Passaram 20 anos da morte de Yitzhak Rabin. A pergunta que paira na mente de todos, desde o dia 4 de novembro de 1995, é a de como seria Israel e o conflito israelo-árabe se os tiros do compatriota Yigal Amir que assassinaram o primeiro-ministro israelita tivessem falhado o alvo. Ou se, simplesmente, não tivessem existido. No aniversário do assassinato importa perceber o que Yitzhak Rabin mudou, o que não mudou e o que poderia ter mudado. E esta pergunta ganha maior importância com a escalada de violência nos últimos meses nas ruas de Jerusalém.

A história do israelita nascido em plena Jerusalém no ano de 1922 vai para além da política e da diplomacia. Aliás, os seus ideais de paz só podem ser explicados através do historial militar e bélico. Pode parecer uma contradição, mas Yitzhak, soube, ao longo da sua vida, e como defendem muitos dos seus colaboradores mais próximos, mudar o país e mudar-se a si mesmo.

Esteve envolvido na história e na evolução do Estado de Israel, desde o dia da sua formação. Participou na Segunda Guerra Mundial, lutou na Guerra da Independência (1948-1949), foi herói na Guerra dos Seis Dias em 1967 e a Guerra do Yom Kippur estendeu-lhe a cadeira de primeiro-ministro.

Um passado bélico e militar

Em 1947, uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas decidiu a partilha da Palestina com o povo judaico. O sonho de um lar nacional para o povo judaico parecia possível de ser concretizado. Assim, e no ano seguinte, em 1948, o chefe-executivo da Organização Sionista Mundial e o presidente da Agência Judaica para a Palestina, David Ben-Gurion, declararam a formação de um Estado Judeu em Eretz Israel, a ser conhecido como o Estado de Israel, reconhecido quase imediatamente pela União Soviética e pelos Estados Unidos, tornando-se Ben-Gurion no seu primeiro chefe de Estado.

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Yitzhak Rabin participou ativamente na construção do Estado de Israel. Participou na Guerra da Independência e foi herói na Guerra dos Seis Dias. Mas, mais tarde, largou a carreira militar e embrenhou-se na vida política para estabelecer a paz e a segurança de Israel. Mas essa foi uma guerra que não conseguiu ganhar.

A resposta árabe não se fez por esperar. E nesse mesmo ano, uma coligação militar da Palestina, Egito, Síria, Iraque, Líbano e Arábia Saudita invadiram o pequeno território israelita. Rabin, que pertencia já à tropa de elite Palmach, comandou a brigada Harel que tinha como missão manter segura a estrada crucial que ligava Tel Aviv a Jerusalém. Missão que foi bem-sucedida e permitiu a Israel vencer aquela que ficou conhecida como a Guerra da Independência.

A reputação e a atuação de Rabin valeram-lhe a promoção a Chefe do Estado-Maior do exército em 1963. Poucos anos mais tarde, em 1967, como consequência dos sucessivos ataques terroristas na fronteira com a Síria, as tensões entre judeus e árabes aumentaram drasticamente. O ponto mais alto de tensão surgiu quando o Egito colocou centenas de milhares de tropas, blindados e aviões na fronteira com Israel, e não demorou muito até que o restante mundo árabe se unisse contra israelitas. Coube então a Yitzhak Rabin a decisão de entrar ou não em guerra depois de 11 anos de paz relativa. A sobrevivência do país caía com estrondo nos ombros do Chefe do Estado-Maior do exército. 

Rabin já tinha manifestado a intenção de utilizar todos os meios para garantir a sobrevivência de Israel. E assim foi. Surpreendendo tudo e todos, um ataque aéreo arrasou as posições da força aérea e tropas da coligação árabe e num espaço de dias, o exército israelita passou a controlar toda a Península do Sinai no Egito, a Faixa de Gaza a sul da Síria, o setor oriental de Jerusalém, a Cisjordânia e os montes Golã, também na Síria. O território israelita tornou-se três vezes maior do que o era seis dias antes. E Yitzhak foi visto como um herói de guerra.

(from L to R) Israeli Deputy Chief of Staff in the the Israel Defense Forces (IDF) Haim "Kidoni" Bar-Lev, General and chief of staff of the IDF Yitzhak Rabin and General and IDF's Deputy Chief of Staff Ezer Weitzmann talk on June 6, 1967 about the military operation during the Six-Day War. AFP PHOTO (Photo credit should read DERZI/AFP/Getty Images)

Yitzhak Rabin (no meio) a planear a operação militar que apanhou toda a gente de surpresa na Guerra dos Seis Dias. (DERZI/AFP/Getty Images)

A vitória na Guerra dos Seis Dias abriu a porta do mundo diplomático ao militar. Por isso, em 1968, e depois de 27 anos no exército, Yitzhak ocupou a posição diplomática mais importante do país: embaixador nos Estados Unidos. Em pouco tempo desenvolveu relações muito próximas com o presidente americano Richard Nixon e com o Secretário de Estado Henry Kissinger. Esta proximidade permitiu a Israel obter, por parte dos EUA, equipamento militar para a luta contra o mundo árabe, sem lhe ser (publicamente) exigido nada em troca. Rabin dava os primeiros passos em direção à política e ao Governo.

O caminho para o Governo e para a pacificação

Em 1973, as ambições de Yitzhak Rabin já iam muito para além da diplomacia. Nesse ano regressou ao seu país para disputar um lugar no Knesset, o Parlamento israelita. Mas, numa das datas mais importantes do Judaísmo, o Yom Kippur, o Dia do Perdão, a Síria e o Egito atacaram, de surpresa, Israel. Apesar da vitória israelita na Guerra do Yom Kippur, as enormes baixas sofridas fizeram tremer o Governo da mítica Golda Meir. As culpas da vulnerabilidade israelita recaíram sobre o Governo provocando a sua queda.

O lugar no Knesset ficou posto de lado, e Rabin foi o candidato do Partido Trabalhista às eleições de 1974. E ganhou. O primeiro “sabra” (nascido em território de Israel) subia assim ao poder.

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Em 1974 ocupou o cargo de primeiro-ministro. Mas um escândalo que envolveu a mulher Leah levou à sua demissão em 1977. Regressou ao cargo em 1992 até 1995. Nesses três anos deixou a sua verdadeira herança como “soldado da paz”. E muitos se perguntam hoje como seria o futuro de Israel e do Médio Oriente se Yitzhak Rabin não tivesse desaparecido.

No seu primeiro mandato enquanto primeiro-ministro, o antigo militar continuou a sua política rígida na defesa e na manutenção da segurança de Israel. Mas, em 1977, a revelação de que a sua mulher Leah tinha uma conta bancária ativa em Washington, desrespeitando as apertadas leis israelitas, levou ao fim da experiência como chefe do Governo. Rabin demitiu-se e entrou num período de exílio político.

Durou 7 anos. Foi o tempo necessário para o escândalo que envolveu Leah cair no esquecimento. Em 1984 foi eleito um governo de coligação entre o Partido Likud, de direita, com o Partido Trabalhista e Rabin foi convidado a ocupar o lugar de Ministro da Defesa. Tanto a esquerda como a direita confiavam ainda nas capacidades do antigo primeiro-ministro.

Nas novas funções, o ministro teve que enfrentar um dos maiores desafios até essa altura. A Primeira Intifada: uma revolta espontânea palestiniana, na Cisjordânia e no extremo norte da Faixa de Gaza, contra a ocupação israelita do Líbano. Os violentos confrontos entre palestinianos e as autoridades correram o mundo, bem como os métodos brutais dos soldados para acalmar os ânimos. Durante este período, Rabin terá utilizado uma expressão em forma de ordem que marcou toda a sua vida e que os palestinianos nunca esqueceram: “Partam-lhes os ossos”. Nunca se soube se a afirmação terá sido realmente dita.

No entanto, a atuação durante este processo, que se prolongou durante anos apesar das represálias policiais, deu a Rabin credibilidade suficiente quando decidiu, mais tarde, alterar o curso dos acontecimentos e o seu próprio estilo de atuação.

Um dos primeiros sinais da sua mudança de comportamento e o começo do verdadeiro legado de paz de Rabin aconteceu quando o próprio reconheceu que a via política era o único caminho para se encontrar uma solução para um conflito que durava há décadas.

O problema que enfrentamos só pode ser solucionado através de medidas políticas. Pela via militar, pela força podemos ganhar tranquilidade, mas não uma solução.”

No entanto, o Governo de coligação não aguentou e caiu.

Oslo, o Nobel e o “soldado da paz”

Quando terminou a primeira Guerra do Golfo, em 1991 (após o Iraque ter invadido o Kuwait, forças de uma coligação liderada pelos Estados Unidos entraram em território iraquiano e derrotaram Saddam Hussein), o presidente americano George W. Bush virou as atenções e esforços para a paz no Médio Oriente e sentou o relutante Presidente Yitzhak Shamir de Israel à mesma mesa com os representantes árabes em Madrid. 

A paz era, pela primeira vez, uma possibilidade. Os israelitas estavam prontos para isso e olhavam para Yitzhak Rabin como a única pessoa capaz de a alcançar. 

Em junho de 1992 o militar, diplomata e político torna-se primeiro-ministro pela segunda vez, depois de uma campanha assente nas promessas de paz comprometendo-se até, e se fosse necessário, a trocar territórios ocupados por essa paz. Começava assim mais uma guerra na vida de Rabin. A guerra pela paz.

Foi também a confirmação, como muitos defendem, de que se estava perante o único e verdadeiro discípulo de Ze’ev Jabotinsky: o principal líder espiritual da direita israelita e autor da estratégia do “muro de ferro”.

Na sua essência, o “muro de ferro” consistia numa estratégia de força militar intransponível contra o inimigo árabe. O objetivo era conquistar a independência de Israel e esta era a única forma de a conseguir. Mas a estratégia consistia em dois passos. Como previra Jabotinsky, o povo árabe iria, repetidamente e constantemente, lançar-se contra o “muro de ferro” para enfrentar os sionistas (movimento político e filosófico que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado nacional judaico independente) no campo de batalha. Nessa altura passar-se-ia para a segunda fase: negociar com os palestinianos os direitos de cada um no território da Palestina.

Neste prisma, pode-se afirmar que todos os líderes israelitas se ficaram pela primeira fase. Todos menos Rabin. O seu segundo mandato como primeiro-ministro foi a passagem para a segunda fase da estratégia de Ze’ev.

Durante a sua liderança, representantes israelitas encontraram-se, secretamente, com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) liderada por Yasser Arafat quebrando um tabu quase crónico dos dois povos. Na sequência destes encontros, Arafat enviou uma carta ao Governo a reconhecer o Estado de Israel recebendo de seguida o reconhecimento oficial da OLP da parte israelita.

Esta maratona de negociações culminou no histórico dia 13 de setembro de 1993. Em Washington, sob a supervisão do presidente americano Bill Clinton, Rabin e Arafat assinaram um acordo que dava o controlo da Faixa de Gaza e da Cisjordânia à Palestina. Na memória desse dia ficou também a hesitação de Rabin antes de apertar a mão ao seu inimigo histórico.

Ficava assim cumprida a promessa feita em campanha eleitoral de trocar terras por paz. E, por isso, tanto a assinatura do acordo como o discurso na cerimónia na Casa Branca, iniciaram uma mudança de paradigma e de pensamento que chocaram a ala mais ortodoxa do Sionismo e do povo judaico:

Nós que ficámos manchados de sangue. Nós que vimos os nossos familiares e amigos a morrerem à frente dos nossos olhos. Nós que lutámos contra vocês os palestinianos. Nós dizemos-vos hoje, em voz alta e clara: chega de sangue e lágrimas. Chega.”

Estes acordos abriram caminho a um entendimento entre judeus e árabes. Mas a tensão em Israel aumentava, com a população da extrema-direita religiosa a recusar-se a ceder partes da sua Terra Santa aos inimigos. Rabin era chamado de traidor e apelidado de nazi. A pior ofensa que um judeu pode chamar a outro. A revolta levou à morte de dezenas de árabes assassinados por contestatários judeus.

Mas o processo de pacificação não parou e um ano mais tarde foi assinado um acordo de paz com o rei Hussein da Jordânia. O reconhecimento da comunidade internacional chegou dois meses depois do acordo com a Jordânia: Yitzhak Rabin, Yasser Arafat e Shimon Peres, na altura Ministro dos Negócios Estrangeiros, receberam o prémio Nobel da Paz pelos, e como explicou o Comité sueco, “seus esforços em alcançar a paz no Médio Oriente.” Este galardão deveria servir “como estímulo a todos os israelitas e palestinianos que se esforçam por estabelecer a paz na região.”

OSLO, NORWAY - 1994: In this handout from the Government Press Office, (R-L) Israeli Prime Minister Yitzak Rabin, Israeli Foreign Minister Shimon Peres and Palestinian leasder Yaser Arafat, the joint Nobel Peace Prize winners for 1994, in Olso, Norway. (Photo by Government Press Office via Getty Images) *** Local Caption *** Yitzak Rabin;Shimon Peres;Yaser Arafat

 Os esforços para alcançar a paz no Médio Oriente valeram a Yasser Arafat, a Yitzhak Rabin e a Shimon Peres o prémio Nobel da Paz em 1994. (Government Press Office via Getty Images) 

A motivação era grande. Por isso, foi assinado outro acordo, outra vez em Washington e mediado por Clinton, entre Rabin e Araft onde o israelita se comprometia a retirar as tropas estacionadas na Cisjordânia.

Apesar da pressão social no seu país, o primeiro-ministro não parou com as intervenções públicas na defesa desta causa e que entraram na história:

Eu, BI militar número 30743, General retirado das forças da defesa israelita no passado. Considerem-me hoje um soldado no exército da paz”, Yitzhak Rabin no Congresso americano em julho de 1994.

Yitzhak não desistia e negociava, nesta altura, mais com o seu próprio povo do que com o inimigo eterno. Por isso, e para responder aos protestos contra a sua governação, foi organizada uma manifestação pela paz, no dia 4 de novembro de 1995, que juntou, calcula-se, perto de 200 mil pessoas na Praça dos Reis, hoje Praça Yitzhak Rabin.

Minutos depois de abandonar o local do evento, e quando se encaminhava para o carro, Yigal Amir, um estudante judeu ortodoxo e opositor dos acordos de Oslo, disparou três tiros para terminar com o processo de paz com a Palestina. E conseguiu. Rabin morreu a caminho do hospital. E este terá sido um dos assassinatos políticos mais bem-sucedidos da história.

Muitos consideram que o primeiro-ministro terá ido longe demais nas suas declarações e na sua luta pela paz. No último discurso no Knesset afirmou, por exemplo, e ao falar da chegada dos israelitas à Palestina que, “nós não chegámos a uma terra vazia.” Esta afirmação vinda de um sionista, de um antigo militar e de um nascido em plena Jerusalém foi vista como uma autêntica heresia.

Assim, e depois de contribuir para a vitória em duas guerras, Rabin caiu perante os disparos de um compatriota. O Estado de Israel ficou diferente depois desse momento. Igual ao que era antes e diferente do que poderia ter sido se o antigo General tivesse conquistado a vitória nesta guerra.

A sua morte gerou a mais profunda consternação um pouco por todo o mundo. Do Oriente ao Ocidente, muitos líderes mundiais prestaram homenagem e marcaram presença no funeral de Rabin. No passado sábado, dia em que se comemorou (de acordo com o calendário hebraico) a morte do líder, milhares de pessoas juntaram-se na praça com o seu nome para o recordar. Barack Obama foi um dos líderes que se quis associar à homenagem e enviou um vídeo com a sua declaração. 

Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos, recordou o dia da morte de Rabin como o momento mais difícil na sua presidência. Primeiro, pelo amigo que morreu, depois porque sem ele, os acordos de Oslo estavam mortos. Para Clinton os acordos de Oslo só seriam possíveis com Yitzhak Rabin, isto porque, Arafat confiava verdadeiramente nele e não em mais ninguém.

E depois de Rabin?

A morte de Yitzhak Rabin provocou uma mudança também na política israelita. Desde aí, foi a direita que assumiu o poder e nunca mais a largou. Benjamin Netanyahu foi um dos mais ferozes adversários dos acordos de Oslo e muito crítico de Rabin, ao ponto dos apoiantes do falecido primeiro-ministro o acusarem de criar o clima de instabilidade e violência que levou ao assassinato. Netanyahu foi reeleito primeiro-ministro, e já cumpre o seu terceiro mandato ao leme do Governo israelita.

Por sua vez, Yitzhak Rabin virou o símbolo máximo de um processo de paz que ambos os lados reconhecem que está à beira da morte. Israel é cada vez mais liderado pela direita; os colonatos nunca foram tão fortes (incluindo em termos políticos) e não há qualquer perspetiva de um recuo; a violência voltou ao território e já se fala numa terceira intifada. 

Os 20 anos da noite em que o jovem estudante Yigal Amir decidiu, depois de planear com o seu irmão, matar Yitzhak Rabin com dois tiros (o terceiro acertou de raspão no seu segurança pessoal), têm sido celebrados com um misto de nostalgia, de teoria da conspiração (ainda há quem acredite que foram os serviços secretos que encomendaram a sua morte, inclusivamente a mãe de Yigal) e de reivindicação por um novo estilo de liderança.

O sonho de Rabin, como lhe chamou Bill Clinton, de alcançar a paz e terminar finalmente o conflito entre os dois povos está cada vez mais longe de se tornar realizar, precisamente porque a violência a que tentava colocar um fim está a fortalecer a própria direita que estava contra a paz proposta por Rabin.

A vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, Esther Mucznik, também não tem dúvidas em considerar a morte do antigo primeiro-ministro “uma tragédia para Israel”, apesar de ser “profundamente sionista”. Mucznik, em declarações ao Observador, diz que Rabin deixou a consciência de que a paz só poderá ser alcançada através de um compromisso de partilha de territórios entre os povos judaicos e palestinianos e que, para isso, é necessário existir “vontade política das duas partes”. No entanto, a vice-presidente da Comunidade Israelita esclarece que não é certo que essa paz fosse alcançada mesmo que Yitzhak tivesse sobrevivido. Até porque toda a situação israelo-árabe é “muito complexa”. No entanto “ele ficou nos corações dos israelitas porque deu a vida pelo país”.