Durante a tarde do dia 5 de janeiro de 2016 (terça-feira), perto das 16h25, tocava o telefone do gabinete do presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues. A secretária do presidente atendia a chamada. Do lado de lá, um homem apresentava-se: era (dizia) chefe de gabinete do ministro-adjunto do novo governo socialista, Eduardo Cabrita. O ministro queria falar com o presidente da câmara: a chamada era reencaminhada, o suposto chefe de gabinete passava a chamada ao ministro, e este iniciava a conversa.

Do suposto ministro vinha um pedido inusitado: Eduardo Cabrita pedia a Eduardo Vítor Rodrigues (eleito pelo PS) que desse um “emprego rápido e bem pago” a um “camarada” socialista, nas Águas de Gaia, a empresa pública responsável pelo abastecimento de água no município, segundo relatou o presidente da CMVNG no seu Facebook pessoal. O pedido, dizia o burlão que se fez passar pelo ministro-adjunto de António Costa, era feito “por solicitação do dr. António Costa, primeiro-ministro”, segundo relata a queixa-crime apresentada, a que o Observador teve acesso. António Costa havia “dado instruções” a Eduardo Cabrita, pedindo-lhe “que arranjasse um emprego para uma pessoa amiga” – pedindo ainda ao presidente do município “o máximo sigilo” sobre o tema.

O presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia manteve-se hesitante (e com suspeitas): não havia lugares disponíveis, dizia, mas queria saber mais pormenores sobre o tal candidato. “Vamos ver, mande-me por favor o currículo [do candidato ao emprego] e o número de telemóvel” do seu gabinete, terá dito, de acordo com fonte da câmara. Do lado contrário, era enviado um número – 913281756 – e um e-mail – através do endereço gabinete.ministro-gov@sapo.pt – com o currículo do suposto “camarada”. A mensagem dizia o seguinte:

Caro Eduardo Rodrigues,

Conforme nossa conversa telefónica de hoje sou a enviar o C.V. do Domingos, esperamos uma colocação o mais breve possível.

Meu caro, tem o meu e-mail e número de telemóvel, estou ao dispor, mas para este assunto o dr. António Costa pediu máximo sigilo

Cumprimentos,

Eduardo Cabrita

A Câmara de Vila Nova de Gaia enviou o documento ao Observador: pertence a um cidadão com vasta experiência profissional: afirmava trabalhar como director de Serviços Técnicos de Conservação e Manutenção na RTP, tendo passado anteriormente pelo cargo de director de segunda linha dos CTT e pela posição de Técnico de Redes de Gás na Portgás – Sociedade de Produção e Distribuição de Gás, S.A.

O currículo era bom, mas o presidente da câmara, Eduardo Vítor Rodrigues, “não conhecia” o camarada, confirmou ao Observador fonte da câmara de Vila Nova de Gaia. De seguida, para tirar as suspeitas, o presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia verificou se ainda tinha o número pessoal do ministro-adjunto. Tinha. Falando com ele ao telemóvel, Eduardo Vítor Rodrigues perguntou-lhe se haviam falado no dia anterior: Eduardo Cabrita respondia que não, confirmando as suas suspeitas. Tratava-se, é claro, de um burlão.

O passo seguinte foi dar entrada a uma queixa-crime contra incertos no Ministério Público. A Câmara de Vila Nova Gaia já deu início ao processo de contratação de uma empresa de auditoria, que irá analisar as telecomunicações da câmara gaiense. O objetivo é “saber de onde veio o telefone e de quem é o IP” através do qual o e-mail com o pedido (e com o CV) foi enviado, confirmou fonte da câmara presidida por Eduardo Vítor Rodrigues.

“Pela minha parte, prefiro ser contactado para comprar uma fritadeira ou um aspirador!”, desabafou o autarca no Facebook.

Texto editado por Helena Pereira