A meio do verão a Operação Marquês conheceu um novo personagem: um misterioso holandês com um nome difícil de pronunciar que apenas terá cometido o erro de comprar um lote de terreno em Vale do Lobo à hora errada.

Jeroen Van Dooren ficou perplexo por se ver envolvido no caso Sócrates ao transferir cerca de dois milhões de euros para uma conta de Joaquim Barroca na Union des Banques Suisses (UBS) em 2008. O 102 º homem mais rico da Holanda jurou ao Expresso que nada tinha a ver com os alegados crimes investigados no caso Sócrates e que apenas tinha acedido a fazer essa transferência a pedido de Diogo Gaspar Ferreira, administrador de Vale do Lobo, para poder escolher livremente o construtor que ira construir a sua moradia no lote 125 daquele resort algarvio.

Gaspar Ferreira negou de forma veemente as declarações de Van Dooren e garantiu que iria avançar com uma queixa-crime por difamação.

Qual o interesse deste ponto prévio? Ajudar o leitor a ficar devidamente contextualizado com o que se segue.

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O procurador Rosário Teixeira, titular dos autos da Operação Marquês, acredita na versão de Van Dooren. Isto é, além dos 4,3 milhões de euros que o holandês pagou pelo lote 125 de Vale do Lobo, o Ministério Público (MP) entende que Van Dooren foi convencido a pagar um adicional de dois milhões de euros por ‘debaixo da mesa‘.

Mais: ao que Observador apurou, o MP entende que terá existido um acordo entre Diogo Gaspar Ferreira e Armando Vara para que esses dois milhões de euros fossem transferidos para a conta de Joaquim Barroca na UBS, sendo posteriormente movimentados para uma conta de Vara no mesmo banco

De facto, e de acordo com a informação bancária que foi enviada para Portugal pelas autoridades suíças, Jeroen Van Dooren transferiu dois milhões de euros para a conta de Joaquim Barroca entre janeiro e abril de 2008.

Ainda de acordo com a mesma documentação, a conta de Barroca terá registado uma saída de cerca de um milhão de euros para uma outra conta, também na UBS, aberta em nome da Vama Holdings – uma sociedade offshore controlada por Armando Vara e a sua filha Bárbara.

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Tal como o Observador já noticiou, Joaquim Barroca admitiu ao MP em sede de interrogatório que tinha assinado ordens de transferência em branco para Carlos Santos Silva poder movimentar livremente a sua conta. O procurador Rosário Teixeira acredita que a saída de um milhão de euros para uma conta controlada por Vara terá sido combinada entre este e Santos Silva.

O MP não tem dúvidas, ao que o Observador apurou, em classificar essa transferência como um pagamento indevido e em relacioná-lo com a operação de financiamento da Caixa Geral de Depósitos ao empreendimento Vale do Lobo. 

Vara terá distribuído parte de 425 mil euros para terceiros

Depois de Jeroen Van Dooren surge outro mistério na Operação Marquês. Neste caso, continuamos a falar de montantes avultados mas para destinatários desconhecidos.

De acordo com a investigação, Armando Vara terá dado ordens de transferência de um total de 425 mil euros para contas próprias e para terceiros, através de outras offshores, como a Orsatti Corporation.

Segundo o semanário Expresso, os investigadores acreditam que uma parte destes 425 mil euros terá sido distribuída por outros responsáveis da CGD.

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Finalmente, a última etapa deste circuito financeiro (o ‘follow the money’ é sempre obrigatório na investigação a crimes económico-financeiros) acaba por ser o próprio Armando Vara e a sua filha Bárbara – igualmente constituída arguida pelos crimes de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais em alegada cumplicidade com o seu pai.

Segundo os dados enviados pela Justiça suíça, Armando Vara terá dado ordens de transferência de 2,1 milhões de euros no início de 2009 da Vama Holding, sedeada no Panamá, para outra offshore igualmente por si controlada: a Walker Holdings, com sede nas ilhas Sheychelles. Sendo que no final de 2009, também a conta desta última foi encerrada, tendo o respetivo saldo sido transferido para uma nova conta numérica aberta em nome de Bárbara Vara.

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Pelo meio, novas transferências de 150 mil euros foram detetadas através da offshore Orsatti Corporation para terceiros cuja identidade se desconhece. No total, são 575 mil euros cujo rasto ainda não está totalmente esclarecido.