Algumas irregularidades. Pequenas. Cujo “alcance foi muito limitado”. Foi assim que o presidente do Comité de Ética da FIFA classificou esta quinta-feira as conclusões de um relatório, que resumiu a investigação feita ao processo que atribuiu os Mundiais de 2018 e 2022 à Rússia e ao Qatar. Dezoito meses depois, portanto, tudo está bem quando acaba bem. Certo? Não, longe disso. Se a polémica, antes, já teimava em não sair do quintal da FIFA, agora parece que lhe entrou de rompante, porta dentro, sem avisar.

Eis a razão: o homem que liderou a investigação, que passou os olhos por milhares de documentos, que entrevistou mais de 75 testemunhas e compilou tudo nas 430 páginas de um relatório, disse, segundo o The Guardian, que o resumo feito ao seu trabalho “contém várias representações erróneas e materialmente falsas dos factos e conclusões” feitas no relatório.

Caldo entornado. Em suma, porque o líder da Câmara de Investigação do Comité de Ética da FIFA contradisse o que o chefe da Câmara Decisória revelou.

Falta ver quem é quem. Michael J. Garcia é norte-americano, antigo juiz federal do estado de Nova Iorque, que, em julho de 2012, foi nomeado chefe do departamento de investigação do Comité de Ética da entidade que rege o futebol mundial. A FIFA chamou-o para se dedicar à polémica que rodeava a atribuição de um Mundial à Rússia e, sobretudo, ao Qatar. Que não era pouca: além das elevadas temperaturas sobre as quais, no verão, a prova se irá realizar, as precárias condições a que são submetidos os trabalhadores no Qatar e os alegados subornos na votação das candidaturas foram sendo noticiados.

E foi Michael Garcia quem conduziu a investigação e assinou no final do relatório que, no início de setembro, entregou à tal Câmara Decisória.

Ou seja, a Hans-Joachim Eckert. O alemão que lidera este órgão e, desde 2003, é juiz do Tribunal Penal de Munique. Foi ele que, esta quinta-feira, assinou o resumo, de 42 páginas, feito a partir do relatório entregue por Michael Garcia, após 18 meses de investigação. O tal que reconheceu “as ocorrências identificadas pelo relatório, suscetíveis de ameaçar a integridade dos Mundiais de 2018 e 2022” — mas considerou que tinham “um alcance muito limitado”. Eckert, portanto, deu por “encerrada” a “avaliação” ao “processo de candidaturas” a estas edições do Campeonato do Mundo.

Algo contra o qual Michael Garcia vai apelar. E agora sim, o caldo pode entornar-se e derramar por todo o lado. Se, de facto, o norte-americano — que, aliás, sempre defendeu a divulgação, total e pública, das 430 páginas do relatório, que a FIFA rejeitou — apresentar queixa contra o resumo e as conclusões de Hans-Joachim Eckert, então os dois órgão do Comité de Ética da FIFA vão entrar “em guerra”.

Nesse caso, a queixa seguirá para o Comité de Apelo da entidade. Este órgão, composto por 14 membros, é responsável por deliberar sobre apelos feitos “contra decisões do Comité de Disciplina e Comité de Ética da FIFA que não estejam de acordo com os regulamentos”, lê-se, nos estatutos da entidade. Algo que não ajuda a antever no que poderá resultar a queixa de Michael Garcia.

Em último caso, tudo pode culminar no que o juiz norte-americano, e até Michel Platini, presidente da UEFA, já defenderam para aumentar a transparência da FIFA: a divulgação pública do relatório da investigação ao processo de candidatura que entregou o Mundial de 2022 ao Qatar e o de 2018 à Rússia. É esperar para ver.

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