Crescem os movimentos de dissidência, deserções e conflitos no interior do autoproclamado Estado Islâmico (EI ou ISIS), grupo terrorista baseado na Síria e Iraque, segundo um relatório que pretende revelar as fraquezas do autointitulado ‘califado islâmico’, elaborado pelo jornal norte-americano Washington Post. Haverá risco de autodestruição? Segundo o relatório, talvez.

O relatório aponta seis pontos de pressão que podem culminar na autodestruição do Estado Islâmico:

  1. DESILUSÕES IDEOLÓGICAS. A primeira e maior ameaça no interior do EI é a desilusão com as promessas ideológicas utópicas do grupo, quando aplicadas num contexto real. Neste sentido, “o maior desafio que o ISIS atravessa neste momento é mais interno que externo”, diz Lina Khatib, diretora do Carnegie Middle East Center em Beirut, Líbano, ao Washinton Post. “O que estamos a ver é basicamente uma falha do princípio central da ideologia do ISIS, o de unificar pessoas de diferentes origens sob um mesmo califado. Isso não está a resultar na prática”, afirma Lisa Khatib apontando as dificuldades de governar o ‘califado’, que se torna cada vez menos eficaz, bem como as operações militares do grupo.
  2. TENSÕES ENTRE ESTRANGEIROS E LOCAIS. Em segundo lugar, crescem tensões entre membros estrangeiros e locais do grupo terrorista. Se os primeiros usufruem de um tratamento especial que incluí salários mais elevados, melhores condições de vida e menos exposição a ataques, os últimos ressentem-se. Este atrito crescente culmina muitas vezes em tiroteios entre as duas fações.
  3. DESERÇÕES DE ESTRANGEIROS. Aumentam as tentativas de deserções por parte de jihadistas estrangeiros, nomeadamente nas províncias Sírias de Deir al-Zour e Raqqa que, desiludidos com a ideologia do grupo, procuram ajuda para escaparem para a Turquia. No mês passado foram encontrados corpos de 30 a 40 homens, muitos dos quais parecem ser de origem asiática, na cidade de Tabqa em Raqqa. Pensa-se que serão militantes jihadistas que, na tentativa de escapar do Estado Islâmico, foram apanhados e mortos, diz um ativista do grupo “Raqqa Is Being Slaughtered Silently” (“Raqqa está a ser massacrada em silêncio”), que monitoriza as atividades do EI. Por causa disso, aumentaram nas passadas semanas as restrições nas deslocações dos membros do grupo terrorista. A deslocação ilegal pode dar direito a execuções públicas, como é prática habitual do EI. Nas passadas semanas já foram executados cerca de 120 militantes, afirma o ativista ao Washington Post.
  4. PERDA DE TERRITÓRIO. Em quarto lugar, o autoproclamado Estado Islâmico continua a perder território no Norte da Síria e Iraque, forçando o grupo terrorista a colocar-se numa postura mais defensiva e afastando-se progressivamente da imagem agressiva e “triunfante” que muita da sua propaganda alimentou, sobretudo durante o verão do ano passado, altura em que surgiram as primeiras decapitações a estrangeiros, diz o relatório. A luta por encontrar uma estratégia de ataque coerente e que faça face às sucessivas perdas de território nas três frentes mais críticas — contra os curdos no norte da Síria, no norte do Iraque e contra a investida conjunta dos exércitos iraquianos e shiitas na cidade iraquiana de Tikrit. O controlo da cidade natal de Saddam Hussein representa um grande desafio estratégico para o exercício de supremacia sobre os grupos sunitas, dizem os analistas segundo o relatório.
  5. FALTA DE ALIADOS. No contexto do ponto anterior, muitos dos retrocessos na conquista de território devem-se à falta de aliados no terreno, sobretudo em zonas não-sunitas, como o enclave curdo de Kobane ou a província de Diyala na zona este do Iraque, onde as perdas de território e soldados têm sido substanciais.
  6. VIOLÊNCIA AFASTA NOVOS MEMBROS. Finalmente, o crescente nível de violência promovido pelo Estado Islâmico faz com que as recrutas a potenciais militantes locais abrandem. O Estado Islâmico “nunca foi muito popular” mas as pessoas permaneciam porque “estavam assustadas ou precisavam de dinheiro”, diz Ahmed Mhidi, proveniente de Deir al-Zour na Síria e fundador de um grupo de oposição denominado DZGraph, segundo o Washington Post. Ahmed acrescenta que “agora as pessoas já não querem ter nada a ver” com o Estado Islâmico, e se este as pressionar, “elas vão desertar”. Perante a falta de novos potenciais militantes, o Estado Islâmico está a recrutar crianças e adolescentes, mais vulneráveis à propaganda do grupo terrorista, afirma um negociante da cidade síria de Raqqa no relatório. Para além do decréscimo de recrutamentos, muitos dos combatentes estrangeiros que se juntam ao grupo não têm vontade de combater e “querem apenas viver no Estado Islâmico”, diz Abu Ibrahim al-Raqqawi, o pseudónimo de um dos fundadores do grupo ativista “Raqqa Is Being Slaughtered Silently”. A utilidade de estrangeiros que não querem combater no grupo terrorista é questionável, bem como o recrutamento feito sobretudo de pessoas que vivem “à margem da sociedade”, sem muita instrução, e que não permitem ao Estado Islâmico “reforçar a sua capacidade militar”, diz Lina Khatib, directora do Carnegie Middle East Center ao Washington Post.

Os relatos de residentes e ativistas em áreas sob o controlo do Estado Islâmico não parecem ainda revelar as fragilidades que vão crescendo no interior do grupo. É nas franjas do território que as diferenças se começam a fazer sentir, sobretudo nas províncias sunitas da região Este da Síria e na região Oeste do Iraque.

Mas apesar das crescentes fraturas, uma investida organizada por parte da oposição interna parece ainda improvável, devido à falta de alternativas viáveis e ao medo que se sobrepõe à rebelião, dizem sírios, iraquianos e analistas ao Washington Post.