Carlos Moedas admitiu que as dificuldades financeiras do Grupo Espírito Santo (GES) pudessem ter implicações no processo de saída de Portugal do programa de ajustamento. Em resposta aos deputados da comissão parlamentar de inquérito ao BES/GES, o ex-secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro confirma que recebeu um telefonema de Ricardo Salgado no início de junho a pedir a sua intervenção em nome do GES.

Moedas lembra que recebia contactos diários das mais diversas entidades e personalidades com preocupações e reivindicações. Uma das suas funções era “interpretar esses contactos à luz da conjuntura económica e política e compreender as possíveis implicações para o programa de assistência. Ora, na ocasião, depreendi que a situação poderia ser mais preocupante do que se supunha pelo que admiti que pudesse haver implicações para o processo de saída do programa em que Portugal se encontrava”.

O programa tinha acabado a 17 de maio, no que foi descrito como uma saída limpa, porque diretamente para o acesso aos mercados financeiros, mas ainda faltava o acordo formal do Fundo Monetário Internacional (FMI) recorda. Ricardo Salgado justifica as conversas e reuniões com membros do governo como a preocupação de explicar a difícil situação do grupo e o efeito sistémico que poderia ter no sistema financeiro e na economia se não fosse feito nada. Salgado assegura que alertou também para o impacto que o problema teria no banco. O então presidente do BES queria um financiamento da Caixa ao plano de reestruturação da área não financeira, mas o governo recusou.

Já antes, no encontro com Salgado a 2 de maio, o presidente do BES avisou Carlos Moedas do risco sistémico que o GES poderia ter para o país. Outros responsáveis do grupo, que não identifica, manifestaram preocupações similares em diferentes ocasiões. “Naturalmente essa opinião preocupou-me, à luz da fase delicada em que vivíamos de conclusão do programa de assistência”. Carlos Moedas informou o gabinete do primeiro-ministro de que iria ser feito um pedido de audiência em breve. Maio foi o mês em que foi aprovado o polémico aumento de capital do Banco Espírito Santo cuja subscrição terminou em junho. Um investimento que em agosto, depois da resolução, valia zero.

Estranheza pelo pedido de ajuda de Salgado

“Surpreendido” e “estranheza”. É com estas expressões que Carlos Moedas descreve a sua reação com o telefonema que recebeu de Ricardo Salgado a pedir a sua intervenção em nome do Grupo Espírito Santo. No telefonema de junho, o então presidente do Banco Espírito Santo informa o então secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro dos problemas jurídicos do GES no Luxemburgo, onde as irregularidades da Espírito Santo Internacional já estavam ser a investigadas, e pede-lhe para agendar uma reunião com o presidente da Caixa Geral de Depósitos.

O agora comissário europeu é a primeira personalidade a responder por escrito às perguntas da comissão parlamentar de inquérito aos atos de gestão do BES e do GES. As perguntas dos partidos a Carlos Moedas centram-se muito neste contacto com Salgado, e que foi revelado pelo próprio ex-presidente do BES. O ex-governante é também confrontado com a declaração atribuída a José Manuel Espírito Santo numa reunião do conselho superior que quando soube dos graves problemas financeiros do grupo afirmou: “Eu punha já o Moedas a funcionar”.

Carlos Moedas confirmou a Ricardo Salgado que conhecia o ministro da Justiça do Luxemburgo, um luso descendente, mas assegura que não fez qualquer contacto junto do ministro Félix Braz, o que aliás o próprio já confirmou. Sobre o pedido para intervir para agendar um encontro com o presidente executivo da Caixa, Moedas revela que falou sobre este pedido com José de Matos, tendo manifestado a estranheza pelo recurso à sua intervenção por parte de um presidente de um banco para marcar uma reunião com o presidente de outro banco. O ex-governante sublinha que não deu qualquer instrução, porque não poderia. Não tinha a tutela da Caixa no governo. Carlos Moedas assegura não ter feito qualquer diligência junto de outros membros do governo para ajudar o GES.

Diz ainda que só soube da resolução do BES pela comunicação social.