A três meses das próximas legislativas, e numa altura em que quer PS, quer a coligação, parecem estar longe da maioria absoluta, António Costa acredita que ainda é cedo para arrumar a questão – afinal, à esquerda há espaço para os socialistas crescerem. E se a situação grega tem dominado a atualidade, o secretário-geral do PS não tem dúvidas: só Passos e Portas é que não conseguem ver o quão grave e imprevisível pode ser a saída da Grécia da Zona Euro.
“Não há ninguém responsável na Europa inteira a não ser o nosso Governo que não entenda que a saída da Grécia é um facto de consequências gravíssimas e imprevisíveis para a Zona Euro”, acusou Costa.
Voltando às legislativas, o ex-presidente da Câmara de Lisboa continua otimista de que tem tudo o que é preciso para vencer as próximas eleições, apesar de as últimas sondagens mostrarem um PS aquém das expectativas e um Costa com dificuldades para descolar da atual maioria. Em entrevista à SIC, o líder socialista não fugiu à questão e voltou a pedir aos portugueses a maioria absoluta. “Continuo a acreditar que o país precisa que o PS vença as eleições e com maioria absoluta. É uma condição de estabilidade, governabilidade” e “aconselhável que aconteça”.
Para já, Costa diz não estar preocupado com as sondagens, até porque acredita que “a maioria das pessoas [só] determina o seu sentido de voto na fase final da campanha eleitoral”. Mais: o líder socialista lembrou mesmo que as últimas sondagens apontam para um grande número de indecisos (26%) e que o “PS tem à sua esquerda 20% do eleitorado distribuído em vários partidos”. Ou seja, António Costa considera que o PS ainda pode cavalgar à esquerda em direção à maioria absoluta. E se não conseguir a maioria absoluta, Costa casa com quem? O líder socialista não respondeu diretamente à pergunta, mas não deixou de piscar o olho ao Livre de Rui Tavares.
“Aquilo que eu acho que é a melhor forma de governarmos é com maioria, sem que isso signifique autossuficiência e falta de diálogo com os outros partidos. Vejo infelizmente que à nossa esquerda, à exceção do Livre, [BE e a PCP] têm um objetivo fundamental: fazer um concurso a ver qual deles é o mais anti-PS.”
Sustentabilidade da Segurança Social. Uma parceria de todos
A intenção de reduzir a Taxa Social Única (TSU) para empresas e trabalhadores, conhecida pela primeira vez no cenário macroeconómico desenhado pelos doze economistas convidados pelo PS, foi uma das medidas que mais críticas mereceu.
Na entrevista à SIC, António Costa defendeu que este era o único caminho para garantir a estabilidade da Segurança Social no futuro. “Não se trata de reduzir a TSU, mas [sim] de diversificar as fontes de financiamento da Segurança Social, substituindo a exclusividade da TSU com a incidência no IRC”, explicou.
E para desfazer todas as dúvidas, o líder socialista fez questão de esclarecer que nenhum trabalhador pode recusar a redução na TSU. Ainda assim, deixou a garantia que “as pensões não serão afetadas“:
“[O trabalhador] não pode recusar, mas não há necessariamente penalização das pensões. Não é dizer às pessoas que vão receber mais e depois pagam com juros.”
Com São Bento no horizonte, o ex-presidente da Câmara de Lisboa acredita que tem a receita certa para “desfazer este novelo” em que se tornou a economia portuguesa, e, para isso, propõe “uma parceria entre todos”. Como? Costa explica: “O Estado vai sacrificar um pouco das suas receitas, as empresas vão sacrificar um pouco dos seus lucros para aumentar o rendimento dos trabalhadores, e os trabalhadores vão ter algum desafogo“. É a “trilogia” do crescimento, resumiu o socialista.
“Emprego, rendimentos e investimento nas empresas são a trilogia que é absolutamente essencial para podermos virar esta página de austeridade”, explicou o líder socialista.
Mas nem tudo são boas notícias para os portugueses. Mesmo garantido que não vai “mexer na lei idade de reforma” caso chegue a primeiro-ministro, António Costa não fechou a porta ao aumento da idade legal de reforma. “Nós não vamos mexer na lei. Aplicar-se-á a fórmula que está aprovada desde a reforma de 2007 que prevê, como sabe, a evolução da idade da reforma em função do fator de sustentabilidade da Segurança Social e em função da esperança de vida.”
Já do lado do IRS, o líder socialista prometeu desenhar um modelo mais justo, onde “aqueles que têm maior capacidade contributiva vão pagar mais e os que têm menos rendimentos vão pagar menos”. E não se ficou por aqui: Costa confirmou que o PS vai repor o Complemento de Solidariedade para Idosos, o Rendimento Social de Inserção e o abono de família. Tudo para contrariar a receita de austeridade aplicada pelo executivo de Passos, que, para Costa, falhou. “Esta estratégia de austeridade como motor de crescimento falhou. Deixemo-nos de experimentalismos“, pediu Costa.
Já no final da entrevista, o secretário-geral socialista foi confrontado com o “Caso Sócrates”: o alegado descontentamento do ex-primeiro-ministro com o distanciamento de António Costa e as consequências para as contas do PS de uma eventual libertação do “Animal Feroz” em plena campanha eleitoral. Costa voltou a repetir uma mensagem que já tem deixado várias vezes: à Justiça o que é da Justiça, à política o que é da política.