A pouco mais de seis meses das eleições legislativas, as sondagens mostram um cenário de empate técnico e várias são as possibilidades em cima da mesa. Se o PSD perder as eleições, deve Passos Coelho continuar à frente do partido? Os mais próximos não têm dúvidas que sim, que deve continuar a mandar no PSD e, se for caso disso, negociar com António Costa.
Ficar no partido depois de perder umas eleições legislativas é raro no panorama político português, mas começa a fazer caminho no PSD. “Não estimo que vamos ter uma questão de liderança até 2018/2019”, responde Luís Montenegro quando a pergunta é se Passos deve ficar como líder do PSD caso perca as eleições. Ferro Rodrigues, por exemplo, perdeu as eleições legislativas em 2002 e ficou como líder do PS e Durão Barroso, na oposição, perdeu as eleições legislativas em 1999, tendo derrotado o PS no sufrágio seguinte.
No seio do PSD, a ideia que querem fazer passar é que o partido está otimista e que é possível ganhar as eleições, logo não é preciso elaborar cenários em caso de derrota. É isso mesmo que responde o vice-presidente do PSD José Matos Correia que diz que seria “dar um tiro no pé” especular sobre um desastre eleitoral. Mas há já quem o tenha feito, mesmo que apenas na teoria. A própria ministra das Finanças, em entrevista ao Observador no final do ano passado, disse que Passos Coelho deveria ficar à frente do partido no caso de perder as eleições legislativas. “O dr. Pedro Passos Coelho tem demonstrado ser um líder muito forte, muito convicto, muito preocupado com o interesse do país. E acho que seria sempre um excelente líder – com um contributo relevante para o país – quer à frente do Governo, quer à frente, eventualmente, da oposição”, disse. E acrescenta: “Concordo em absoluto. Acho que é um sinal de maturidade democrática, porque o que nós mais encontramos por essa Europa fora são casos de líderes partidários que passam do Governo para a oposição e frequentemente voltam ao Governo. Pode ser estranho para nós, mas não é estranho no panorama democrático”.
Posição semelhante tem a vice-presidente do partido Teresa Leal Coelho que diz que o próprio presidente do partido já disse que queria ficar: “O próprio já disse que sim e eu apoio-o”, disse ao Observador. A dirigente do PSD referia-se ao facto de Passos Coelho, em entrevista ao Expresso ter admitido vários cenários incluindo um bloco central com António Costa e não admitindo sair caso perca as legislativas.
Mas a acontecer será um cenário que nunca se viu por cá depois de um primeiro-ministro de direita governar com maioria absoluta. No PSD, cresce a ideia que se Passos perder e ficar como presidente do partido pode ser para aguardar para regressar ao Governo, jogando com a instabilidade de um Governo socialista. Cenário hipotético, mas que pode fazer caminho, até porque a intenção de Passos Coelho seria a de assegurar a continuidade das políticas que tem vindo a levar a cabo, uma vez que considera que o regresso às políticas do passado – e tem repetido esta ideia por várias vezes – pode significar um retrocesso também em termos de competitividade da economia e do país.
Já o conselheiro de Estado Marcelo Rebelo de Sousa considera improvável o cenário de Passos perder as eleições e ficar, nem muito menos ficar como presidente para negociar um governo com António Costa, mas coloca como hipótese Passos voltar mais tarde: “Até pela idade, Passos, se sair agora, pode voltar daqui a três, quatro anos. Tem tempo ainda para voltar a ser primeiro-ministro”, diz Marcelo Rebelo de Sousa ao Observador. “António Costa dificilmente fará uma coligação com o PSD, e muito menos com o líder fora do Governo. Já houve exemplos no passado, por exemplo, Balsemão negociou com o CDS com Freitas fora e não durou nada. A continuidade é o mais fácil. Qualquer que seja o PSD, vai ser sempre difícil”, acrescenta.
Este raciocínio é partilhado pelo ex-ministro da Presidência de Durão Barroso, Nuno Morais Sarmento. O ex-dirigente defendeu, em declarações ao Observador, que se o PSD perder as eleições, Passos não tem condições para continuar. “Depois de ter sido primeiro-ministro, não vai assumir um papel secundário”, diz.
Certo é que o resultado das eleições pode ditar várias possibilidades e no horizonte há ainda um calendário apertado para a formação do próximo governo, com as eleições presidenciais no início de 2016. Num cenário em que Passos Coelho perde, mas fica, uma negociação pode ser mais difícil pelo choque de personalidades, mas mais rápida em termos formais. Isto porque não seria necessário esperar que o PSD escolhesse um novo líder que teria de ser nomeado em diretas e depois em congresso.
Contudo, foi o próprio Presidente da República a admitir como natural poder ter que esperar vários dias pela formação de Governo. Chegou mesmo a dar como exemplo o caso da Alemanha onde, para formarem governo de coligação, a CDU de Angela Merkel e o SPD de Gerhard Schröder demoraram 86 dias a chegar a um compromisso – tendo Schröder acabado por não integrar o Governo.