Um relatório governamental israelita, divulgado este domingo, defende a conduta do país durante o conflito em Gaza no verão de 2014, afirmando que as ações de guerra conduzidas na altura por Israel foram “legítimas” e “legais”.

No mesmo documento, o governo israelita sublinhou que as forças do país não pretenderam atingir intencionalmente alvos civis durante o conflito que decorreu entre julho e agosto do ano passado na Faixa de Gaza.

“A maioria dos factos que foram encarados por partes externas como ataques indiscriminados contra civis ou alvos civis foram de facto ataques legítimos contra alvos militares, aparentemente civis, envolvidos em operações militares de grupos terroristas”, mencionou o relatório.

Segundo as Nações Unidas, este conflito, que durou 50 dias, fez cerca de 2.200 mortos entre os palestinianos, a maioria era civil e 500 eram crianças.

A ONU e várias organizações não-governamentais denunciaram, por diversas ocasiões, ataques contra civis, crianças e escolas.

Do lado israelita, morreram 73 pessoas, incluindo 67 soldados.

Durante o conflito, de acordo com o mesmo documento, Israel só dirigiu ataques contra locais e indivíduos quando tinha “uma certeza razoável” que estes constituíam alvos militares ou que faziam parte das hostilidades.

“Israel não atingiu de forma intencional civis ou alvos civis”, reforçou o texto.

Quanto aos civis que foram atingidos, Israel afirmou que foram “efeitos indiretos infelizes – mas legais -, de ações militares legítimas em zonas” com população civil.

Este documento, que foi redigido por uma comissão especial formada por membros do gabinete do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu e elementos dos Ministérios da Justiça e dos Negócios Estrangeiros, também acusou o movimento islâmico palestiniano Hamas (que controla a Faixa de Gaza desde junho de 2007) de “crimes de guerra”.

“O Hamas cometeu crimes de guerra. (…) Os manuais de combate e de treino do Hamas (…) demonstram que a sua estratégia foi mudar de forma deliberada as hostilidades para zonas urbanas”, assinalou o relatório.

O governo israelita argumentou ainda que com esta estratégia, o movimento procurava conseguir “uma vantagem tática” no campo de batalha, mas também “uma conquista política”.

Em reação, o Hamas já rejeitou este relatório do governo israelita, afirmando que este documento é uma tentativa de alterar os factos.

“É claro que rejeitamos este relatório. Faz parte das tentativas [de Israel] para mudar a sua imagem e de dar a volta aos factos, com o objetivo de mostrar que não cometeram crimes de guerra contra os palestinianos e que os palestinianos são os criminosos”, disse o porta-voz do Hamas, Sami Abu Zuhri, num comunicado.

Também o governo de união palestiniano rejeitou o relatório israelita.

“A decisão de Israel de negar que os civis foram um alvo em Gaza é uma continuação lógica daquilo que Israel fez em Gaza”, afirmou, em declarações à agência francesa AFP, Ehab Bseiso, porta-voz do governo de união palestiniano a partir de Ramallah, na Cisjordânia ocupada.

Nesse sentido, frisou o mesmo representante, a publicação deste relatório “não muda em nada a posição [palestiniana] de exigir uma investigação internacional”.

Este documento do governo israelita é divulgado pouco antes da publicação de um relatório da Comissão dos Direitos Humanos da ONU, cuja apresentação está prevista para este mês.