Vivemos numa época em que a moral se tornou espetáculo e a indignação, um reflexo condicionado. As causas multiplicam-se, mas nem todas geram o mesmo ruído. Há tragédias que mobilizam multidões e outras que passam quase em silêncio.

Basta observar o mapa recente da indignação global. Milhares saem à rua para apoiar Gaza – e é legítimo que o façam. Mas onde estavam as mesmas vozes quando milhões morreram no Iémen, no Sudão ou na Síria? Para esses, não houve flotilhas, hashtags, nem diretos nas televisões. A moral, ao que parece, tem uma geometria variável.

A indignação seletiva

Não há nada de novo na empatia seletiva. O cérebro humano não foi moldado para sentir por todos, mas por alguns – os que reconhece como próximos, semelhantes, familiares. É um instinto antigo, inscrito na nossa história evolutiva. Em grupos pequenos, a empatia servia para proteger “os nossos” e garantir coesão interna. Mas num mundo global, esse mesmo instinto torna-se insuficiente e, por vezes, injusto.

A tecnologia ampliou o alcance da compaixão, mas também a sua dependência da visibilidade. O que não aparece nos ecrãs tende a não existir moralmente. A dor invisível não gera partilhas nem debates televisivos. A solidariedade passou a depender da câmara que filma e do algoritmo que decide o que vemos.

O efeito da vitrine

Os meios de comunicação e as redes sociais funcionam como um espelho distorcido da moral pública. Dão escala e emoção às causas mais visíveis, mas silenciam outras por saturação ou conveniência. E como a atenção é finita, cada tragédia compete por segundos de visibilidade. A indignação tornou-se um recurso escasso e, como qualquer recurso escasso, é distribuída de forma desigual.

O resultado é um mundo onde a moral não segue princípios, mas audiências. As pessoas não se mobilizam apenas pelo sofrimento, mas pelo sofrimento visível, aquele que confirma a narrativa em que já acreditam.

Entre a compaixão e a conveniência

Este fenómeno não revela ausência de empatia, mas uma forma de tribalismo moral. A compaixão tornou-se identitária: escolhe lados, bandeiras e hashtags. Quem sofre fora dessa fronteira simbólica é ignorado, não por maldade, mas por invisibilidade. As sociedades modernas gostam de se ver como universais na compaixão, mas continuam tribais na prática. A moral, que deveria ser um princípio, tornou-se uma preferência.

O ruído da virtude

A proliferação de causas também criou um novo tipo de ruído: o da virtude exibida.

Muitos confundem empatia com posicionamento público, como se o sofrimento alheio servisse de cenário para a própria consciência. Mas a moral que precisa de palco é sempre suspeita. Não há problema em escolher causas – o problema é confundir escolha com hierarquia moral. A vida de uma criança síria não vale menos do que a de uma criança palestiniana, iemenita ou israelita. Mas o nosso radar emocional é seletivo e o nosso tempo de atenção, curto.

É assim que a moral se torna arbitrária e o ativismo, previsível.

A ética sem audiência

Precisamos recuperar uma ética que não dependa da câmara nem do algoritmo. Uma moral que não varie com o horário nobre. O verdadeiro teste moral não é a capacidade de se indignar quando todos o fazem, mas a coragem de não esquecer quando já ninguém se lembra. Enquanto a compaixão depender daquilo que dá nas televisões, continuaremos a confundir empatia com emoção coletiva. E enquanto o sofrimento for medido em “trending topics”, a moral permanecerá uma questão de geometria variável.