O cenário da saída da Grécia do euro (Grexit) não preocupa por aí além Nouriel Roubini. O economista americano que ficou famoso por ter previsto a crise financeira de 2008 foi ouvido pela Bloomberg sobre o impasse nas negociações entre o governo do Syrisa e as instituições europeias.

Roubini considera que um hipotético abandono da zona euro pelos gregos teria um “efeito de contágio tão massivo nos países da periferia”, que faria disparar os spreads da dívida e os custos de financiamento de Espanha, Itália e Portugal, que têm sido os mais beneficiados pelas medidas do Banco Central Europeu. E assim que um sair, “toda a gente vai perguntar que sem segue”. Por isso, defende, não faz sentido, económica e financeiramente, a Grécia sair. “E até os alemães percebem isso”.

A possibilidade da Grécia abandonar a zona euro voltou a ser tema de especulação, com vários analistas a admitirem que as autoridades na Alemanha e em outros países europeus estão agora mais dispostas a equacionar a hipótese. Ontem também o comissário europeu dos assuntos económicos foi claro na mensagem: “Todos nós na Europa estamos de acordo que o Grexit seria uma catástrofe – para a economia grega, mas também para toda a zona euro”. Em entrevista ao jornal alemão Der Spiegel, Pierre Moscovici, o comissário europeu dos assuntos económicos, reconhece que consequências seriam graves para todos, “mas estou convencido que vamos conseguir manter o país na zona euro – e de que podemos também insistir num programa de reforma abrangente”.

Mais de metade dos alemães defendem saída da Grécia do euro

Ainda esta sexta-feira, numa entrevista à televisão austríaca ORF, o ministro das Finanças, Wolfgang Shäuble admitiu que existe o risco da Grécia “sair acidentalmente” da zona euro, remetendo a responsabilidade do que acontecer para o governo de Tsipras e Varoufakis. As declarações coincidem com a divulgação uma sondagem da televisão alemã ZDF que revela um crescente sentimento anti-grego. Mais de metade, 52% dos inquiridos, estão contra a continuação da Grécia na zona euro, mais 9% do que no último barómetro.

O economista americano alerta ainda para as consequências geopolíticas de tal desfecho, na medida em que os russos estão a ficar mais agressivos, não só na Ucrânia, mas também no Báltico e nos Balcãs. A Grécia, sublinha, é um país ortodoxo e se saísse do euro “poderia ir parar às garras do urso russo”.

Conclui por isso, que mesmo do ponto de vista alemão não faz sentido a Grécia deixar a moeda única. O país, lembra, representa apenas 2% do Produto Interno Bruto da zona euro, mas pode provocar consideráveis danos económicos, financeiros e políticos. Apesar da preocupação dos mercados, Roubini está convicto de que “vai haver um compromisso entre as partes” para o défice, a dívida e as reformas estruturais, em troca de um novo pacote financeiro. “Não acredito que a saída da Grécia seja provável”.

Roubini defendia o contrário em 2011

Esta opinião representa uma evolução em relação ao que o economista defendia em setembro de 2011. Num artigo de opinião publicado no Financial Times, o economista defendia precisamente o contrário: a Grécia precisava de desvalorização cambial para atacar a dívida e deveria sair do euro. Roubini reconhecia que a medida teria custos, mas seria gerível se a saída fosse controlada. Na altura, o economista admitia que Portugal, que estava no primeiro semestre do ajustamento, poderia ser obrigado a seguir o mesmo caminho. Estes eram tempos agudos da crise do euro e estava em processo negocial a reestruturação da dívida pública grega e o segundo resgate.

Os sinais de Atenas

Depois de ter apresentado uma queixa contra o ministro das finanças alemão, o primeiro-ministro grego procurou dar sinais de desanuviamento, prometendo resolver os desentendimentos com os parceiros europeus. Alexis Tsipras falava esta sexta-feira em Bruxelas antes de uma reunião com o presidente da Comissão Europeia, Jean Claude Juncker. Após um encontro com o líder do Parlamento Europeu, Martin Shulz, Tsipras afirmou estar “muito otimista numa solução, porque acredito muito que está em causa um interesse comum. Penso que este não é só um problema grego, mas um problema europeu”.

As reuniões técnicas de Atenas com os credores internacionais, que incluem ainda o BCE e o FMI, arrancaram esta sexta-feira. No mesmo dia, a Grécia fez um reembolso de 350 milhões de euros ao Fundo Monetário Internacional. Mas o país terá de fazer novo pagamento ao FMI daqui a uma semana, para além da necessidade de refinanciar dívida do curto prazo no montante de 1,6 mil milhões de euros.