No balanço da primeira semana de campanha eleitoral, Marcelo Rebelo de Sousa apontou vários erros que, acredita, António Costa exibiu desde que assumiu a liderança do Largo do Rato. Erros esses que, somados, dão hoje a imagem de um líder “muitas vezes sozinho”.

No habitual espaço de comentário na TVI, o ex-líder social-democrata começou por dizer que o secretário-geral do PS nunca conseguiu encontrar resposta a um desafio que se coloca aos vários partidos de centro-esquerda da Europa: como escolher um caminho alternativo, “aceitando o Tratado Orçamental e as regras da União Europeia, que são concebidas para o centro-direita”. Para Marcelo, ou se contesta em bloco, como tentou Alexis Tsipras, ou não se contesta. Então, se é gerir por gerir”, o eleitorado parece preferir os partidos de centro-direita.

Mas houve mais obstáculos no caminho dos socialistas, continuou Marcelo. “O caso Sócrates, que pesou porque houve dificuldade em gerir esse dossier”; “O caso da Grécia”, em que houve “uma colagem pontual, inicial, depois a descolagem e depois [também alguma] dificuldade em gerir esse dossier”; e claro, o “problema das presidenciais” – para o comentador, António Costa escolheu Sampaio da Nóvoa “sem o escolher”, não o assumiu “até ao fim” e deixou “espaço” para que pudesse aparecer uma candidatura autónoma, Maria de Belém.

A somar-se a isto, sublinhou o professor, a dificuldade em reconhecer o que era o país em 2011 e o que é em 2015 e ainda a clivagem interna no PS – “os seguristas estão a fazer campanha, mas não morreram de paixão pela escolha; os socráticos toleram, mas não morreram de paixão pela escolha, os soaristas não sei, e os costistas são os jovens turcos, que estão agora aparecer”. Para o comentador, António Costa parece “muitas vezes um líder sozinho“.

Marcelo Rebelo de Sousa deixou para o fim aquele que acredita ter sido o maior erro cometido por António Costa: a “hesitação entre a esquerda e o centro”. Para o antigo líder social-democrata, o PS teria mais a ganhar com o apelo ao voto ao centro e não à esquerda. Apresentado-se como uma “proposta segura, certa, sem aventura, só que dando mais esperança e acelerando a reposição da situação dos portugueses”, os socialistas disputariam cerca de “600 mil eleitores” indecisos. Mas, se “esses 600 mil que estão hesitantes” ouvem uma mensagem que é “‘nós chumbamos o Orçamento do Estado se a coligação ganhar'”, isso permite “à coligação assustar [o eleitorado] com o drama de um governo PS/CDU/BE“.

E quanto à coligação? Tem sabido galopar os erros do adversário e o momento pós-debate radiofónico, considera Marcelo. Pedro Passos Coelho e Paulo Portas parecem estar dispostos a sensibilizar “aqueles 600 mil que estão ao centro com um discurso contra o radicalismo de um eventual governo de esquerda. ‘Olhe, aqueles malandros são uns radicais, vão fazer um governo com o PCP e com BE, chumbam o nosso programa e das duas uma: ou são uns aventureiros que não têm alternativa ou então vão ser viabilizados pelo PCP e pelo BE. E vocês acham isso possível?'”

Marcelo Rebelo de Sousa deixou, ainda, um elogio ao Bloco de Esquerda e à CDU. No caso dos bloquistas, as “manas Mortágua e, sobretudo, Catarina Martins, foram, de facto, a boa surpresa desta campanha”, conseguindo recuperar um partido que estava condenado a desaparecer. Já em relação aos comunistas, o destaque vai todo para Jerónimo de Sousa, que “vai a todas” e que apostou numa “campanha para os fiéis”. Ambas as forças políticas conseguiram travar o apelo ao voto útil do PS, reforçou.

E o que nos trará o futuro pós-eleições? O comentador não tem grandes dúvidas. “Muitas noites sem dormir”. Ainda assim, Marcelo Rebelo de Sousa espera que os vencedores tenham a “serenidade redobrada, porque precisam de fazer passar o programa do Governo e o Orçamento”, e que os perdedores tenham também a “serenidade de não romperem de forma radical, nem se comprometerem no calor da noite”.