Gonçalo Reis, presidente do novo Conselho de Administração da RTP, afastou o cenário de despedimento coletivo dos trabalhadores da estação de rádio e televisão portuguesa, lembrando que, na sua experiência enquanto gestor, “nunca participei num processo de despedimentos coletivos, não sei como se fazem despedimentos coletivos e não tenho vontade nenhuma de aprender”.

Mesmo garantido, perante os deputados presentes esta quarta-feira na comissão parlamentar, que “o fantasma do despedimento coletivo é uma carta” que esta administração “não vai usar”, Gonçalo Reis admitiu que a RTP talvez precise de “deixar sair alguma quantidade para permitir entrar mais qualidade”. O objetivo é garantir uma oferta programática de maior qualidade e respeitar as restrições orçamentais “que são conhecidas e que existem”.

“Vamos ter de encontrar as maneiras de dotar a RTP dos recursos adequados. [Nesse sentido], temos de fazer um levantamento das áreas que se encontram sobredimensionadas e as que estão subdimensionadas e equilibrar as ações de redução de pessoal com as contratações de pessoal (…), sabendo que nos últimos anos houve gente de muita qualidade que saiu e que a RTP está fragilizada em algumas áreas, que têm de ser reforçadas”, explicou Gonçalo Reis.

A articulação entre um melhor serviço público de rádio e televisão e o orçamento da estação pública foi um dos pontos que mais dúvidas suscitou entre os deputadou – a bloquista Catarina Martins chegou mesmo a perguntar como pretende a RTP apostar em mais produção própria e num serviço público de maior qualidade “sem financiamento”.

Em resposta, Nuno Artur Silva, antigo diretor-geral da Produções Fictícias e um dos membros do novo Conselho de Administração da RTP, foi claro: “O orçamento da RTP é manifestamente pouco. Vamo-nos bater por mais? Claro que sim. Mas, neste momento, temos de ser pragmáticos: este é o nosso ponto de partida”.

Um ponto de partida para o que deve ser o caminho da RTP escolhido pela nova administração, cujas principais bandeiras são: “Uma aposta consolidada na RTP Internacional e na RTP Multimédia”, “uma RTP Informação com uma maior diversidade, apostando mais na cultura, na economia, no internacional, com especial atenção para a Europa” e o “fortalecimento da oferta cultural, com produção independente, ficção e documentários”, explicou Nuno Artur Silva. No fundo, “contrariar a ideia de que a RTP é o canal 1 e o resto são canais subsidiários, [até porque] a comunidade é tão mais rica quanto melhor for a oferta cultural”.

Confrontado pelos deputados se essa aposta num produto diferenciador não significaria uma perda de audiência, logo uma perda de relevância da RTP enquanto regulador da comunicação social, Nuno Artur Silva desvalorizou: “Nós não temos uma visão tão negativa do público português, que se nós oferecermos uma programação diferenciadora e de qualidade que isso se vai traduzir numa queda abrupta das audiências”. Ainda assim, Nuno Artur Silva garantiu que essa transição seria gradual “para não alienar os telespetadores habituais da RTP”.

Sobre a discussão em torno do futuro organizativo da RTP, nomeadamente sobre a direção da RTP Internacional – órgão destituído sob a direção de Alberto da Ponte – e sobre a figura de diretor de Estratégia de Grelha – que Catarina Martins afirmou ser ilegal, à luz da lei dos estatutos da RTP – quer Nuno Artur Silva, quer Gonçalo Reis assumiram o desejo de repor uma direção autónoma da RTP Informação e de respeitar e fazer cumprir a lei.

No entanto, o futuro Conselho de Administração admitiu não ter acesso à totalidade dos dados para poder emitir um parecer e fazer traçar um retrato definitivo da empresa. Só o fará quando iniciar oficialmente as funções, o que deverá acontecer ainda este mês, asseguraram.