João Gonçalves é coordenador da Pastoral Penitenciária da Igreja Católica e padre da diocese de Aveiro, tendo dedicado mais de metade da vida à assistência espiritual e religiosa nas cadeias.

A sua história é o tema do documentário das irmãs Inês e Daniela Leitão, “Padre nas Prisões”, que será oficialmente apresentado sexta-feira, em Lisboa, assinalando o Dia Internacional da Justiça Social.

Em entrevista à agência Lusa, João Gonçalves afirma que nunca procura saber o que levou determinada pessoa à cadeia, e sublinha a importância de ouvir todos com o mesmo “respeito e compaixão”.

“Interessa-me mais a pessoa do que o ilícito que tenha cometido, porque a pessoa vale muito mais do que o seu crime”, disse.

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Em quatro décadas, viu o sistema prisional passar de sete mil para 14 mil reclusos e o ambiente nas prisões deteriorar-se.

“As cadeias estão superlotadas. Para muitos, a ocupação laboral nem sempre é possível e a criminalidade agressiva aumentou bastante”, disse, admitindo que essa agressividade passa para o ambiente das cadeias.

“É uma realidade muito dura […] que nos põe perante pessoas consideradas irremediavelmente perdidas[…], numa atitude de julgadores e às vezes condenatória”, lamentou o sacerdote, reclamando mais atenção à realidade prisional.

“Temos de estar mais atentos e olhar para as cadeias onde estão pessoas que sofrem, que muitas vezes foram vítimas do seu próprio crime, pelo ambiente e pelo trabalho que não tiveram, por uma sociedade que nem sempre os acolheu, nem compreendeu as suas carências ou dificuldades”, disse.

Para o sacerdote, o documentário que foca a sua história é, pois, uma “ótima oportunidade de falar de prisões e de presos” e de “trazer ao de cima um campo que é muito silenciado na sociedade”.

João Gonçalves lamentou ainda “a mentalidade ainda muito vindicativa” dos portugueses que leva à defesa de penas de prisão mais pesadas ou mesmo a que se fale de prisão perpétua ou pena de morte.

“Isso é o desesperar da pessoa. A pessoa é sempre possível de ser recuperada, pode demorar mais tempo, podemos ter de envolver mais pessoas, mais meios, mas a pessoa pode ser recuperada”, disse.

Num país onde a assistência espiritual e religiosa é garantida por lei a todas as confissões, mas onde nem sempre se consegue fazer na prática, João Gonçalves acolhe todos sem fazer perguntas.

“Quando alguém vem falar, não lhe pergunto a religião. Tenho diante de mim uma pessoa que quer conversar, desabafar, dialogar e nós estamos abertos a dialogar com toda a gente, independente da sua confissão religiosa”, disse.

João Gonçalves lembrou “episódios de todo o género” que acontecem nas cadeias e que, muitas vezes, deixam os sacerdotes “em silêncio e comovidos”.

Recorda sobretudo os casos daqueles que tiveram de roubar para alimentar os filhos ou a mãe e irmãos.

João Gonçalves, que foi ordenado padre há 45 anos, sonha no futuro com um país sem prisões, à semelhança do que está a acontecer em alguns países nórdicos, e empenha-se em promover a reintegração dos presos, que considera uma das tarefas mais difíceis.

Para isso está a trabalhar num projecto de formação especificamente vocacionada para reclusos e orientada para lhes garantir emprego, contando para isso com a ajuda de um grupo de empresários.