Morreu Paulo Cunha e Silva, atual vereador da Cultura da Câmara Municipal do Porto (CMP) e uma das mais relevantes figuras da cultura nortenha. O autarca tinha 53 anos e sentiu-se mal esta terça-feira à noite, em casa, na zona de Matosinhos. Ainda foi assistido, mas viria a morrer já de madrugada, como escreve o Correio da Manhã. Rui Moreira, presidente da autarquia, decretou três dias de luto municipal.

Um dos principais responsáveis pela organização do Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, Cunha e Silva fez um percurso académico que nada indiciava sobre aquilo por que viria ser conhecido: licenciou-se em Medicina, doutorou-se e chegou a lecionar Anatomia na Universidade do Porto. Mais recentemente, era professor de Pensamento Contemporâneo na Faculdade de Desporto daquela instituição. Foi colaborador regular das fundações Gulbenkian e Serralves e era igualmente presidente da comissão de Cultura do Comité Olímpico de Portugal.

A ligação de Paulo Cunha e Silva à cultura era já bastante antiga. Segundo o site da autarquia portuense, em 2001, o Público nomeou-o para Personalidade do Ano e, ao mesmo tempo, considerou-o a “figura mais relevante” da capital europeia da cultura. Em outubro, recebeu uma das mais altas condecorações do governo francês, ao tornar-se Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras.

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O corpo de Paulo Cunha e Silva estará em câmara ardente no palco do Auditório Manoel de Oliveira do Teatro Municipal Rivoli a partir das 17h00 desta quarta-feira. O Teatro estará aberto, durante toda a noite, para “todos os que queiram prestar homenagem”, informou a autarquia.

Sairá em cortejo fúnebre na quinta-feira, às 14h00, para a Igreja da Lapa onde será celebrada missa de corpo presente.

Numa recente entrevista a Anabela Mota Ribeiro, Cunha e Silva mostrava-se dececionado com certos aspetos do mundo, especialmente da cultura. “Olho com tristeza e ceticismo para a captura da política pelas finanças e da cultura pelos fundos de investimento”, dizia, sem contudo deixar de valorizar a importância de lutar por outra realidade:

O sonho, mesmo que não se concretize, é o motor secreto da mudança. Um mundo sem sonho é um mundo condenado à sua previsibilidade e anomia. Sonhar é preciso, e é preciso perseguir o sonho, por mais inconcretizável que pareça.”

Ainda há poucos dias, no encerramento do Fórum do Futuro 2015, que levou ao Porto figuras tão diversas como o filósofo Giles Lipovetsky ou a ex-atriz pornográfica Sasha Grey, o vereador afirmava que o Porto era “uma feliz-cidade”. O trocadilho com o tema principal das conferências, a felicidade, é um exemplo de como Cunha e Silva encarava o pelouro. “A cultura é um condimento essencial na construção da felicidade“, afirmou Rui Moreira, autarca que convidou Cunha e Silva para o cargo.

A CMP decretou luto municipal, mas a autarquia de Lisboa também se quis associar ao sentimento. Na reunião que decorreu esta manhã, os vereadores aprovaram por unanimidade um voto de pesar pela morte de Cunha e Silva, classificando-a como uma “perda irreparável”. Os vereadores da Cultura das duas maiores cidades do país tinham trabalhado juntos recentemente no projeto Experimenta Design, que este ano acontecerá não só em Lisboa como no Porto e em Matosinhos.

A CMP, a Câmara Municipal de Matosinhos e a Experimenta Design emitiram um comunicado conjunto de pesar, lembrando um vereador que “marcou, com o seu entusiasmo e inteligência, a vida pública e a política cultural da região e do país, com ampla projeção internacional”.

Deixou “sementes para o futuro”

“Foi um choque”, disse ao Observador João Carvalho, diretor da Ritmos, que organiza os festivais Paredes de Coura e NOS Primavera Sound. “Ainda a semana passada, a apresentar o Fórum do Futuro, disse que aquele festival devia ser encarado como uma espécie de Paredes de Coura do pensamento, o que me deixou muito orgulhoso”, lembrou.

Quando Rui Moreira apresentou Paulo Cunha e Silva como vereador da Cultura, João Carvalho viu “a pessoa certa no lugar certo”. “O Porto estava carente de alguém bom ligado à cultura e ele falava a linguagem da cultura, numa altura em que havia um défice grande na cidade”, disse, referindo-se ao mandato anterior, de Rui Rio.

O sócio José Barreiro concorda. Ao Observador, lembra a trajetória desde a Porto 2001, mas escolhe um momento maior: “A imagem dele vai estar sempre ligada à devolução do Rivoli à cidade, com uma programação transversal. O trajeto dele sempre foi experimental e vanguardista”, disse.

Cidadão do Porto, com um “conhecimento profundo da cidade”, Paulo Cunha e Silva “deixou muitas sementes que o Porto vai colher no futuro“, sublinhou José Barreiro, que lamenta a morte tão cedo, ao fim de apenas dois anos de trabalho como vereador. 

“Foi uma pessoa que nunca deixou de ser o que era antes, continuava a vê-lo no Passos Manuel, no Maus Hábitos. Não vestiu a pele de político e continuava a ser um de nós. Para além da motivação, porque com pouco dinheiro fez muita coisa, provou que com pouco se pode fazer muito. Acho que o Porto tem muita gente capaz de prosseguir um trabalho que começava a dar os seus frutos e só peço que não haja inversão de políticas.

Rui Moreira assume pelouro da Cultura

Será o presidente da Câmara o novo responsável pelo pelouro da Cultura, pode ler-se na página da autarquia. Rui Moreira nomeou para seu adjunto Guilherme Blanc, até aqui adjunto de Paulo Cunha e Silva. As primeiras instruções já foram dadas: “que tudo se mantivesse a funcionar e a programação cultural delineada por Paulo Cunha e Silva não fosse interrompida”.

Atualizado a 12 de novembro, às 10h35, com a decisão de Rui Moreira de assumir a Cultura.