Ainda não há detalhes quanto ao preço, aos conteúdos e ao dia em que a norte-americana Netflix se estreia em solo português. Mas já há certezas sobre isto: o streaming de conteúdos de entretenimento pela internet chega a Portugal em outubro, as séries “House of Cards” e “Orange is The New Black” não constam do catálogo inicial “por enquanto” e a empresa tem a porta aberta para os portugueses que quiserem apresentar projetos “incríveis”.

“Se chegar alguém à Netflix a apresentar um projeto incrível, que faça todo o sentido para o consumidor português, porque não?”, adianta ao Observador Amanda Vidigal, responsável pela comunicação da Netflix, em Portugal.

Quanto às séries que vão estar disponíveis em Portugal, só há certezas sobre os conteúdos exclusivos, que vão incluir o drama familiar “Bloodline”, a série “Daredevil”, que é produzida em parceria com a Marvel, as aventuras de “Marco Polo”, a vida de Kimmy em “Unbreakable Kimmy Schmidt”, o thriller “Sense8”, a história de “Grace and Franckie” e a série que gira em torno da cozinha, a “Chef’s Table”.

“Precisamos de seguir a lei de cada país e as licenças que as operadoras detêm sobre cada conteúdo. Por isso, não temos um catálogo igual em todos os países”, disse Amanda Vidigal. Os sucessos “House of Cards” e “Orange is The New Black” não vão estar disponíveis “por enquanto”, referiu a responsável, mas é uma realidade que pode estar prestes a mudar.

“Em 2012, quando fizemos as séries, não tínhamos esta expansão global e vendemos os diretos para outra operadora, que detém a licença de primeira janela, de lançamento. Mas claro que estamos a tentar negociar para que elas constem do nosso catálogo”, adiantou.

De temporada em temporada

Os novos episódios dos conteúdos originais da Netflix são disponibilizados à mesma hora para todos os países onde a plataforma está presente. Mas as séries compradas a outras produtoras não. Neste caso, o lançamento é por temporadas. Ou seja, pode ser possível encontrar todas as temporadas de “Friends” na Netflix – porque há muito que a série terminou -, mas se for fiel seguidor de “Uma Família Muito Moderna”, por exemplo, terá de esperar que a temporada atual termine para poder assistir aos episódios mais recentes. Porquê? Porque a Netflix não compra episódios únicos, mas temporadas.

Vantagens? Os utilizadores podem aceder aos conteúdos quando quiserem e no equipamento que preferirem: televisores com ligação à internet, tablets, computadores, PlayStation, Wii, smartphones, entre outros, por uma mensalidade fixa. A empresa ainda não avançou com os preços que vai praticar no país, mas a título de exemplo: a mensalidade em França é de 7,99 euros.

Há três tipos de assinaturas: a mais básica (7,99 euros em França) permite criar cinco perfis, mas os utilizadores não podem assistir aos conteúdos ao mesmo tempo. A versão intermédia (8,99 euros em França) permite que duas pessoas a utilizem a plataforma em dispositivos diferentes ao mesmo tempo, em alta definição. E a versão mais elevada (11,99 euros em França) permite que estejam ligados em simultâneo quatro dispositivos, e que se assista aos conteúdos em alta definição e ultra alta definição.

Amanda Vidigal explica que o catálogo de conteúdos é algo que está em permanente atualização e que o processo de negociação “nunca acaba”. E dá o exemplo do que se passou no Brasil: no primeiro ano, a Netflix mais do que duplicou o número de conteúdos disponíveis. “Acreditamos que Portugal, Espanha e Itália vão ter o melhor catálogo inicial de conteúdos que já lançámos até hoje”, diz.

Há vida para além das séries?

Nem só de séries vive a Netflix. Na plataforma de streaming, é possível encontrar documentários, filmes e outro tipo de programação (como a stand-up comedy no Brasil). Se em França, a plataforma tem de esperar 36 meses para poder disponibilizar um filme que sai agora no cinema, em Portugal, a empresa ainda não sabe quanto tempo terá de esperar. No Brasil, são apenas cinco meses, por exemplo.

“Nos três primeiros meses do ano, os assinantes da Netflix assistiram a 10 mil milhões de horas de conteúdos no mundo inteiro. É muito conteúdo. Só em séries originais, este ano, estamos a lançar 320 horas de conteúdo novo, entre séries e documentários”, diz Amanda Vidigal.

E entre conteúdos próprios ou comprados, há espaço para a produção nacional. A Netflix costuma ter 80% de conteúdos que são globais e 20% de produção local, mas também esses terão de ser licenciados por quem detém os direitos sobre os filmes, séries ou outro tipo de programação.

Quanto à eventualidade de ser preciso estabelecer parcerias com operadores de internet, por causa da banda larga, Amanda Vidigal adianta que a empresa está “aberta para toda e qualquer parceria”, mas que não vê a internet como uma “barreira”, sobretudo na Europa, “que já tem boa qualidade” de rede.

“A Netflix tem mais de mil engenheiros na empresa, que são as pessoas que trabalham todos os dias para que o serviço seja cada vez melhor. Temos uma tecnologia Adapted Streaming, na qual a qualidade da imagem se adapta à banda larga do dispositivo de cada utilizador”, diz Amanda Vidigal.

A concorrência da Netflix em Portugal passa pelos serviços de TV paga, como a NOS, Meo, Vodafone ou Cabovisão, mas a responsável adianta que o maior concorrente da empresa é “qualquer tipo de entretenimento”, começando na leitura de um livro, passando pelas compras ou pelo passeio. “A pergunta é: o que é que você vai fazer ao seu tempo livre? Isto é o nosso maior concorrente”, diz Amanda.

E quando o assunto é a pirataria, a resposta da responsável é clara:”Não é nosso papel acabar com a pirataria.” Amanda Vidigal afirma que a Netflix acredita que a pirataria existe, porque as pessoas não têm acesso ao conteúdo como gostariam de ter e que a sua plataforma vem mudar isso.

Contudo, a empresa está preparada para que o mercado das televisões e de outras empresas de streaming internacionais reaja. “O consumidor é que sai a ganhar”, diz.