Foram “muitos erros”. Uma “incapacidade muito grande”. Paulo Bento suspirava. Rui Patrício dizia que, como esta, só “nos escalões de formação”. Os adeptos também. Numa só palavra, lamentavam uma coisa: a humilhação. Foi em março de 2009 e a memória ficou. Ao 0-5 em Alvalade seguiu-se o 7-1 em Munique. Contas feitas, o 12-1 deixou os leões do lado mau da história — o da equipa que sofrera o maior número de golos numa eliminatória da Champions. O tempo cura tudo. E a ferida demorou cinco anos a sarar.

O penso retirou-se na Eslovénia. Uns quantos baixos e poucos altos depois, o Sporting estava de volta. Olá de novo Liga dos Campeões, estamos de volta, dizia o clube — ou melhor, diziam Rui Patrício e Adrien Silva, os únicos que não trocaram de cama depois de acordarem do pesadelo germânico. Tudo o resto era novo e, à exceção de Nani, pouco habituado a estas andanças. E o Maribor até avisou: o ex-extremo do United ia ser vigiado.

Bom sinal. Para André Carrillo. O peruano, preterido na escala da atenção dos eslovenos, teve mais vezes a bola. E mais tempo para pensar o que fazer com ela. Aos 28 minutos, foi dele a melhor invenção do Sporting na primeira parte. O peruano pediu a bola na direita e, assim que a teve, arrancou em direção à área. Passou-a a Slimani, disse ao argelino para fazer de poste e o avançado obedeceu.

O argelino devolveu a bola para a corrida de Carrillo, que acabaria por rematar contra as pernas de Handanovic. E mais: o ressalto sobrou para si e o segundo pontapé faria a bola bater na barra da baliza eslovena. Era o culminar dos quase 70% de companhia da bola que os leões tiveram até à meia hora de jogo. Antes, já Cédric rematara à baliza adversária logo aos 5’, como Jefferson o fez, aos 18’, num livre direto, antes de o Maribor, por Sallalick, fazer a bola chegar às mãos de Rui Patrício num contra-ataque.

Mas lá está, aos 30’, os eslovenos perderam o respeito. Saíram do casulo em que se enfiavam a defender e passaram a também eles quererem ter a bola. E aí apareceu Ibraimi, — e não Brahimi, o argelino que a uns 2500 quilómetros dali, já ia a caminho de um hat-trick. Este, um macedónio de pé canhoto, rematava à figura de Patrício aos 38’ e, no minuto seguinte, enganou Carrillo, vestiu uma cueca em Adrien e, a 30 metros da baliza, disparou um míssil que deixou o guardião do Sporting pregado à relva, a ver a bola passar bem perto da baliza.

O maior aviso, contudo, surgiria aos 43’, quando o central Rajcevic, no meio da área dos leões, saltou para cabecear a bola e a fazer bater no poste da baliza de Rui Patrício. E pronto, o Maribor dava a prova de que não ia continuar à espera que o Sporting marcasse e decidisse, que Adrien e William decidissem o que fazer à bola ou que Nani e Carrillo inventassem cruzamentos para Slimani. No arranque da segunda parte, contudo, os leões armaram-se em persuasores e tentaram convencer o Maribor que se tinha de voltar a encolher.

Logo aos 47’, um cruzamento de Nani, desde a direita, teleguiou a bola rumo à cabeça de Slimani, que a rematou para Handanovic, com uma patada, não a deixar entrar na baliza. Quatro minutos volvidos e os eslovenos mostraram que não estavam para aí virados — Tavares, à esquerda da área, rematava e a bola passava a centímetros da baliza dos leões. Aos 58’ foi Sallalich a rematar e, uma vez mais, a assustar o Sporting. Parecia que não, mas o Maribor, agora sim, ficava por aí.

Com uma hora de jogo jogado, os leões passaram a ter a bola só para si. João Mário, entrado ao intervalo para o lugar de André Martins, mexia com os passes. Pedia a bola e assegurava que ela circulava, sobretudo, até chegar a Nani, que corria, cruzava, tentava tabelas e rematava. Aos 64’, um pontapé seu fez Handanovic brilhar. Com 71 minutos, era João Mário a tentar, mas o remate saiu ao lado. De resto, o Sporting cruzava até mais não, mas a bola raramente chegava a Slimani.

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Até que Nani, aos 80’, se fartou. Esperou à direita da área até que a bola lhe chegasse. Quando já a tinha, dividiu as pernas em simulações enquanto a levava para o meio, à espera de uma brecha de espaço para rematar. O espaço lá chegou e Nani disparou de pé esquerdo. Golo, 1-0 e, com dez minutos por jogar, os leões tinham à vista, três jogos depois, uma vitória na Liga dos Campeões longe de Lisboa — a última fora em 2008, em casa do Basileia, na Suíça.

Agora, era aguentar. De Londres diziam que Chelsea e Schalke 04 tinham marcado um golo cada e, por isso, o Sporting podia acabar a noite como líder do grupo. Após o golo de Nani, os leões até fizeram por isso: abrandaram a bola, trocavam passes mais lentos e preocupavam-se mais em não a deixar fugir. Aos 87’, um cruzamento de Jefferson não acabou no 2-0 porque Mané, a um metro de Handanovic, rematou contra o guarda-redes. Parecia estar feito. Parecia.

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Até que Maurício se começou a distrair. Primeiro, lançou-se à brusca a um passe e não conseguiu chegar à bola, que acabou, dentro da área, nos pés de Luka Zahovic. Resultado: um rematou que Rui Patrício defendeu com dificuldade. Isto aos 91’. No minuto seguinte, a distração alastrou-se a Naby Sarr, o outro defesa central leonino. Em desespero, o Maribor mandou um chutão para a frente. Sarr, com os seus 1,96 metros, saltou à bola, mas ela bateu-lhe na nuca e foi na direção de Maurício.

Pedia-se ao brasileiro que puxasse um pontapé atrás e devolvesse a bola ao meio campo esloveno, sem pensar duas vezes. Terá sido o que Maurício pensou, mas o central acertou mal na bola e enviou-a para trás, onde estava o tal Luka Zahovic — filho, com 18 anos, de Zlatko Zahovic, ex-jogador do FC Porto e Benfica e hoje diretor desportivo do Maribor –, que aproveitou o brinde e rematou a bola por cima de Patrício. 1-1, aos 92’, e Maribor dizia hvala (obrigado, em esloveno) a Sarr e Maurício. Pouco depois, o jogo terminava.

Cinco anos depois — com as devidas proporções — a desilusão voltava a meter-se no meio da relação entre o Sporting e a Liga dos Campeões. Os leões terminaram o encontro com 21 remates feitos (dez à baliza), 70 ataques tentados e 59% de posse de bola. Eficácia, porém, só no pontapé de Nani. “A finalização é mesmo assim: há momentos que se fazem dois ou três golos seguidos, e depois há esta fase”, desabafou Marco Silva. O empate em Londres, no outro jogo do grupo, deixa iguais as quatro equipas do grupo e ameniza os dois pontos que o Sporting desperdiçou em Maribor — que, pela primeira vez na Champions, conseguiu não perder um jogo em casa. Graças a Sarr e Maurício, que se juntaram para oferecerem um golo aos eslovenos.

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