A convenção do Bloco de Esquerda está à porta e é muito possivelmente a mais importante de que há memória. Num avanço inédito na esquerda, a coordenação de Catarina Martins e João Semedo foi desafiada por Pedro Filipe Soares e o duelo está renhido.”Nunca nos impusemos na liderança como tendo de ser a solução (…) mas fiquei surpreendida por uma parte da direção ter considerado que este era o momento para fazer uma divisão”, diz Catarina Martins em entrevista ao Observador.

Defende que a moção de Pedro Filipe Soares deixa o Bloco numa posição “perigosa” porque se aproxima do discurso do PS sem se querer juntar a ele, e porque fecha mais o partido em vez de o abrir à sociedade. E que a solução para as dificuldades da esquerda passa por “arriscar mais”. “Queremos ser um partido de poder”, garante, mas “só o Bloco não chega”. Então vai juntar-se a quem? “À força social”, já que nenhum dos atuais partidos responde ao mesmo apelo. Mas também aqui há um bloqueio: “Em Portugal não há mobilização social”, diz.

Catarina Martins comentou a disputa interna que se vive dentro do Bloco com pinças. Por um lado, “é legítimo e normal em democracia haver candidaturas opostas”, mas, por outro, “preferia que tivesse sido de outra maneira“. “Fiquei surpreendida por uma parte do Bloco que foi sempre da direção, que colaborou em todas as decisões da direção, ter considerado que era o momento para fazer uma divisão. Surpreendeu-me porque as condições de solidariedade [entre as correntes] que existiram ao longo destes anos no Bloco mantinham-se e, portanto, teríamos toda a oportunidade de manter esse espaço de consensualização”, diz a coordenadora bloquista, para quem seria “mais prudente” manter o cenário de discussão aberto em vez de avançar no sentido da rutura.

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Questionada sobre se houve alguma deslealdade no processo do avanço da candidatura de Pedro Filipe Soares, que apresentou uma moção assente na tendência Esquerda Alternativa (herdeira da UDP), Catarina Martins lembrou o momento em que Pedro Filipe Soares disse, durante a apresentação da candidatura, que a atual direção bloquista bateu à porta do PS de António José Seguro durante a crise política de 2013.

“Estaria a mentir se não dissesse que fiquei um pouco incomodada quando ouvi dizer na apresentação da moção [de Pedro Filipe Soares] que alguma vez quis um governo com António José Seguro”, disse, referindo-se ao momento em que, depois da demissão de Vítor Gaspar, Cavaco Silva fez um apelo a um governo de salvação nacional e o Bloco se sentou à mesa com o PS e o PCP. “Nós entendemos que o Bloco não devia ficar quieto a ver aquilo acontecer e devia fazer o possível para tentar arranjar outra solução”. Para Catarina Martins, na altura, os três partidos (BE, PCP e PS) fizeram bem em “sentar-se à mesa sem condições prévias” para “pensar um governo de esquerda, que reestruturasse a dívida, rejeitasse o tratado orçamental e recuperasse os salários e pensões”. Se não houve acordo foi porque o PS não quis esse caminho – “O PS queria continuar a negociar com o PSD e o CDS”, disse. Mas não foi o que achou Pedro Filipe Soares que, no dia em que apresentou a sua candidatura, apontou o dedo aos coordenadores por terem sido “submissos a outras agendas”.

Apesar disso, o conteúdo das duas moções não difere nos aspetos mais estruturais: ambas rejeitam alianças com o PS e ambas defendem o caminho da polarização da esquerda assente na rejeição das diretrizes europeias e na reestruturação da dívida. Mas então o que está em causa, afinal, na disputa do Bloco? Segundo Catarina Martins, há fundamentalmente duas diferenças: “o centro político” e a “forma como o Bloco está na sociedade e se apresenta lá fora”. “A moção E (da Esquerda Alternativa) põe no centro político a luta dos direitos constitucionais, ou seja, diz que a breve trecho estará em causa uma revisão constitucional e que o bloco deve impedir essa revisão. O que nós pensamos é que isso nos põe numa posição muito defensiva, retira a capacidade de mobilização social e põe aparentemente o Bloco ao lado do partido socialista”, afirma.

A questão é que, diz, nem o PS quer uma revisão constitucional – “pelo menos não até às legislativas” – e, por isso, há um risco de colagem do discurso do BE ao dos socialistas. “O Bloco fica numa posição um bocado impossível, que é dizer que defendemos a constituição mas não a defendemos com quem também diz que a quer defender”, atira. O que faz com que “as pessoas não percebam a diferença”.

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Na véspera da IX convenção do Bloco de Esquerda, que vai eleger um projeto político para o partido, o cenário parece de empate. A moção ‘Unitária em Construção’, de Catarina Martins e João Semedo, elegeu 256 delegados, enquanto a moção E – ‘Bloco Plural, Fator de Viragem’, de Pedro Filipe Soares e Luís Fazenda, conseguiu eleger mais seis cabeças. Números que, não sendo estanque, são indicativos de que o partido está totalmente dividido entre as duas tendências que se criaram no seio do BE. E que a liderança de Catarina Martins e João Semedo, que sucederam a Francisco Louçã há dois anos, pode mesmo estar em risco.

Uma ideia que, ainda assim, Catarina Martins prefere relativizar. “No Bloco não há secretários-gerais, há sim uma direção coletiva e há coordenadores que são porta-voz dessa direção”, diz, fazendo questão de lembrar que dessa direção coletiva fizeram parte pessoas que estão hoje numa moção e na outra. Nessa lógica, a direção que for eleita neste fim de semana será também uma direção coletiva e terá “os porta-vozes que forem escolhidos”. “É assim mesmo que é a politica e a democracia”, diz, admitindo fazer parte da direção caso saia derrotada. “Eu estarei em todos os órgãos para os quais for eleita na convenção”, remata.

Mas a verdade é que o ambiente de divisão interna que se vive no Bloco de Esquerda é raro, e parece lembrar mais os velhos partidos do arco do poder – PSD e PS – do que os partidos à esquerda, onde a liderança tende a ser mais consensualizada. Mas também sobre isso, Catarina Martins relativiza. “Há uma diferença: nos partidos do poder a disputa é mais sobre os protagonistas e menos sobre a linha política”, diz, elogiando o debate de ideias no Bloco, porque “a esquerda precisa de mostrar para fora quais são os debates que tem lá dentro, senão corre o risco de não disputar o espaço das ideias do confronto, que é essencial disputar-se na sociedade”.

E faz o mesmo com a liderança da bancada. Pedro Filipe Soares mantém-se como líder parlamentar se sair derrotado na convenção? “Essa não é uma decisão da convenção”, limita-se a dizer, empurrando a decisão para o período pós-convenção. Ainda assim, a “renovação da bancada” é uma das propostas da moção U, que quer contrariar a imagem demasiado “institucionalizada” do Bloco dentro das paredes da Assembleia da República.

Partido de poder, sim, mas sem alianças com os partidos atuais

Sobre o caminho que o Bloco de Esquerda deve seguir enquanto partido, de poder ou de protesto, a coordenadora é clara: “O Bloco deve constituir-se como força para ser poder”. Mas como? Por um lado, Catarina Martins diz que o partido não é autossuficiente e que “só o Bloco não chega”, mas por outro, rejeita alianças com qualquer um dos partidos atualmente existentes no quadro nacional.

“A alternativa constrói-se com mais força social”, diz, sublinhando que o Bloco deve “juntar todas as forças que têm uma postura clara sobre as condições em que se consegue essa alternativa”. Não o PS, que “não diz o que quer e está alinhado com a direita”, não o PCP, que é “mais fechado”, não o novo movimento formado a partir do Livre e de um conjunto de associações políticas. Então que forças são essas? “Os movimentos sociais, sindicais, todas as formas de cidadania independente que se levantam em torno das mesmas questões, e também os partidos políticos que se insiram no campo do Bloco”, diz. Mas logo a seguir reconhece que “não têm aparecido vozes nesse campo”. Ou seja, não há, neste momento, alianças possíveis para o Bloco.

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Ainda assim, Catarina Martins diz que o “Bloco não exclui ninguém, há é partidos que se excluem desse esforço”, defende, sublinhando que a aritmética dos partidos não é estática e que por isso podem surgir novas forças com quem o Bloco se possa aproximar. E lembra o caso do Podemos, em Espanha, que nasceu dos movimentos sociais das ruas e que agora está no topo das sondagens: “o Podemos não existia há um ano”, diz, mostrando que “não se fazem mudanças com aritméticas fechadas”.

Críticas à ‘candidatura cidadã’ do Livre: “é o CDS da esquerda”

Quando questionada sobre a “candidatura cidadã” apresentada esta semana pelo movimento que junta o partido Livre com outros nomes e forças da esquerda, como os ex-bloquistas Ana Drago e Daniel Oliveira, Catarina Martins rejeitou qualquer possibilidade de aliança. Porquê? “Porque têm recuado nas bandeiras da reestruturação da dívida em nome de permitir uma aliança com o PS” e “não é uma aliança com o PS que vai criar uma alternativa no país”. “Não vemos essa força de mudar o país no que foi apresentado por este movimento político”, acrescenta.

Ainda assim, admitiu que movimentos como este que agora está a ser criado para concorrer às legislativas têm um espaço próprio na cena política, e há-os em toda a Europa: “são os CDS da esquerda”, diz, afastando-se dessa assunção. Compara-o, por exemplo, ao Dimar, na Grécia, que surgiu de uma ala da extrema-esquerda e acabou coligado com a Nova Democracia e os socialistas do PASOK, ou aos Verdes alemães que fizeram parte de governos coligados com os sociais-democratas. “O problema é que esses partidos acabam por ter uma agenda tão parecida com a do centro que não criam a força social necessária a uma política de esquerda. Acabam por confiar que compromissos de gabinete poderão permitir alterar alguma coisa, e isso a história já provou que não acontece”, defende.

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Para a coordenadora bloquista, para quem o próximo passo deve ser mobilizar os que têm estado descontentes mas na sombra, as diferenças entre os objetivos das várias forças da esquerda devem ser bem demarcadas e “explicadas às pessoas”: “o Bloco não quer ser um CDS do PS, quer ser uma alternativa para romper com o bipartidarismo”, diz. Mas resta saber como é que se caminha para essa alternativa. E aí aponta o dedo ao seu adversário na convenção. “O Bloco ou está disponível para fazer desafios à sociedade e fazer alianças em torno de lutas concretas”, como defende a moção que assina, “ou prefere uma linha mais conservadora, com poucos desafios para a sociedade”, como diz que defende a ala de Pedro Filipe Soares.

Sobre uma eventual candidatura apoiada pelo BE às presidenciais de 2016, Catarina Martins limitou-se a dizer que prefere “dar prioridade a uma candidatura unitária à esquerda”, em vez de uma candidatura própria. Francisco Louçã seria esse candidato? “Não falámos ainda com ninguém”, apressou-se a dizer a coordenadora bloquista, acrescentando que neste momento não há, aparentemente, nenhum nome que responda a esse apelo.