A viragem à esquerda que marcou o XX Congresso do PS já fez a primeira baixa. Depois de ter abandonado o congresso em silêncio – mas num gesto logo interpretado como de protesto – Francisco Assis assume hoje ao DN a sua discordância com a linha assumida por António Costa:

“O partido fez claramente, e com toda a legitimidade, uma opção de orientação estratégica política e não concita a minha adesão. É claramente um partido com uma linha de orientação mais à esquerda do que aquela que eu preconizaria”, disse o eurodeputado, numa entrevista ao Diário de Notícias.

Assis, que considerou um “absurdo” a intenção de entendimentos com a esquerda, insiste que só será possível ao PS governar num entendimento ao centro. Recusa ficar como líder de uma tendência organizada no partido, mas aceita que algumas pessoas no partido o tomem como referência, quando a questão voltar a ser discutida.

Depois, Assis apontou a mira para Carlos César, o novo presidente do Partido Socialista, censurando a forma como geriu as inscrições para as intervenções. “Havia uma clara intenção de valorizar as intervenções de certas pessoas e desvalorizar as de outras”, acusou, revelando depois que o agendamento da sua intervenção para depois do jantar, “um período em que poucas pessoas estão na sala”, não foi inocente.

No domingo, à chegada ao congresso, Carlos César desvalorizara a polémica com a ala segurista. “Francisco Assis é um dos mais notáveis militantes do partido, que tem dado a sua contribuição. É verdade que de forma nem sempre contínua, com maior intensidade em determinado período e menor noutros. Assis continuará a dar essa contribuição, tanto mais que tem a responsabilidade de representar o PS no Parlamento Europeu”, disse o novo presidente do partido. “Ainda bem que há divergências porque este tempo agora é um tempo de apuramento desses detalhes do ponto de vista estratégico, que não estejam já apurados na moção política que ontem [sábado] foi votada por unanimidade”, explicou.

Francisco Assis afirmou ainda, na entrevista ao DN, que Carlos César “não é a pessoa indicada” para liderar o Partido Socialista e criticou o tom usado por Ferro Rodrigues no congresso. “Não alinho com um modelo organizativo que tem um líder parlamentar como Ferro Rodrigues, cuja linguagem e posicionamento político neste congresso considero absolutamente lamentável. (…) É um modelo de partido que não é o meu. Tinha de ficar de fora”, atirou. Apesar de todas as críticas, Assis rejeita tornar-se num líder da oposição interna e garante que António Costa “será um bom primeiro-ministro”.