A 18 de dezembro a Wikileaks revelou um documento produzido pela CIA, onde a agência de inteligência analisa os prós e os contras dos programas de assassinato e de neutralização de “Alvos de Alto Valor” (“High-Value Targeting”, em inglês), conduzidos em vários países contra organizações terroristas ou grupos de insurgentes. Afeganistão, Iraque, Colômbia e Israel estão entre os países escrutinados.

A publicação do documento coincide com o primeiro ano de mandato de Barack Obama à frente dos destinos dos Estados Unidos, um período em que, de acordo com a organização liderada por Julian Assange, “a CIA aumentou significativamente o seu programa de assassinatos através de operações de captura”. O relatório agora divulgado serve como base para os agentes norte-americanos em futuras operações de eliminação de alvos terroristas, garante a Wikileaks.

No relatório a CIA analisa, entre outras coisas, o potencial estratégico destes programas e destaca cinco pontos positivos: a erosão da eficácia dos insurgentes, o enfraquecimento dos grupos, a diminuição do apoio local e estrangeiro às organizações e a fragmentação dos grupos. Um dos casos estudados é o efeito destas medidas na liderança de Osama Bin Laden na Al-Qaeda – a agência norte-americana acredita que, assim, foi possível enfraquecer a organização terrorista e minar a liderança de Bin Laden.

“As medidas de Osama Bin Laden para evitar a sua deteção, incluindo o uso de tecnologia rudimentar, a relutância em reunir-se com os subordinados e a liderança à distância, como forma de evitar o sequestro, afetou a sua capacidade de liderar a organização”, escreveu a CIA, com base em relatos locais.

Bin Laden foi assassinado a 2 de maio de 2011 por forças norte-americanas em Abbottabad, no Paquistão.

CIA

Fonte: Wikileaks. O documento pode ser consultado em anexo à notícia.

Israel eliminou alvos sob a alegação de que teriam participado nos atentados de Munique – as ligações eram “questionáveis”

Durante os Jogos Olímpicos de Verão de 1972 em Munique, 11 membros da equipa olímpica de Israel foram sequestrados e assassinados pelo grupo terrorista palestiniano, conhecido como “Setembro Negro”, alegadamente uma célula da Fatah.

Este acontecimento motivou uma forte reação de Israel que iniciou, assim, um programa intensivo de eliminação de alvos terroristas e de membros alegadamente envolvidos na operação. A morte de um empregado de mesa marroquino na Noruega, que “não tinha qualquer ligação ao terrorismo”, foi o culminar dos esforços israelitas para conter a ameaça, mas valeu ao país fortes repreensões da comunidade internacional. Com os atos Israel conseguiu neutralizar grande parte da atividade do grupo.

“[A organização] tinha uma estrutura de comando muito centralizada e orientada para a liderança unipessoal, o que a tornou vulnerável às investidas [de Israel]. Mas o número limitado de ataques israelitas bem-sucedidos sugere que a forte segurança operacional do grupo o protegeu contra a perda de figuras de topo”, sublinhou a agência de inteligência dos Estados Unidos.

Mas existem outros exemplos de programas de eliminação de alvos e de neutralização de insurgentes: na Colômbia, os ataques bem-sucedidos de 2008 contra os líderes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e contra responsáveis pelas finanças e logística da organização, “corroeu” e enfraqueceu as FARC, garante a CIA, com base em informações de um agente infiltrado na Polícia Nacional da Colômbia e da embaixada norte-americana em Bogotá.

A guerra contra os talibãs no Afeganistão foi outro dos casos de estudo analisados. Contudo, como explicou a CIA, a Coligação enfrentou muitas dificuldades para conter os talibãs – “a corrupção do Governo afegão, a falta de unidade, a força insuficiente das forças de segurança afegãs e da Nato e a ilegalidade endémica” no país foram os maiores desafios da Coligação para travar os combatentes talibãs, durante a guerra que se instalou no país em 2001.

“O facto de os principais líderes talibãs usarem o Paquistão como santuário também complicou os programas de assassinato de ‘Alvos de Alto Valor’.

Além disso, a grande capacidade dos talibãs de substituírem os líderes que pereciam, o facto de terem um comando centralizado – mas flexível -, um controlo encoberto das estruturas pashtun e um bom plano de sucessão”, tornou o grupo mais resistente, de acordo com o relato de agentes infiltrados e militares norte-americanos citados pela CIA.

No Iraque, a célula da Al-Qaeda daquele país obrigou a uma intervenção assertiva e conjunta entre a Coligação e as forças sunitas durante 2007. Só assim, revelou a CIA, foi possível enfraquecer a organização e contribuir para o “declínio” da célula terrorista, especialmente nas bases da organização.

No relatório estão ainda descritos vários detalhes sobre o modo de atuação, de liderança e estrutura de organizações terroristas e de “grupos de insurgentes” por todo o mundo.

A Wikileaks prometeu revelar novos documentos classificados como secretos pela CIA ao longo do próximo ano.

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