Terça-feira, 8 de Setembro, Assembleia Municipal de Lisboa. Por puro diletantismo, a Iniciativa Liberal apresentou um Voto de Saudação aos 206 anos da Revolução Liberal de 1820. Um documento inesquecível. Começava, como dizia o título, por celebrar 1820 e acabava em 2017 com o aparecimento da própria IL, que se declarava herdeira dos “heróis de 1820”. Não se cometa o erro de confundir o exercício com uma comemoração histórica, apesar de o texto usar a história. O documento era uma genealogia partidária retrospectiva: de 1820 ao liberalismo, do liberalismo à Iniciativa Liberal – direitinho como um fuso. O partido nascido em 2017 tornava-se herdeiro de homens que nunca o conheceram, entre outras razões por estarem mortos há mais de dois séculos.

A confusão partiu da dificuldade em separar um momento de um processo. Romper não é o mesmo que construir. Uma revolução pode derrubar governos, proclamar princípios e abrir possibilidades, mas não consegue erguer no dia seguinte uma sociedade diferente. Essa sociedade exige novas instituições, exige leis, hábitos políticos, segurança, aprendizagem, economia e, acima de tudo, exige tempo. Convinha aos partidos políticos, nem que fosse por mera formalidade, compreender que derrubar um regime é um exercício de dias, mas construir uma sociedade próspera, estável e livre é um trabalho de várias gerações. Quer isto dizer que 1820 pode ser um momento fundador sem ser proprietário – ou sequer responsável – dos dois séculos seguintes.

O percurso lógico arranha. Para reclamar 1820 como antepassado, é preciso primeiro atribuir a 1820 aquilo que veio depois. Sucede que a história não foi uma linha recta. Não se pode comprimir dois séculos de construção política numa retórica na qual os revolucionários proclamaram os valores liberais e nós somos hoje os seus beneficiários, em parte por via desse presente de Deus à humanidade chamado Iniciativa Liberal. Pelo caminho desapareceram as guerras civis, os recuos, as experiências constitucionais, as instituições construídas e destruídas, os contributos de outras tradições políticas e, acima de tudo, as gerações de portugueses que não eram militantes da IL, por muito que isto aborreça os seus dirigentes. Se 1820 recebe o crédito pelo que correu bem, terá de receber a factura pelo que correu mal.

Em 2026, a IL inclui entre as conquistas a saudar da Revolução de 1820 “a economia de mercado”. A cadeia causal é tão longa que 1820 acaba a receber crédito pela ordem económica contemporânea. O que é que não pode ser atribuído a 1820? Os adeptos da Primeira República, se fossem um pouco mais expansivos, escreveriam a agradecer-lhe o regime. Suponho que o senhor ministro Luís Neves lhe agradeceria penhoradamente a invenção dos atrelados. Facílimo. Assim se fabrica património político: o partido escolhe da prateleira os resultados desejáveis, atribui esses artigos à revolução e depois herda-os. Foi através deste mecanismo que o Partido Comunista se apropriou do 25 de Abril de 1974.

Aos olhos do país, o liberalismo não precisa de pertencer à IL para ter importância histórica: liberdade política, liberdade económica, igualdade perante a lei, apreço pela democracia e desejo de uma sociedade aberta não são propriedade de um partido porque ele pôs “liberal” no nome. Não quero entristecer a IL, mas cada revolução pertence à história nacional; as consequências dela pertencem às gerações que as construíram. Nem as revoluções são donas do que sucede depois, nem os partidos são donos do que sucedeu antes. Confundir herança intelectual com direito de propriedade sobre a história é uma tentativa pueril de inventar nobreza.