Depois de muita discussão, partidos e televisões já chegaram a acordo em relação ao modelo de debates para a campanha eleitoral das eleições legislativas de 4 de outubro. Dois debates, um entre Passos e Costa, outro com quatro líderes dos seis partidos com assento parlamentar, transmitidos em direto pelos três canais generalistas. A grande novidade, em relação ao que já tinha sido avançado, é a ausência confirmada de Heloísa Apolónia, líder d’Os Verdes e, sobretudo, de Paulo Portas – uma exigência do PS, que desde o início das negociações sempre rejeitou a participação do líder do CDS.

O processo pode, no entanto, não estar completamente fechado. O Observador sabe que as televisões estão a tentar iniciar uma segunda ronda de negociações com os partidos para discutirem juntos a possibilidade de se realizarem mais frente-a-frente, envolvendo outros líderes partidários, além de Passos e Costa, que já com encontro marcado.

Para já, de fora ficam Marinho e Pinto, líder do PDR, e Rui Tavares, coordenador da coligação Livre/Tempo de Avançar, entre muitos outros. Ao Observador, o ex-bastonário da Ordem dos Advogados teceu duras críticas ao modelo desenhado entre televisões e partidos, descrevendo-o mesmo como uma “vergonha” e um desrespeito pelo “pluralismo”.

“Os órgãos de comunicação social estão virados para os partidos que alimentam este sistema decadente. Esta democracia nem durante 15 dias, de quatro em quatro anos, consegue estimular o pluralismo e a igualdade. Excluir partidos do debate eleitoral não é uma homenagem à democracia”, acrescentou.

Marinho e Pinto não se fica por aqui. Não poupando também críticas aos partidos com assento parlamentar que costumam servir de oposição, o líder do PDR acredita que paira sobre os media um clima de “subserviência” aos dois principais partidos, PSD e PS. “[Os órgãos de comunicação social fazem hoje] mais propaganda a António Costa e a Pedro Passos Coelho do que a RTP fazia a Salazar e depois a Marcello Caetano” durante o Estado Novo.

O presidente do PDR defendia uma solução que poderia passar, por exemplo, por um modelo com vários debates com três a quatro candidatos sorteados entre os vários partidos concorrentes.

Rui Tavares, por sua vez, considera uma “bizarria” que se continue a ignorar em Portugal “novas realidades políticas” que florescem em toda Europa e denuncia uma “prática completamente inigualitária” das televisões em relação aos partidos sem assento parlamentar. “O que está em causa nestas eleições é a discussão da próxima composição do Parlamento” e não a anterior, sublinhou o responsável pela coligação Livre/Tempo de Avançar.

O historiador acredita que um debate a quatro, neste formato, e ignorando os partidos que se apresentam nestas eleições como uma alternativa ao sistema partidário e político tradicional, “vai apenas reforçar uma vantagem [dos outros partidos] que já vem de trás”.

A propósito, Rui Tavares recuperou ainda a polémica causada pela primeira versão da nova lei da cobertura das campanhas, que criava sérias restrições aos media no modo como deveriam planear o acompanhamento dos partidos. Ora, para o antigo eurodeputado, não faz “muito sentido que haja uma revolta contra a interferência política” para que agora se permita “uma total interferência da esfera política na esfera editorial” sem que exista qualquer respeito pelo interesse dos portugueses pelas “novas propostas políticas”.