Agora com sinal reforçado em Lisboa 98.7 FM No Porto 98.4 FM Ciência / Astronomia Seguir O “gémeo terrível da Terra” ajuda a compreender os fénomenos na atmosfera terrestre Analisar os gases com efeito de estufa na atmosfera de Vénus pode ajudar a perceber que impacto tem o aumento destes gases na atmosfera da Terra e a estudar as atmosferas de exoplanetas. Vera Novais Texto 22 Nov 2014, 15:47 i ESA/Venus Express ESA/Venus Express “Vénus é o gémeo terrível da Terra”, diz ao Observador Pedro Machado, investigador no Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA). Embora as dimensões e a gravidade à superfície sejam semelhantes nos dois planetas, em Vénus “o efeito de estufa é avassalador”, devido à grande quantidade de dióxido de carbono. A equipa que Pedro Machado lidera na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa deu mais um passo na investigação deste planeta, pela análise dos ventos na atmosfera.O astrofísico reconhece os resultados agora publicados na revista científica Icarus vêm contribuir para a importância do estudo de Vénus. Por um lado, perceber o efeito de estufa causado pela quantidade de dióxido de carbono na atmosfera venusiana permite entender melhor os potenciais efeitos das alterações climáticas na Terra. Por outro, distinguir a atmosfera da Terra da de Vénus, com base na composição química, vai permitir caracterizar as atmosferas dos exoplanetas e distinguir os que são comparáveis à Terra dos que são comparáveis a Vénus. Os exoplanetas têm um tamanho semelhante ao da Terra (e ao de Vénus) e localizam-se na região habitável das estrelas, mas conhecer a atmosfera vai permitir perceber se têm potencial para albergar vida (como a Terra) ou não. À medida que a atmosfera aquece na zona do equador, o ar sobe em altitude e é transportado para latitudes mais altas (em direção aos polos). Isto acontece tanto na Terra como em Vénus, mas com algumas diferenças porque Vénus gira muito mais lentamente do que a Terra. Na atmosfera terrestre a circulação é feita em três células (em cada hemisfério), que funcionam como faixas paralelas ao equador, e onde o ar circula (sobe em altitude, dirige-se aos polos e volta a descer, já mais frio). Já na atmosfera de Vénus existe uma única célula em cada hemisfério que leva o ar a partir do equador em direção a cada um dos polos.Cúpula do Telescópio Canadá-France-Hawaii, no Havai – Jean-Charles Cuillandre/CFHTPara conseguir medir esta circulação da atmosfera venusiana os investigadores combinaram a observação simultânea a partir da sonda Venus Express da Agência Espacial Europeia e do telescópio terrestre localizado no cume Mauna Kea, no Havai – Telescópio Canadá-França-Havai (CFHT). “Esta é a primeira vez que se fazem observações sincronizadas”, diz o investigador, acrescentando que desta forma os dados obtidos pelos equipamentos se complementam um ao outro. Os resultados da equipa portuguesa foram tão promissores que o método de sincronização entre os equipamentos espaciais e terrestres pode ser repetido para outras missões.Em relação à sonda Venus Express, um dos âmbitos de investigação do projeto europeu Eurovenus, a equipa do IA espera poder voltar a fazer uma sincronização com um telescópio terrestre em 2015, mas não sabe se será possível – era suposto o combustível da sonda ter acabado em junho deste ano. A missão Venus Express termina quando o combustível terminar, mas neste momento não se sabe muito bem quando será. Ler mais O português que anda a descobrir planetas (e o que é isso de "exoplanetas")