Foram precisas quase cinco horas de reunião para o PS aprovar as listas de candidatos a deputados. No final, duas versões da mesma história: por um lado, a direção nacional, pela voz do presidente Carlos César, satisfeita com o dito “sucesso” das negociações que deu lugar a uma “renovação quase sem precedentes” dos candidatos a deputados; por outro, a ala mais segurista, pela voz de António Galamba, que saiu furiosa com os critérios e os resultados. Pelo caminho, uma baixa, de Álvaro Beleza, que abdicou da sua posição confortável na lista de Lisboa para dar lugar a João Soares.

“O PS ultrapassou mais uma etapa e fê-lo com sucesso. Assistimos aqui a uma renovação profunda, sem precedentes, que mostra a capacidade do PS de mobilizar novos contributos e de renovar o partido, não só do ponto de vista programático, como do ponto de vista dos recursos humanos que o país emprega”, disse aos jornalistas Carlos César, à saída do Largo do Rato, já perto das 3h da manhã.

A renovação de que Carlos César falava é aferida pelos números: dos 230 candidatos efetivos, só 64 são nomes repetidos das listas de 2011, sendo que 166 dizem respeito a figuras que não estiveram no Parlamento nos últimos quatro anos, entre os totalmente estreantes na vida parlamentar e os que já assumiram essas funções há mais tempo. Para Carlos César, o número é um sinal de que o partido sai “reforçado” depois de um processo “complexo pelas suscetibilidades que implica”. António Costa que, à entrada, só tinha falado aos jornalistas para se mostrar “tranquilo”, saiu como entrou: “foi uma reunião tranquila, disse, antes dos desejos de “boas noites”.

Tranquila pode, no entanto, não ser a palavra mais certa. As listas de Lisboa, Porto e Coimbra foram as mais difíceis de fechar, tendo acabado por ser aprovadas com um máximo de sete votos contra (no caso de Coimbra). A lista de Lisboa, que é a mais concorrida, acabou por ser uma das mais discutidas e alterada em vários pontos. Isabel Moreira, que estava muito para baixo na ordenação, subiu uns lugares, e João Soares e Jorge Lacão, que não estavam na proposta inicial da federação, foram repescados por Costa. O mesmo aconteceu com Gabriela Canavilhas, que foi incluída na lista do Porto, com Inês de Medeiros (Setúbal) e com Elza Pais, que entrou ao fim de muita discussão na lista de Coimbra.

O problema chamado ‘Porto’ – a lista tinha sido chumbada no dia anterior pela comissão distrital – acabou por ser resolvido com alguma surpreendente facilidade, tendo sido incluídos os nomes do ex-líder parlamentar de Seguro, Alberto Martins, e da ex-ministra da Cultura Gabriela Canavilhas. No fim, chegou-se aos seguintes nomes ordenados (primeiros dez): Alexandre Quintanilha (independente), José Luís Carneiro, Isabel Santos, Alberto Martins, Renato Sampaio, Luísa Salgueiro, João Torres (JS), João Paulo Correia, Ana Paula Vitorino e Gabriela Canavilhas. Resultado final: apenas dois votos contra e quatro abstenções. Aos jornalistas, José Luís Carneiro chegou a admitir que podia mesmo trocar de posto com o segurista Alberto Martins, caso ele quisesse. Um gesto meramente simbólico e apaziguador, já que na prática não fará diferença porque ambos serão eleitos.

Em Coimbra a facilidade não foi a mesma e a rutura foi maior: sete votos contra. Pelo adivinhar da dificuldade dos trabalhos, a discussão sobre a lista proposta pela federação de Coimbra foi mesmo deixada para o fim. Avocada pela direção do PS, a lista sofreu uma grande reviravolta nos primeiros lugares, à exceção da cabeça de lista, Helena Freitas (independente), que era a grande exigência de Costa, e do número dois, Pedro Coimbra (líder da federação). No terceiro posto, que cabia ao deputado Rui Duarte, que entretanto renunciou por estar a braços com a justiça num processo de falsificação de inscrições, foi colocado o deputado João Galamba (da direção de Costa), sendo que para a quinta posição foi também colocada – a custo – a deputada Elza Pais. A inclusão da deputada Elza Pais nesta quarta posição foi precisamente o principal motivo de tensão entre a direção do partido e o líder da federação, o que levou mesmo o secretário-geral António Costa, a ter de intervir para “acalmar” os ânimos, segundo apurou o Observador.

Seguristas derrotados

Mas mais do que uma disputa de lugares, o que estava em causa para os seguristas, era o tira-teimas sobre a capacidade de António Costa unir ou não unir o partido. Na opinião de Carlos César, o tira-teimas teimou em favor de António Costa: “O partido sai reforçado e unido na diversidade”, disse, acrescentando que valorizava “tanto os descontentamentos como as satisfações” mas que, neste caso, “as satisfações foram esmagadoras”.

Os descontentes foram, pois, os nomes que eram mais próximos de António José Seguro e que se tornaram mais críticos de António Costa. É o caso de Miguel Laranjeiro e de António Galamba, que, ainda antes de a reunião terminar (numa altura em que se aprovava a ordenação da lista de Lisboa), escrevia na sua página de Facebook duras críticas à atuação da atual direção do PS: Costa “fracassou” no objetivo de “unir o partido” e estará em vias de fracassar no objetivo de conseguir a maioria absoluta nas legislativas, acrescenta. “Boa sorte” nessa tarefa, lia-se.

“O Secretário Geral do PS candidatou-se à liderança com base em dois objetivos centrais: 1. Unir o partido; 2. Ganhar as legislativas com maioria absoluta. O primeiro objetivo fracassou. Quanto ao da maioria absoluta, apesar das sondagens, desejo boa sorte”, escreveu na sua página de Facebook ainda durante a reunião.

Na origem da divergência está o facto de o critério usado ter sido o das listas anteriores, de 2011, elaboradas pelo anterior líder socialista José Sócrates, e não o critério de que António José Seguro teve 31,6% de votos nas primárias contra Costa. É que em comparação com as listas de 2011, as listas agora fechadas têm maior número de ‘seguristas’. “É falso” e é “um mito urbano central”, escreveu o ex-secretário nacional de Seguro naquela rede social.

Além de António Galamba, que ficou de fora da lista de Lisboa, também Miguel Laranjeiro, ex-secretário nacional para a Organização e até aqui deputado, ficou de fora da lista de Braga. Isabel Coutinho, líder das Mulheres Socialistas, também não consta.

Já Álvaro Beleza, que tinha ficado incumbido de representar a ala segurista nas negociações das listas com a direção nacional, também saiu derrotado, mas por escolha própria. Ia numa posição perfeitamente elegível (11º) na lista de Lisboa, mas acabaria por comunicar à Comissão Política, logo no início dos trabalhos, que abdicava da posição cedendo o seu lugar a João Soares, que até então estava de fora. Acabaria por ficar apenas num lugar simbólico, o último dos suplentes.

O motivo do recuo foi, segundo disse depois aos jornalistas, uma razão de “consciência”, na medida em que tinham ficado para trás nomes como o de João Proença, ex-secretário-geral da UGT, e também próximo da ala de Seguro. Com as armas recolhidas, o balanço foi morno, nem positivo nem negativo: ” houve distritos em que as coisas correram bem e outros em que correram pior”. No final, vence a maioria. “E infelizmente a maioria tem tendência a esmagar as minorias”, disse. “Mas agora o que é preciso é andar para a frente”, rematou, garantindo que ia fazer campanha ativamente, apesar de não estar nas listas para deputado.

Primárias para a escolha dos deputados?

O futuro passa por o PS escolher os candidatos a deputados através de eleições primárias abertas a simpatizantes, para se acabar com as “reuniões secretas”. Quem o disse foi Álvaro Beleza, garantindo que o assunto foi abordado na reunião e que António Costa se mostrou recetivo.

“Fiquei satisfeito por o secretário-geral do PS ter concordado com a ideia de que, para futuro, temos de ir para um método de eleições primárias de candidatos a deputados. Evita-se assim andar-se neste processo de reuniões secretas de listas e de fações para se escolher as candidaturas a deputados”, disse aos jornalistas à saída da reunião.

Sobre isso, no entanto, Costa não confirmou, mas Carlos César deixou a porta aberta. Admitindo que era uma questão “a colocar-se no futuro, no próximo ato eleitoral”, o presidente do partido recusou no entanto a entrar em mais detalhes sobre o eventual novo método a usar pelo PS para a escolha dos deputados. Beleza tem sido o mais acérrimo defensor das eleições primárias. Até hoje, só o partido Livre fez primárias abertas para decidir a ordenação das listas de candidatos a deputados.