Com a chegada do frio e da chuva batem à porta as constipações e outras infeções da via aérea e do trato respiratório. E nesta lógica de 1+1=2 nem as crianças escapam. Se é pai ou mãe, saiba que o melhor que tem a fazer, caso o seu filho esteja com febre e tosse ou nariz entupido, é esperar três a quatro dias. E diga não aos antibióticos.

“Uma coisa que os pais podem ter em atenção é que, habitualmente, as situações virais dão febre de três dias”, começa por explicar ao Observador Libério Ribeiro, Presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia Pediátrica.

Portanto, prossegue, “se uma criança só tem febre ou tem o nariz entupido, uma rinorreia pequena [excesso de muco nasal], tosse ligeira e não apresenta outros sinais de alarme, como dificuldade respiratória, diarreia ou vómitos, e se faz um antipirético [paracetamol] e a febre baixa, então quase seguramente que é uma infeção viral. Aí podem e devem aguardar até aos três ou quatro dias, independentemente da idade da criança”, aconselha o especialista.

Outros conselhos? Deixe a criança de repouso, hidrate-a bem, aplique soro fisiológico, se necessário, e prepare-lhe uma dieta mais ligeira.

Libério Ribeiro acrescenta que “90% destas infeções são virais”, e, para estas, não há “qualquer necessidade de fazer terapêutica antibiótica, pois os antibióticos não têm eficácia sobre os vírus“. 

“O que acontece muitas vezes é que quando se está a trabalhar sob pressão e como não há tempo para fazer uma história completa e observação mais minuciosa da criança, acaba por o doente levar um antibiótico por uma questão de precaução. É um erro recorrente.”

O presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia Pediátrica chama ainda atenção para o último estudo internacional que revelou que, em Portugal, “54% das crianças tinham tomado, pelo menos uma vez, antibiótico no primeiro ano de vida”. Este número mostra a gravidade da questão, na medida em que “95% das infeções no primeiro ano de vida são virais”, põe em perspetiva.

O erro parte tanto dos pais, que automedicam os filhos com antibióticos, como também dos profissionais de saúde.

Grave problema da resistência bacteriana

E quais as consequências da utilização excessiva de antibióticos? Além de “custos desnecessários”, a criança fica sujeita “a efeitos adversos como diarreias, vómitos, alergias” e depois “os antibióticos matam cegamente” e isso cria um grande problema de “resistência aos antibióticos“, elenca Libério Ribeiro.

Quando se fala em resistência aos antibióticos não significa que são as crianças que tomam os antibióticos que ficam resistentes, mas sim determinadas bactérias que deixam de “reagir ao antibiótico” e “poderá ser necessário tomar outro com um espetro muito mais largo e mais agressivo”, rematou.

A partir desta quinta-feira, 22 de outubro, e até ao final do ano, vai decorrer, nas farmácias de norte a sul do país, uma campanha de sensibilização para o uso correto e racional de antibióticos, lançada pela Cooprofar Farmácia.