Cancro

E se o cancro do pâncreas se detetasse com uma análise de sangue?

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Quando se diagnostica o cancro do pâncreas, muitas vezes é tarde demais. Um trabalho conduzido por uma investigadora portuguesa encontrou uma forma de o detetar assim que se começa a desenvolver.

PEDRO SÁ DA BANDEIRA/LUSA

O cancro do pâncreas é uma doença que normalmente não apresenta sintomas, por isso quando é detetada já está numa fase muito adiantada (cerca de 80% dos casos no estadio mais grave). A deteção é tão tardia que a remoção do pâncreas ou da parte afetada já não resolve o problema e também não existe tratamento específico para este tipo de cancro. Os doentes em estadio IV (o mais grave, quando o cancro se disseminou para partes distantes do organismo) acabam por morrer ao fim de quatro a seis meses.

Por ser assintomático (sem sintomas), era importante que pudesse ser detetado precocemente, mas as técnicas de imagiologia como a ressonância magnética ou atomografia axial computorizada (TAC) não são adequadas para utilização em medicina preventiva – são muito dispendiosas e, no caso da TAC, implicam a exposição à radiação. O ideal seria que o rastreio pudesse ser feito de uma forma tão simples como uma análise de sangue.

Esta realidade pode estar mais próxima do que imagina. A equipa de Sónia Melo, investigadora no Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup), verificou que as células do cancro do pâncreas produzem uma proteína que permite distinguir com certeza os doentes com esta doença das pessoas saudáveis ou com lesões não malignas, como uma doença inflamatória. Esta proteína (GPC1) pode ser facilmente encontrada no plasma sanguíneo do doente com cancro do pâncreas, porque a concentração é tanto maior quanto maior a atividade do cancro. Os resultados desta investigação foram publicados esta quarta-feira na Nature.

Em Portugal não existe, por enquanto, nenhum laboratório de análises que consiga fazer este tipo de análise. Por isso constitui-se uma spin-off que pretende desenvolver um teste tão rápido como os que existem para a glicose, diz a investigadora ao Observador. Acrescentando que em dois anos esta técnica poderá estar criada. Depois é esperar que seja aprovada pelas autoridades que regulam a venda de medicamentos – EMA na Europa, FDA nos Estados Unidos ou Infarmed em Portugal – e que seja aprovada, recomendada e comparticipada pelo sistema nacional de saúde.

Como descobriram que esta proteína era importante neste processo?

Sónia Melo, investigadora principal no grupo de Dinâmica Genética das Células de Cancro no Ipatimup, já tinha identificado a importância dos exossomas para os cancros. Os exossomas são pequenas vesículas produzidas por todas as células do organismo, em tudo semelhantes à célula-mãe, incluindo no material genético, mas muito mais pequenas e sem núcleo. A grande diferença é que as células do cancro produzem muito mais exossomas: “100 vezes mais do que as células normais”, refere a investigadora.

A função dos exossomas ainda não é bem conhecida, mas no caso dos cancros parecem facilitar as metástases – a invasão de um órgão secundário pelo cancro primário. Imagine, por exemplo, um cancro da mama. Os exossomas libertados pelas células do cancro entram na corrente sanguínea e viajam pelo corpo. Se chegarem, por exemplo, aos pulmões vão fundir-se com as células deste órgão, alterando o conteúdo genético e a estrutura das células pulmonares. Se alguma célula do cancro da mama chegar a este local, já com um ambiente alterado e propício, pode desenvolver-se um novo foco de cancro da mama, mas neste caso no pulmão.

Exossomas a serem libertados por uma célula - Sónia Melo/Ipatimup

Exossomas a serem libertados por uma célula – Sónia Melo/Ipatimup

A equipa de investigadores estava assim concentrada nos exossomas. Analisaram este tipo de vesículas em diferentes amostras de cancro da mama, cancro do pâncreas e em órgãos e tecidos saudáveis, para descobrir o que tinham de diferente. Das 48 proteínas distintas encontradas, os investigadores escolheram aquelas que se encontravam à superfície (na membrana) dos exossomas, para serem mais fáceis de detetar e identificar. E ficaram com seis. “A proteína GPC1 foi a que funcionou melhor. E tinha um papel importante na programação tumoral em ratos”, explica Sónia Melo.

Os investigadores também identificaram esta proteína nos exossomas provenientes do cancro da mama, mas a “sensibilidade e especificidade não é tão grande”, refere Sónia Melo. Pelo contrário, em todos os doentes com lesões malignas no pâncreas foi detetada a proteína GPC1. Assim que o tumor se começa a desenvolver, mesmo antes da massa tumoral ser visível noutros exames, os exossomas começam a expressar esta molécula, permitindo um diagnóstico verdadeiramente precoce, explica Sónia Melo. A proteína existirá em tanto maior quantidade quanto maior a atividade do cancro.

Mas esta molécula tem outras utilidades. Quando o cancro é detetado numa fase inicial e retirado cirurgicamente existem 60% de hipótese de voltar a aparecer (dados nos Estados Unidos). A monitorização com a análise desta proteína permite perceber se se está a desenvolver um novo cancro. A monitorização de um doente que esteja a fazer tratamento também pode ser feita com a análise desta proteína – quanto mais eficaz o tratamento, menor o tamanho e a atividade do cancro, logo menor a quantidade da proteína no sangue.

Os exossomas, sendo vesículas formadas pelas células, têm material genético. A análise do material genético dos exossomas retirados do plasma sanguíneo permite também detetar que tipo de mutações existem no tumor sem ser necessário recorrer a técnicas mais invasivas.

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