Austeridade

Medidas para sanar crise económica no Brasil são semelhantes às de 1990

As medidas do governo brasileiro para sanar a crise económica assemelham-se às aplicadas nos anos de 1990 pelo PSDB, hoje na oposição, pelo que não são inovadoras e conduzem à austeridade.

Crise está a levar à subida das taxas de juros, aumento de impostos e taxas, como na eletricidade

Tuca Vieira

“O caminho que o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) escolheu para sanar este quadro de crise económica é justamente o repertório do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), com subida das taxas de juros, aumento de impostos e taxas, como na eletricidade, entre outras medidas, que indicam o máximo de socialização do prejuízo da economia, que é transmitido à população”, disse Naiara Alves, coordenadora do Observatório dos Países de Língua Portuguesa (OPLOP).

A coordenadora do OPLOP relembrou que durante a década de 1990, o PSDB esteve à frente do governo brasileiro, com os dois mandatos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

“Este primeiro ano (do segundo mandato de Dilma Rousseff) está a ser afetado por dois eixos principais. Existe uma crise económica, que tem uma relação com o cenário internacional económico e que vai ter efeitos específicos no cenário brasileiro”, avaliou a investigadora do OPLOP, centro ligado à Universidade Federal Fluminense. Dilma Rousseff foi eleita para um segundo mandato, tendo vencido Aécio Neves (Partido da Social Democracia Brasileira [PSDB]) na segunda volta das eleições, realizadas a 26 de outubro de 2014.

Para Naiara Alves, porque as medidas adotadas pelo governo são muito parecidas com as da década de 1990, as críticas vêm tanto dos partidos mais à esquerda como à direita, referiu Naiara Alves.

O que chamamos de crise económica é, na verdade, uma estagnação da economia brasileira, na qual vemos a alta do dólar (que tem vindo a baixar devido à intervenção do Banco Central) e o aumento do desemprego, como no ABC paulista (Santo André, São Bernardo e São Caetano/região metropolitana de São Paulo — concentração de grandes indústrias, nomeadamente fábricas de automóveis), por exemplo”, sublinhou a investigadora.

Segundo Naiara Alves, este é “um cenário económico desfavorável”, acrescentando que a crise económica, que surge no início do ano, “acontece concomitantemente com uma crise política”.

Os partidos da oposição também se têm apropriado da crise económica no seu discurso contra o governo, principalmente o PSDB que, ironicamente, salientou a investigadora, é o partido do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

“Alguns membros de partidos de esquerda apoiaram Dilma na segunda volta da eleição por não quererem o PSDB no governo, entretanto os partidos de esquerda são muito críticos em relação às medidas económicas tomadas pelo PT para resolução da crise”, referiu Naiara Alves. Segundo Luís Silva, outro investigador do OPLOP, “os partidos mais à esquerda referiram que o PT nunca foi tão de direita na vida quando implementou estas reformas económicas”.

Segundo estes dois académicos do OPLOP, o PT não inovou muito na forma de governar, entretanto, teve o mérito de dar à agenda social a importância que nunca havia alcançado no país. “A agenda social ganha um papel, um quinhão do orçamento que nunca havia tido”, disse Naiara Alves, referindo-se nomeadamente aos programas sociais, como o Bolsa Família (transferência de dinheiro para famílias mais pobres). Luís Silva referiu ainda que tratar do setor social no Brasil ainda é difícil, pois o país não está acostumado a este tipo de abordagem.

No entanto, no segundo mandato de Dilma Rousseff, mesmo esta agenda social tem vindo a ser prejudicada com a crise económica.

Todos os programas que têm um alcance social maior ficaram prejudicados com estas medidas de austeridade, como o programa Minha Casa, Minha Vida (construção de casas sociais), o Bolsa Família, assim como os setores de cultura e educação, incluindo auxílios estudantis, as verbas para as universidades e o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego)”, referiu Naiara Alves.

Segundo os académicos, uma das maiores críticas que existe hoje relativamente ao governo do PT é de ter “investido muito na área social e esquecer-se da parte do desenvolvimento, das infraestruturas, da base da educação, que não foi alterada e precisaria muito ser revista, entre outras áreas, como a saúde”.

Para Naiara Alves e Luís Silva, em quatro mandatos “o PT poderia ter aplicado políticas de longo prazo em várias áreas, mas acabaram por ficar na mesma”.

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