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De pijama na escola em nome das "crianças invisíveis"

Em Portugal, 96% das crianças tiradas aos pais estão institucionalizadas. Este ano, mais de 220 mil miúdos foram para a escola de pijama para chamar a atenção para este problema.

Diogo Abreu tem dois anos e esta quinta-feira foi para a escola vestindo um fato-macaco felpudo com uma pequena juba. Não é Carnaval, nem Halloween e o fato que imita um leão é, na verdade, um pijama. Diogo foi para a escola de pijama. E não foi o único.  

“Momentos de pijama sugerem momentos de família”, diz do outro lado do telefone Manuel Araújo, presidente da Mundos de Vida, uma instituição de solidariedade social que presta apoio a mais de 500 crianças e idosos, e que criou, há três anos o “Dia Nacional do Pijama”. Neste dia, as crianças até aos 10 anos de idade, bem como as suas professoras e educadoras vestem o pijama na escola enquanto fazem atividades educativas para lembrar que todas as crianças têm direito a crescer numa família.

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Diogo Abreu com o seu pijama e um peluche

Portugal tem uma realidade que contrasta com o resto da Europa e que é muito pouco risonha. Apenas 4% das crianças portuguesas que estão separadas dos pais por decisão das Comissões de Proteção ou dos Tribunais vivem em famílias de acolhimento até regressarem aos seus pais, até serem adotadas ou até serem maiores. Ou seja, 96% vivem em instituições. Em França esse número situa-se nos 66% e em Inglaterra nos 77%. O presidente da Mundos de Vida fala em “crianças invisíveis”, porque, lembra, “não têm voz, não há histórias sobre essas crianças.”

O Dia Nacional do Pijama foi criado pela instituição de solidariedade social há três anos. E não tem parado de crescer. Em 2012, 72 mil crianças vestiram o pijama para ir para a escola, em 2013 foram 142.500 e este ano o número passou para 226.800. Escolas de todo o país, “desde o Corvo, até ao Algarve, no Norte, Alentejo, em 278 concelhos, aderiram”, diz Manuel Araújo.

No ano passado uma escola portuguesa da Austrália também se associou ao Dia Nacional do Pijama. E, em 2014, a iniciativa voltou a galgar fronteiras: “escolas de três estados brasileiros, S. Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul quiseram aderir”. Assim, esta quinta-feira, 700 crianças brasileiras foram para a escola de pijama. As instituições do outro lado do Atlântico souberam da iniciativa pelo Facebook e entraram em contacto com a Mundos de Vida, que lhes enviou o “kit” completo. “Demorou uma semana a desalfandegar”, conta Manuel Araújo.

A esta iniciativa juntou-se também Pedro Abrunhosa, padrinho musical do Dia Nacional do Pijama, que escreveu uma canção inédita para Hino da Missão Pijama, com o título “O Melhor Está P’ra Vir”.

Nos últimos 15 dias, as escolas e instituições que, por todo o país e fora de Portugal, aderiram a esta iniciativa organizaram várias atividades lúdicas propostas pela Missão Pijama, recorrendo ao kit preparado pela Mundos de Vida, que inclui um livro original – O Menino que não Sabia Brincar, ilustrado por Yara Kono.

No Colégio Bem Me Quer, na Charneca da Caparica, Filipa Santos, educadora de crianças com quatro e cinco anos, passou o mês de novembro a ler a história d’ O Menino que não Sabia Brincar, sobre uma criança numa família de acolhimento que frequenta a escola, mas não consegue lidar com os colegas e socializar com o grupo por ser muito necessitada de afeto. “Partindo dessa história trabalhamos o conceito de família“, diz a educadora ao Observador. Desta forma, garante Filipa Santos, “as crianças percebem tudo” e querem participar. Falam sobre o assunto e sugerem uma recolha de alimentos, roupa e brinquedos para entregar a essas “crianças invisíveis”, como diz Manuel Araújo.

A Missão Pijama angaria dinheiro, já foram captadas, formadas e acompanhadas mias de 100 famílias e mais de 100 crianças já foram acolhidas que não precisaram ser institucionalizadas. Às crianças foram entregues mealheiros em forma de casa para que, com a ajuda dos pais, pudessem reunir dinheiro para esta causa.

A família Mendes pediu a amigos, conhecidos e vizinhos e entregou a casa mealheiro no Colégio Bem Me Quer. O filho mais velho, Salvador Mendes, quatro anos, pertence à sala de Filipa Santos, onde no total se angariou cerca de 100 euros. Salvador e o irmão, Vicente Mendes, dois anos, também foram de pijama para a escola. A mãe, Ana Rolo, disse ao Observador que o Dia Nacional do Pijama acaba por ser “mais prático”. “Para nós é ótimo porque não há tanto stress. As crianças adoram porque é como se estivessem em casa. Vão mais confortáveis”, diz.

Ana Rolo diz que apesar de Vicente ser novo demais para perceber o que está em causa, Salvador compreende. E dá um exemplo. Quando teve de escolher o que queria para o Natal, o filho mais velho de Ana Rolo escolheu primeiro uma prenda para oferecer a uma criança institucionalizada. “Para o menino que não tem”, diz Ana Rolo, lembrando as palavras de Salvador.

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A família Mendes de pijama

Filipa Santos, que esta quinta-feira trabalhou de pijama, apesar de não ter saído assim de casa – “Vesti-me no infantário. Se não os vizinhos pensavam que eu tinha enlouquecido”, diz – contou ao Observador que o dia estava a ser divertido. As educadoras montaram tendas de campismo nas salas do colégio para que todos pudessem ver filmes e contar histórias “muito juntinhos e com muito mimo”, para lembrar às crianças como é “viver um dia em família”.

Com o pijama vestido, e perante o cenário das tendas montadas nas salas, muitas crianças perguntaram a Filipa Santos se iam passar o dia a dormir.

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