Filantropia

Maria da Conceição quer tirar da pobreza 100 crianças no Bangladesh

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Desde 2005, a Fundação Maria Cristina, fundada pela atleta portuguesa Maria da Conceição, entra nas favelas do Bangladesh para promover a educação de crianças e de as tirar da pobreza.

Maria da Conceição foi a primeira mulher portuguesa a subir o monte Evereste

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

A atleta filantropa portuguesa Maria da Conceição vive para cumprir a promessa de tirar da pobreza 100 famílias da capital do Bangladesh, através da Fundação Maria Cristina, à qual deu o nome da sua mãe adotiva. Ao mesmo tempo de vai batendo recordes desportivos – foi a primeira mulher a correr sete maratonas em sete semanas seguidas em sete continentes diferentes, incluindo a Antártida – Maria de Conceição prossegue uma atividade humanitária que já lhe valeu ser considerada uma herdeira laica de Madre Teresa de Calcutá.

Depois de subir o Evereste e de muitas maratonas, Maria da Conceição vai fazer um Ironman em agosto, apesar de não saber nadar nem andar de bicicleta, para financiar a causa humanitária que iniciou no Bangladesh.

“Consegui entrar no coração dos maratonistas, que são uma grande comunidade, e então pensei: que tal entrar no coração de quem faz natação e ciclismo, que ainda são mais? Decidi inscrever-me num Ironman [triatlo de longa distância], em agosto de 2015, mas ainda não sei nadar e vou ter de nadar 3,8 quilómetros, depois andar 180 de bicicleta e fazer uma maratona (42 quilómetros). Não sei nadar – tive três aulas de natação – e não sei andar de bicicleta. Estou agora nessa fase de treino”, explicou Maria da Conceição, em entrevista à agência Lusa.

Aos 37 anos, a antiga assistente de bordo vai voltar a enfrentar um desafio extremo para suportar o Projecto Daca, que tem como objetivo assegurar a educação de 100 crianças bengalis.

Este vai ser um teste à capacidade física de Maria da Conceição, numa reedição do feito concretizado em maio de 2013, quando se tornou na primeira portuguesa a subir o Evereste, para ‘reanimar’ a Fundação Maria Cristina, então em “coma” devido à crise financeira.

“[Pensei] o que é que eu posso fazer para dar um choque, para despertar a atenção das pessoas? ‘Vou subir o Evereste’. Não sou uma montanhista, mas posso aprender. Aprendi e fui”, referiu, admitindo que esta provação “não trouxe o retorno que estava à espera”.

Esta escalada ocorreu depois do seu primeiro 777 Challenge, em 2011, quando correu sete maratonas, em sete dias, em sete emirados, naquela que foi a sua primeira abordagem à corrida, que, como viria a concluir, oferecia mais visibilidade à causa.

“O objetivo era angariar fundos para a fundação e isso marcou-me imenso, fiquei muito triste na altura”, admitiu Maria da Conceição, que, depois de escalar o Evereste, decidiu globalizar o 777 Challenge, em 2014, correndo ultramaratonas na Antártida, na América do Sul, na Ásia, na Europa, na Oceânia, América do Norte e, finalmente, África.

Desde então, cumpriu ainda cinco maratonas em dias consecutivos em cinco estados norte-americanos, aproveitando o facto de a corrida ter sido, nos seus dez anos de atividade, “o que trouxe mais dinheiro à fundação no mais curto espaço de tempo”.

Os 37 anos da vida desta portuguesa radicada no Dubai são contados nas 163 páginas do livro “Maria da Conceição, uma mulher no topo do mundo”, desde o seu nascimento em Vila Franca de Xira, passando pela adoção pela refugiada angolana Maria Cristina, em Avanca, onde se juntou aos seus seis ‘irmãos’. Depois da morte da sua mãe adotiva, aos 10 anos, e atingida a maioridade, Itália, Suíça e Inglaterra fizeram parte da rota rumo à sua independência, que acabou por ocorrer apenas no Dubai, onde se tornou assistente de bordo.

Mas, tudo mudou em abril de 2005, durante uma escala de 24 horas em Daca. “Foi quando fiz uma viagem ao Bangladesh e vi pessoas como eu que viviam na pobreza que eu senti necessidade de as ajudar. Ao lado do que elas tinham, que não era nada, eu tinha muito e eu decidi partilhar o que tinha”, recordou Maria da Conceição, em entrevista à agência Lusa.

A realidade da capital bengali tocou-a de tal forma que decidiu ajudar famílias das favelas.

Todos sabemos que há pobreza, mas o que é que fazemos? Ignoramos. Mas eu quando tive de passar 24 horas num país do terceiro mundo, a ver, sentir, ouvir e a cheirar a pobreza, não pude ignorar, não pude virar as costas”, sublinhou.

A memória e gratidão que tinha pela mãe adotiva foram decisivas. “Foi um pouco a pensar no meu passado, que alguém me tinha ajudado e a diferença que isso tinha tido na minha vida. Pensei que se eu fizesse a mesma coisa por aquelas crianças elas podiam chegar onde eu cheguei. Chamei à Fundação Maria Cristina para agradecer e em homenagem ao que a Cristina fez por mim. Imagine, era uma viúva, fazia limpezas, com seis filhos e ainda deu casa e comida a uma sétima criança”, salientou.

A portuguesa começou por retirar 39 crianças das ruas do bairro de Gawair e inscrevê-las numa escola local, mas o projeto foi tendo altos e baixos, invariavelmente por dificuldades de financiamento, levando Maria da Conceição a criar a Fundação Maria Cristina, em 2010.

Foi a partir daí que se tornou ex-hospedeira e se dedicou “24 horas por dia, sete dias por semana” a esta causa, juntando à gestão da fundação os desafios extremos, como correr maratonas, ultramaratonas e escalar montanhas. “A crise financeira abateu o meu projeto e fechou-o, eu podia ter baixado os braços… mas reinventei-me, não cruzei os braços, não fiquei a chorar os oito anos de trabalho que tinha tido com a fundação e como a vida é tão injusta”, recordou.

Apesar de concretizar estes desafios, como o de se tornar na primeira portuguesa a subir o Evereste, Maria da Conceição não conseguiu angariar o milhão de euros que asseguraria, pelo menos, a educação de 100 crianças, mas nunca desistiu, conseguindo identificar resultados positivos.

Já temos muitos resultados. Algumas crianças que tinham 12 anos, quando começámos a tomar conta delas saíram das favelas de Daca, já estão a trabalhar [na companhia aérea Emirates, no Dubai] e a tomar conta das famílias. Os pais também sabem ler e escrever, já dá para ver muita diferença nos últimos dez anos, mas ainda há muito trabalho para continuar”, assegurou, advertindo que “são precisos no mínimo 13 anos para educar uma criança”.

Maria da Conceição lamentou algum desconhecimento sobre o seu projeto, sobretudo em Portugal – “há estrangeiros que viajam na Emirates que perguntam se a humanitária está a voar” – para justificar o lançamento desta sua biografia.

“Para divulgar a história da fundação, o meu percurso de vida mas também para que possa inspirar outras pessoas para fazerem o que a Cristina fez, quando eu tinha dois anos, e o que estou a fazer agora. Acho que as pessoas pensam que para ajudar e mudar a vida de outras pessoas é preciso muita coisa, mas veja a minha história: como uma mulher de limpeza, muito pobre, como ela mudou a minha vida; e eu que não tenho nada, mas fiz a diferença que fiz na vida destas pessoas”, frisou.

A poucos meses de enfrentar os 3,8 quilómetros de natação, 180 quilómetros de bicicleta e uma maratona a correr, num Ironman (triatlo de longa duração), Maria da Conceição, que ainda vai aprender a nadar e a andar de bicicleta, quer tornar-se num exemplo a seguir. “Espero pelo menos inspirar as pessoas a batalharem pelos sonhos e objetivos, não só no mundo da caridade, mas também nos estudos, na carreira…”, concluiu.

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