O líder parlamentar do PS, Ferro Rodrigues, criticou esta quarta-feira o Presidente da República por, na sessão solene comemorativa do Dia de Portugal, ter tido “um discurso totalmente colado” ao do Governo, relativamente à crise e à sua evolução.

Em declarações aos jornalistas à saída do Centro Multiusos de Lamego, onde decorreu a cerimónia, Ferro Rodrigues considerou “compreensível que o senhor Presidente da República, num último discurso do 10 de Junho, queira dar uma ideia de otimismo ao país”.

Já acho menos aceitável que tenha feito um discurso totalmente colado àquilo que é a narrativa da atual coligação de direita sobre a crise, sobre a evolução do pós-crise e sobre a perspetiva futura, sobretudo porque estamos a muitas poucas semanas de eleições”, frisou o antigo secretário-geral do PS.

Ferro Rodrigues considerou que todos os portugueses têm esperança no futuro do país, referindo que o próprio programa do PS responde a várias das questões levantadas por Cavaco Silva no discurso, concretamente “em matéria de défice público, défice externo, dívida pública e dívida externa”.

No entanto, “é muito estranho que um Presidente da República que foi Presidente da República durante os últimos dez anos não tenha feito qualquer referência à maior crise global que houve desde 1929″ e que “teve consequências gravíssimas para Portugal”, realçou.

O líder parlamentar socialista estranhou também que Cavaco Silva “não tenha feito referência às políticas de empobrecimento que foram conduzidas”, ao contrário do que fez noutros 10 de Junho, “dizendo que não estava de acordo com todas elas”. “Hoje parece que houve uma esponja sobre o passado recente e isso é um muito mau sinal para um Presidente da República que vai ter de tomar um papel importante no período eleitoral e pós-eleitoral”, acrescentou.

Comunistas criticam discurso “partidário” de Cavaco

O deputado do PCP António Filipe criticou o discurso do Presidente da República por ser “partidário” e de intervenção na campanha eleitoral. E recusa “a visão de oásis” transmitida por Cavaco Silva.

Tribunal de Loures

António Filipe do PCP acusou Cavaco de ter “discurso de intervenção na campanha eleitoral”. ©MIGUEL A. LOPES/LUSA

“Foi absolutamente um discurso colado ao da maioria governamental e um discurso praticamente de intervenção na campanha eleitoral que se aproxima”, afirmou António Filipe, em declarações aos jornalistas à saída da sessão solene do Dia de Portugal, que decorreu no centro multiusos de Lamego.

Manifestando-se “chocado” pelo Presidente da República se ter assumido como “um participante ativo nas políticas que têm levado o país à situação que se apresenta” e não como o Presidente de todos os portugueses, o deputado comunista insistiu que se tratou de “um discurso partidário e um discurso de intervenção na campanha eleitoral”.

António Filipe disse ainda ter-se tratado de uma intervenção que passou ao lado dos reais problemas do país e que quis transmitir “uma visão de um país idílico que não corresponde à realidade que é vivida pela grande maioria dos portugueses”. Portugueses, que acrescentou, “certamente não se identificam com a visão de oásis que o Presidente da República pretendeu dar neste discurso”. “Mais parecia o discurso de um candidato às eleições legislativas pela coligação governamental, do que propriamente um discurso do Presidente da República”, frisou.

Partidos do Governo destacam “discurso de esperança” e “reconhecimento justo” pelo esforço

Já o líder parlamentar do PSD considerou que o discurso do Presidente da República foi um “reconhecimento justo” aos portugueses pela tenacidade demonstrada nos últimos anos. Questionado pelos jornalistas sobre as críticas feitas pelo PS e pelo PCP de que se tratou de “um discurso totalmente colado” ao Governo e “partidário”, Luís Montenegro disse achar “um pouco incompreensível essa consideração”.

2º dia do XXXV Congresso Nacional do PSD

Luís Montenegro aproveitou para deixar recomendações para o futuro, a pensar nas eleições. ©MÁRIO CRUZ / LUSA

“Foi um discurso que mostrou um reconhecimento justo, se não mesmo uma gratidão muito justificada ao povo português, às famílias portuguesas e às empresas portuguesas, pela capacidade, pela tenacidade que denotaram ao longo dos últimos anos”, afirmou aos jornalistas à saída do Centro Multiusos de Lamego, onde decorreu a cerimónia.

Na sua opinião, os portugueses ultrapassaram “uma situação que era de facto dramática, de emergência financeira, económica e também social”. “Esse é um primeiro aspeto muito relevante e não me parece que possa merecer uma crítica, ou mesmo uma desilusão, por parte de nenhum agente político, seja ele apoiante do Governo ou da oposição”, considerou.

Segundo Luís Montenegro, por outro lado este é também um discurso que induz confiança na capacidade dos portugueses relativamente ao futuro. “Induz também e comporta um apelo ao bom senso das escolhas que o país terá de continuar a fazer no futuro para não desbaratar esse esforço que foi feito ao longo dos últimos anos”, acrescentou.

O líder parlamentar do PSD considerou que “os objetivos que o Presidente da República elencou que devem ser cumpridos nos próximos anos são o sustentáculo do desenvolvimento económico do país, da criação de emprego”, da afirmação da capacidade e da competitividade da economia portuguesa. “Para podermos continuar a ter crescimento económico e recuperação social, que é aquilo que move qualquer agente político, sendo ele do Governo ou da oposição”, acrescentou. Por isso, frisou que “estar a dar esse caráter partidário” às palavras de Cavaco Silva “é querer desviar a atenção para um discurso que é realista, independentemente das posições políticas que afastam os diversos partidos e os diversos agentes políticos”.

O CDS também preferiu elogiar as palavras de Cavaco Silva. O líder parlamentar dos centristas, Nuno Magalhães, elogiou a intervenção de “esperança”, considerando ter sido “um discurso muito adequado ao Dia de Portugal e dos portugueses, ou seja, um discurso mobilizador, um discurso de esperança por parte do Presidente, sem esconder, obviamente, os desafios que também temos pela frente”, afirmou o líder da bancada dos democratas-cristãos.

Concordando com o objetivo traçado pelo chefe de Estado no sentido da promoção do crescimento económico, o deputado do CDS-PP disse ainda ter-se tratado de um discurso de “balanço” e adequado ao dia. “Foi coerente com aquilo que tem dito e praticado”, sublinhou.