Lembra-se das manchas que se iam espalhando ao ritmo das batidas de música num velhinho Windows Media Player? Em alguns desfiles de primavera-verão 2016 há aproximações a estes padrões caleidoscópicos e a tendência começa a apelidar-se de chaos magic.

Para sermos fiéis ao que a expressão significa – uma filosofia (ou até religião) pós-moderna – não basta falar nesta multiplicação infinita. Porque qualquer coisa pode caber no chaos magic. A magia é aquilo em que se escolher acreditar e seguir. É o “você decide”, o mais recente do it yourself da moda.

A tendência de não ser nada de extraordinário

A explosão acontece dois anos depois de o mundo da moda ter abraçado o anti-estilo do normcore: o guarda-roupa de Seinfeld na sua série dos anos 80 e 90, se explicado rapidamente. Se nos quisermos perder um pouco no tema, diremos que o normcore se define mesmo é pelo título de uma outra sitcom: Curb Your Enthusiasm – “controla o entusiasmo”.

Mais que atribuir valor estético a esta moda que pôs raparigas de 20 anos a usar camisolões três números acima, ou rapazes da mesma idade a calçar meias brancas com sandálias, o conceito de normcore evidencia o desejo de permanecer anónimo.

seinfeld

Uma das imagens mais conhecidas de Seinfeld.

Normcore afasta-se da coolness suportada pela diferença em direção à autenticidade que existe na mesmidade”, escreviam os membros do coletivo artístico norte-americano K-Hole, que reflete e cria tendências, quando começaram a discutir o conceito na Serpentine Gallery, em outubro de 2013.

O estado em que os artistas avaliam a moda dois anos depois é bem diferente, segundo um novo relatório-ensaio, A Report on Doubt, que lança as sementes do chaos magic. Os K-Hole aperceberam-se que a filosofia na origem do normcore foi consecutivamente deturpada, que estão aborrecidos e que o que resistiu foi o mau gosto para ténis de Jerry Seinfeld.

O poder de alguma coisa (pessoal) extraordinária

Segundo o último ensaio publicado pelo coletivo, a resposta para a chegada a este ponto-fronteira em que a moda está – fazer com que cada um se dilua na massa – “é a magia”.

No desfile de primavera verão 2016, a designer de moda grega Mary Katrantzou criou um ambiente cósmico, quase esotérico, em que a passerelle se repetia projetada nas paredes. A condizer estavam as suas criações. “A cosmologia foi uma forma de os antigos criarem um sentido para o universo”, disse.

Em Paris, a Jacquemus criou um cenário escurecido e onírico, onde os modelos empurraram um grande novelo de lã ou puxaram um cavalo, enquanto as suas mangas eram desproporcionalmente grandes ou arrastavam uma gravata com o comprimento da passerelle.

Em fevereiro, no primeiro desfile enquanto diretor criativo da Gucci, Alessandro Michele distribuiu frases de Agamben ou Barthes pelas cadeiras e um título: “O contemporâneo é intemporal”.

São exemplos de coleções em que se vê alguma coisa desta filosofia que tenta gerar hipóteses de futuro e auto-confiança, que procura um sentido para a vida no indivíduo e no universo.

Os K-Hole reafirmam que este misticismo está um pouco por todo o lado, desde a saga Harry Potter ao BB cream que esfuma as imperfeições da nossa cara pela manhã. Assumem que ainda há muito ceticismo em relação ao que é visto como uma forma de espiritualidade extravagante, mas lembram que também o normcore era uma piada, em 2012, até começar a ser usado pelas gerações mais jovens.

“É a ideia de que a magia pode existir se alinharmos o nosso cérebro para acreditar nessa alternativa”, explica Greg Fong, fundador dos K-Hole, ao The Guardian. Mais do que acreditar no pensamento positivo, no livre arbítrio ou em cristais, é definir que se acredita — escolher acreditar.

Escolha o seu mantra e o seu símbolo e repita-o, na roupa e na vida — em todo o lado, é o que sugerem. Daqui a dois anos vai olhar duas vezes para um vidro qualquer com o seu reflexo no meio da rua e duvidar do que está a fazer. Aí visite o site dos K-Hole – já hão-de ter dado mais um passo.