos do Eurosistema). O Novo Banco terá ativos de cerca de 70 mil milhões de euros e uma parte da recapitalização será proveniente do Fundo de Resolução com recurso aos cerca de seis mil milhões de euros do dinheiro da troika que tinha sido reservado para cobrir problemas no sistema financeiro português.

“Porquê um acordo tão duro?”, pergunta o Citi. Porque no próximo dia 4 de novembro o Banco Central Europeu vai tornar-se o supervisor de todos os bancos da zona euro. “Acreditamos que o BCE e a União Europeia estavam com vontade de isolar os riscos remanescentes (como o BES Angola, que ficou no “banco mau”) dos ativos domésticos antes de o BCE se assumir como supervisor, escreve o grupo norte-americano.

Numa primeira estimativa, o Citi avança que o bad bank, o BES, ficará com um total de ativos no valor de 13.635 milhões de euros, enquanto o Novo Banco ficará com um total estimado de 70.157 milhões, entre depósitos e empréstimos dos clientes, avaliados em 33.032 milhões, outras dívidas e passivo, avaliados em 32.225 milhões, e o valor transportado do Fundo de Resolução da troika, de 4.900 milhões, o que resultará num rácio de capital faseado de 9,8%, estima a instituição.