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Esperava-se um vislumbre de política, mas não houve nada. Durão Barroso manteve-se dentro do papel que lhe estava destinado esta tarde como orador nas Conferências de Lisboa e falou apenas do tema em discussão: desenvolvimento. O ex-presidente da Comissão Europeia disse que o desenvolvimento sustentável é impossível sem educação, infraestruturas e respeito pelas regras do direito. Afirmou ainda que desenhar políticas de ajuda ao desenvolvimento é comparável ao artesanato por ter de funcionar de forma indicada para cada país e que os países doadores acabam por receber tanto ou mais do que dão aos países que menos têm.

Entrou e saiu da conferência na Fundação Calouse Gulbenkian sem falar aos jornalistas, desculpou-se com uma gripe e disse que não comentava a prisão de José Sócrates – horas antes, Barroso tinha sabido que o seu ex-comissário e uma das figuras de relevo da política europeia, Jacques Barrot, tinha morrido no metro de Paris, possivelmente de doença súbita.

Esta tarde de quarta-feira subiu então ao palco para falar sobre desenvolvimento e mostrar o que foi feito a nível europeu nos últimos 10 anos, mostrando ainda o que há a fazer em termos de ajudas comunitárias a países terceiros em vias de desenvolvimento.

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Os únicos comentários mais ligados ao seu passado, foi quando admitiu que um dos cargos que mais gostou de desempenhar foi o de secretário de Estados dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação por ter nessa altura descoberto África e que, como presidente da Comissão, sempre deu importância a este continente e à relação privilegiada que ainda hoje Portugal mantém com muitos países africanos.

Barroso diz que se deve pôr de lado qualquer problema em analisar de forma “crítica” a ajuda ao desenvolvimento. Deve-se ver o que tem resultado em termos práticos, disse, apontando que no geral há uma melhoria das condições de vida e países emergentes, mas que alguns destes Estados apresentam ainda “problemas de sustentabilidade”. O antigo primeiro-ministro salientou que um dos “maiores desafios do ponto de vista social, mas também do ponto de vista da politica” é que o crescimento por todo o mundo não está a ser acompanhado pela criação de emprego e que isso requer “um processo holístico” de intervenção junto de países em vias de desenvolvimento.

A nível europeu – a União Europeia é o maior doador mundial de ajuda ao desenvolvimento -, Barroso destacou três formas que do seu ponto de vista podem colmatar as necessidades destes países e ao mesmo tempo gerar retorno para os países doadores. Apostar no blending ou uma espécie de parcerias público-privadas a nível europeu para canalizar dinheiro privada para a ajuda ao desenvolvimento, ajuda ao comércio ou aid for trade que impulsiona a exportações destes países e ainda maior apoio às integrações regionais.

O social-democrata ressalvou ainda que no que diz respeito a fundos de ajuda ao desenvolvimento a quantidade não é importante, mas sim “como o dinheiro é gasto” e a maneira como o dinheiro é investido nestas economias. Defendeu ainda que não há soluções globais para o desenvolvimento e que nos países europeus é preciso que se tenha um “auto interesse esclarecido” já que “ajudar os outros faz com que as importações se tornem mais baratas e aumentem o seu volume”, assim como há um aumento de exportações para estes países. Durão concluiu que são necessárias políticas “mais criativas” e “mais ousadas”.