Em 22 de julho de 2011, Anders Behring Breivik matou 77 pessoas, depois de um atentado à bomba e de atingir outros com uma arma de fogo em Utøya, uma ilha onde estava a decorrer um acampamento do Partido dos Trabalhadores. Na altura, lamentou mesmo em tribunal não ter matado mais pessoas. Jens Breivik, o pai, vive no Sul de França e não vê o filho desde 1995, quando tinha 16 anos. Segundo a Newsweek, nesse dia, estava sentado na sala do bungalow onde vive quando viu as notícias do atentado em Oslo, na Noruega.

Especulava-se que seria obra de um grupo islâmico extremista. Breivik continuou a fazer zapping na televisão, até que começaram a dar conta de que o autor do atentado seria um homem alto, loiro e norueguês. “Nessa sexta-feira não percebi quem era o responsável. Descobri que foi o meu filho no sábado de manhã quando liguei a televisão. Fiquei chocado. Não conseguia acreditar que era possível”, disse. Anders seria condenado a 21 anos de prisão, o máximo na Noruega. O ataque seria rotulado como o mais grave desde a Segunda Guerra Mundial.

“Não voltarei a ter contacto com ele. Nos meus momentos mais obscuros, penso que em vez de ter matado aquela gente toda, deveria ter tirado a própria vida”, admitiu o pai do terrorista, poucos dias depois do ato (vídeo acima). Três anos depois, o trauma mantém-se vivo na Noruega. O pai, um diplomata retirado de 79 anos, não é exceção. Admite que pensou suicidar-se e que se questiona se a ausência dele na vida de Anders terá tido influência na caminhada do filho rumo ao extremismo.

“Penso muito sobre aqueles que perderam a vida e sobre as famílias deles, que perderam os filhos e filhas. Gostava muito de poder pedir perdão em nome do Anders. De certa forma, sinto-me culpado e responsável no que ele se tornou: um terrorista e assassino em série”, reconheceu.

O nome do livro que lança agora atesta essas batalhas internas com que se debate diariamente: “My Fault? A Father’s Story” (Tenho culpa? A história de um pai). Breivik escreveu desabafos, detalhando a natureza da relação com Anders, que ele não vê há quase 20 anos. E admite que poderia ter tentado manter o contacto com o filho. Todavia, este livro, que até já é bestseller na Noruega, não pretende ser um pedido de desculpas, mas sim um pai a encontrar-se a ele próprio.

“Muitas coisas negativas foram publicadas sobre ele, que era um pai terrível, um marido terrível e um tirano”, disse Nanna Baldersheim, o responsável da Juritzen, a editora que publicou o livro. “Até agora ele não teve a possibilidade de falar e mostrar o seu lado da história”.

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Um outro livro já havia sido publicado para esmiuçar a personalidade de Anders Breivik. “The Mother” (A mãe) foi colocado à venda em outubro de 2013 e nasceu de conversas controversas com a mãe de Anders, que morreria de cancro antes da publicação do livro. Wenche, a mãe, afirmou que o filho era narcisista, incapaz de criar relações próximas com outras pessoas. Marit Christensen, a autora, não falou com o pai porque o livro, como indica o nome, era sobre a mãe, mas também devido à distância entre pai e filho desde 1995, o que fazia dele irrelevante para a história.

Mas o pai queria fazer-se ouvir. “O que tem sido escrito sobre a minha relação com Anders e com a mãe dele é baseado em especulação, meias verdades e ficção”, acusou Breivik. “Eles não me perguntaram sobre o meu lado da história. Não escrevi o livro para me queixar, mas eu também fui uma vítima dos atos do meu filho, embora não seja a maior delas.”

INÍCIO DE VIDA CONTURBADO PARA ANDERS

Anders nasceu em Olso em 1979, mas mudou-se pouco depois para Londres, onde o pai era conselheiro para os assuntos económicos da Embaixada da Noruega. Os pais, Jens e Wenche, acabariam por separar-se poucos meses depois da mudança e a mãe levou Anders de volta para a Noruega. Breivik, o pai, afirma que ela cortou o contacto durante três anos. Mas, em 1983, os ventos prometiam mudar para o pai: os Serviços de Proteção de Crianças noruegueses mostraram-se preocupados com Wenche, que não estaria em boas condições mentalmente, e sugeriram que Andres vivesse separado dela. Nessa janela de oportunidade, Breivik entrou numa batalha judicial pela custódia do filho, mas sem sucesso.

“Eu pensava que tinha um bom caso por causa de todos os relatórios dos psicólogos, mas na altura era quase impossível um pai ganhar a custódia”, explicou. “O sistema ficava sempre do lado da mãe. Acredito que ele talvez tivesse sido uma pessoa diferente se eu tivesse ganho.”

Breivik conquistou o direito de visitar o filho e no livro até conta alguns episódios que passaram juntos na infância de Anders. Mas, depois, a vida diplomática voltou a meter-se no caminho em 1983, quando foi recolocado em Paris. Anders visitava-o quatro vezes por ano. Sete anos depois, Breivik voltou a Oslo, onde recebia visitas do filho, então com 11 anos, duas ou três vezes por semana. A rotina durou cinco anos.

“Às vezes ele aparecia aborrecido e reservado em relação a qualquer coisa. “Ele nunca falava sobre como era a vida na casa dele, nem o que por lá se passava. Ele vinha ter comigo para relaxar, ter uma boa refeição e ver televisão, normalmente Donald Duck e coisas dessas. Ele era preguiçoso e, às vezes, muito apático.Quando eu lhe perguntava sobre a escola, hobbies ou coisas do interesse dele, só recebia respostas vagas”, contou Breivik.

Anders seria um adolescente como outros, que não tinha interesse em falar com o pai, acreditava Breivik, que nunca viu nenhum extremismo político a semear nas veias do filho. “Durante aquela altura, a Noruega estava a decidir sobre ser membro da União Europeia. Anders era contra e eu era a favor. A Noruega acabou por não aderir.”

Aos 16 anos, o tom da irreverência de Anders subiu de tom. O jovem teve problemas com a polícia depois de pintar carros e montras de lojas com spray. “Ele queria seguir o caminho dele, o que não era o que eu queria”, recordou. “Se calhar aceitei muito facilmente. Talvez não tenha feito o suficiente para contactá-lo outra vez.” A última conversa aconteceu em 2006, quando Anders ligou ao pai para dizer olá.

Enquanto escrevia o livro, Jens tentou falar com Anders na prisão, mas recebeu apenas uma carta, endereçada a “Jens David Breivik”. A distância era gritante. “Ele foi frio e formal, e a carta não foi íntima como eu esperava. Chocou-me e magoou-me. Ele só queria ver-me se eu partilhasse as opiniões dele e me tornasse um fascista, algo que ele deveria saber que eu nunca faria”, contou. “A carta assustou-me e ainda me assusta. Fiquei com a impressão que ele se tornou mais extremista e talvez mais perigoso.”