A primeira versão sobre a origem dos problemas do Grupo Espírito Santo (GES) atribuía as culpas à área não financeira do grupo que era o maior acionista do Banco Espírito Santo (BES). Mas esta versão tem vindo a ser questionada na comissão parlamentar de inquérito aos atos de gestão do BES e do GES.

Esta terça-feira, Gonçalo Cadete, antigo administrador financeiro da Rioforte, holding para as empresas não financeiras do GES, adiantou que a partir de 2012, a acionista, a Espírito Santo Internacional (ESI), pediu financiamento à sua participada que teria como finalidade financiar a participação da holding da família Espírito Santo nos aumentos de capital do BES e da Espírito Santo Financial Group (ESFG).

Qual foi o papel da Rioforte na queda do grupo? – questionou o deputado socialista Pedro Nuno Santos. Gonçalo Cadete sublinhou que havia limitações na autonomia de gestão financeira do grupo cuja tesouraria centralizada estava no acionista, a Espírito Santo Internacional (ESI). A partir de 2012, a ESI pediu apoio financeiro à Rioforte. Gonçalo Cadete diz que o financiamento serviria para permitir às holdings da família ir aos aumentos de capital da Espírito Santo Financial Group e BES.

Também a Tranquilidade emprestou dinheiro à ESFG, sua acionista, para esta participar no último aumento de capital do banco em maio de 2014, segundo foi já revelado na comissão de inquérito.

“Foi-nos dito que este apoio teria uma natureza transitória“, sublinha Gonçalo Cadete. O saldo da ESI para com a Rioforte deveria ser pago em 2013, mas isso não aconteceu. O financiamento da Rioforte à ESI começou em 369 milhões de euros, e tinha inicialmente garantias e cartas de conforto do acionista, mas saltou para cerca de 900 milhões de euros. Para além do financiamento à acionista, a ESI reteve também o produto da venda de ativos, sobretudo imobiliários, da Rioforte, num valor entre 150 e 200 milhões de euros.

Segundo o ex-gestor financeiro da Rioforte, os pedidos de financiamento chegavam de José Castela, tesoureiro do grupo, e de Manuel Fernando Espírito Santo. “Não tínhamos nenhuma razão para ter dúvidas sobre a insolvência da ESI e respondemos ao pedido de ajuda”. A situação preocupou a gestão da Rioforte a partir de 2013, que pressionou para encontrar uma solução, o que acabou por acontecer com o plano de reestruturação da área não financeira do GES, que inverteu a situação.

Este plano, apresentado ao Banco de Portugal, passou pela venda da Espírito Santo Financial Group pela ESI à Rioforte. A operação tornou esta holding na cabeça do grupo, mas também importou endividamento para a Rioforte. O resto do plano, que previa venda de ativos e entrada de investidores, acabou por não ser implementado, admitiu Gonçalo Cadete, que abandonou as funções no final de março de 2014.

Financiamento da PT serviu para pagar à ESI

O financiamento da Portugal Telecom à Rioforte, de 900 milhões de euros, foi uma das operações que permitiu pagar o saldo de dívida à Espírito Santo Internacional, a empresa que esteve na origem dos problemas financeiros do GES e cujas contas foram falsificadas. O ex-gestor financeiro revela ainda que reuniu com vários investidores institucionais, mas nunca com a PT que na última fase era a maior financiadora da Rioforte.

Antes da criação da Rioforte em 2009, a área não financeira do Grupo Espírito Santo (GES) era como um “amontoado de negócios” sem estrutura e processos de gestão centralizados. Gonçalo Cadete explicou que a antecessora da Rioforte, a ES Resources, era uma offshore nas Bahamas sem estrutura, nem funções de gestão e controlo. A constituição da Rioforte teve como objetivo dar um sentido estratégico à área não financeira, para selecionar investimentos, alienar ativos e procurar investidores privados fora do GES. Entre as empresas da Rioforte estavam a Espírito Santo Saúde, a Comporta, Hotéis Tivoli, ES Viagens, e várias participações em empresas na América Latina nos setores do imobiliário, turismo, agroindústria e energia.

O plano de reorganização da área não financeira do GES e a procura de investidores privados internacionais foi travado pela crise financeira e da dívida soberana, sobretudo a partir de 2010.

A descrição feita pelo ex-administrador financeiro da holding do GES, revela ainda que as empresas participadas estavam muito alavancadas, ou seja tinham um valor significativo da dívida bancária e a maioria nem estava inicialmente no Banco Espírito Santo. Só em 2013 é que a dívida da Rioforte chegou aos clientes do BES, primeiro através do papel comercial que estava nos fundos de investimento ES Liquidez, e depois quando estes títulos foram transferidos para os clientes de retalho do banco — na sequência da ordem dada aos fundos para reduzirem a sua exposição ao acionista.

Gonçalo Cadete justifica ainda a criação da Around Impact, empresa que passou a deter os passivos da Escom e dos negócios da América Latina para com a Rioforte. O objetivo, diz, não era esconder estes passivos, que estavam todos consolidados na holding, mas sim permitir o seu acompanhamento. A dívida da Escom e o financiamento às empresas sul-americanas passaram a ser participações financeiras. Mas a empresa angolana sempre foi um caso especial no grupo, não tendo sido acompanhada de perto pela Rioforte