Afeganistão

Contra o egoísmo e o conformismo das nações: uma homenagem à missão portuguesa no Afeganistão

Missão portuguesa no Afeganistão durou 12 anos - "foi a mais longa e perigosa missão em que já participámos". Ministro homenageia soldados numa cerimónia pouco habitual e com representação de topo.

© Hugo Amaral/Observador

“As nações são egoístas por natureza”, disse o ministro da Defesa José Pedro Aguiar-Branco perante uma plateia de soldados, alinhados em formatura, que representaram Portugal na missão da NATO no Afeganistão ao longo dos últimos 12 anos. É por isso que cresce o extremismo e o terrorismo, disse Aguiar-Branco, e foi para combater isso que Portugal alinhou, em 2002, na missão da Força Internacional de Apoio à Segurança (ISAF). “Passámos das palavras aos atos” para rumar contra o egoísmo e o conformismo das nações.

Desde 2002, estiveram em Cabul mais de 3100 militares portugueses dos três ramos das Forças Armadas (Marinha, Exército, Força Aérea e ainda GNR), em missões de treino, formação e ajuda humanitária rumo à paz e combate ao terrorismo. Foi o “mais complexo, perigoso, atípico e complicado teatro de operações” onde Portugal já esteve, disse o General Artur Pina Monteiro, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. “Foi a mais longa e perigosa missão onde já participámos”, reiterou o ministro. Daí a homenagem.

Durante a sua intervenção, Aguiar-Branco destacou não só a importância da missão que agora termina, como também os 25 anos desde que Portugal “passou das palavras aos atos”, isto é, desde que Portugal começou a participar ativamente em missões de ajuda humanitária. E quis responder à “pergunta estafada” que mais de duas décadas e 35 mil militares depois, todos continuam a fazer: “O que estão a fazer os nossos soldados no Afeganistão ou no Kosovo?”, ou pior: “para quê o sacrifício?

A resposta, segundo Aguiar-Branco, podia ser diplomática – “pelo respeito dos compromissos e acordos internacionais”, ou política – “por prestígio internacional”, ou ainda humanitária – “para contribuir para a paz mundial”. Mas, diz, é mais do que isso: é para “preservar a dignidade humana”.

É que, para o ministro da Defesa, a solidariedade entre as nações é garante de paz e estabilidade interna. “A nossa paz também pode começar num local distante e aparentemente virtual como as montanhas do Afeganistão”, disse o ministro, procurando explicar que o bem-estar de cada nação não depende apenas do que se passa dentro das suas fronteiras. E deixou um recado para o que se passa nos dias de hoje na Síria e no Iraque, afirmando que um Estado não pode ficar a ver o mundo pela TV com a convicção de que aquelas são realidades distantes.

A lição de que o mundo virtual nos entra pela sala dentro foi apreendida a custo mas espero que faça a diferença agora na Síria e no Iraque”, disse.

Aos jornalistas, o ministro admitiu mesmo que o Governo já tomou uma decisão sobre a participação de Portugal na coligação para combater os jihadistas do Estado Islâmico do Iraque e da Síria. Não adiantou qual é a proposta que vai apresentar ao Conselho Superior de Defesa Nacional, mas o envio de forças militares para o terreno é sempre uma possibilidade. “Será uma participação que honra os compromissos internacionais”, disse, sublinhando que o Estado Islâmco é uma “ameaça a todo o flanco sul da Europa e consequentemente a Portugal”.

A cerimónia desta tarde serviu também para homenagear os dois soldados portugueses mortos em Cabul – o sargento Roma Pereira, que perdeu a vida em 2005 quando o veículo onde seguia explodiu, e o soldado paraquedista Sérgio Pedrosa, que morreu dois anos depois num acidente de viação. Os dois estiveram “presentes” na cerimónia que decorreu esta quinta-feira em Belém, junto ao Museu do Combatente, pela voz de todos os militares que gritaram presente assim que o capelão do regimento chamou pelos seus nomes.

No final, Aguiar-Branco deixou claro que Portugal continuará a apoiar as forças armadas afegãs em 2015, com a presença de alguns militares no quartel general da NATO e contribuindo com um milhão de euros para o “financiamento da comunidade internacional e para a sustentação das forças afegãs”.

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