Marcelo – O que é que tem em termos de omeprazol?

Sra da farmácia – Tenho imensos.

Marcelo – É a minha área de especialidade. Apetecia-me levar este que não conheço. Mas é mais caro.

(…) O candidato compra o medicamente para acalmar o estômago.

Marcelo – Já estou protegido. Tem 56, já dá para se for eleito para início de mandato.

Jornalista – Vai precisar de coisas para o estômago em Belém?

Marcelo – Em Belém em princípio a pessoa tem de ter estômago para tudo… Para tudo não direi, mas para muita coisa.

De estômago preparado, que a “comezaina” tem sido muita e as azias da Presidência, se lá chegar, podem ser maiores, é assim Marcelo Rebelo de Sousa, o candidato, o show, o hipocondríaco assumido, o homem que não acredita que a campanha sirva para a “caça ao voto”, porque esse “já está decidido”, mas que não deixa de seguir a ementa de qualquer campanha, apesar das especificidades.

O candidato quer despir a pele de comentador nesta cruzada pelos caminhos de Portugal. Marcelo quer que o vejam como o candidato próximo do povo, com humor, mas com imagem de estadista. Repete a palavra “pátria”, fala de “estabilidade política”, puxa dos trunfos do passado para mostrar responsabilidade. Mas volta e meia – com muita frequência – foge-lhe o pé para o comentário, que lhe serve muitas vezes como forma de evitar uma posição, como por exemplo quando lhe foi perguntado se concorda com a redução para as 35 horas de trabalho. Marcelo falou, comentou, mas não disse o que defendia.

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Marcelo numa funerária

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“Então como é que estamos de negócio? … Só não lhe digo boa sorte porque isso significa morrer muita gente. Mas de qualquer maneira é preciso trabalho. Mas há uns que trabalham à custa da tragédia alheia”.

Mas uma coisa é o que o candidato quer, a outra é o que consegue ser. Nesta campanha com dinâmica própria – chama-lhe “modesta” -, Marcelo é igual a si próprio, curioso, falador, a dizer piadas e a desbloquear conversas. É verdade que esta é uma campanha diferente: não há arruadas, há “passeios”, porque não há bandeiras, bombos, estrutura ou mobilização. Não há grandes jantares, nem grandes comícios, há “sessões públicas”, que fazem o mesmo efeito, mas não acontecem sempre. O trunfo é o próprio, a imagem na imprensa e a “proximidade” das pessoas do homem que sabe que os anos na televisão o ajudam agora no terreno. Será suficiente?

A estratégia de Marcelo Rebelo de Sousa – está clara nestes primeiros dias – é a tentativa de entrar pelo eleitorado que votou à esquerda, como quem tem a certeza que os votos da direita são favas contadas. Para já, o social-democrata diz que a vitória “está bem encaminhada”, não dramatiza o apelo ao voto, mas a abstenção pode entrar no eleitorado que tem como certo. A abstenção daqueles “que pensam que ele já ganhou”, dizia um membro da mini-caravana. Já passou o alerta laranja pelo tempo nos distritos por onde andou, mas o alerta vermelho na campanha pode chegar com as sondagens. Será que se os números tocarem na linha de uma segunda volta a postura do candidato muda? Será que vai aceitar na altura a intervenção dos líderes dos partidos que o apoiam?

Para já, Marcelo é ele e só ele a tentar não deixar morrer o ânimo daqueles que o apoiam. É que se o candidato na rua é o que mostrava na televisão, na ideologia tem feito desvios para agradar a gregos e a troianos. Colocou-se na “esquerda da direita” e quando questionado sobre o facto de ter pertencido à ala da direita do PSD – que, usando as palavras do próprio, o colocariam na ala direita da esquerda da direita – só questiona: “Da direita da direita?”. Desvia o assunto que o que prefere mesmo é seguir em frente. E numa assentada nos últimos dias, mas também esta terça-feira em Portalegre, ‘varre’ cafés, lojas, farmácias… As típicas visitas de campanha. A saber:

Lares de idosos – e as longas conversas coladas ao ouvido. “Ouve melhor deste ou deste?”, pergunta a quase todos os idosos que querem falar com ele na Santa Casa da Misericórdia de Portalegre. Pergunta pela vida, se estão bem, se são bem tratados. Troca confidências e até diz “já ganhei” quando a competição em causa é o número de netos.

Hospitais – Aqui, pausa para silêncio, que o candidato apesar de percorrer os corredores do Hospital de Portalegre, de ouvir as dificuldades de um hospital antigo que se renova aos poucos e de dar beijinhos a recém-nascidos, recusa falar com os jornalistas. Mas ainda tempo para uma fã:

Auxiliar do hospital – Deixe-me dar-lhe um beijinho que sou sua admiradora.

Marcelo – A televisão aproxima as pessoas…

Auxiliar – É mais bonito ao vivo.

Marcelo – Mas sou mais velho.

Lojas: O candidato entra uma loja de roupa à procura de uma prenda para o neto.

Marcelo: Tenho cinco netos, mas tenho um fraquinho pelo meu neto. É careira ou não é careira?

Antes da resposta já segura uma t-shirt.

Marcelo: 25 euros?! Ai que cara!!!

Senhora da loja: Professor, não diga isso assim, ainda por cima na televisão.

O candidato sorri, diz que afinal não, mas a t-shirt ficou por lá. Repete o número na loja a seguir e deixa a justificação: não é da crise, mas ajudou. “Estou muito mais contido, mais forreta”.

Marcelo Rebelo de Sousa faz de tudo e sim, também foge ao guião normal de campanha. Prova disso é que não desmarcou provas de doutoramento nestas semanas, não disfarça que é hipocondríaco e que vibra com farmácias, mas também que a conversa e a circunstância nem sempre casam com a formalidade ou com a imagem de um chefe de Estado como era Cavaco Silva. O candidato entra numa funerária em Portalegre:

“Então como é que estamos de negócio? … Só não lhe digo boa sorte porque isso significa morrer muita gente. Mas de qualquer maneira é preciso trabalho. Mas há uns que trabalham à custa da tragédia alheia”.

O número é daquele que quer enterrar as expectativas dos adversários, sobretudo Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, de que é possível uma segunda volta. Até lá, Marcelo faz o que sabe fazer melhor: falar com as pessoas. E mudar a pose descontraída quando se esticam os microfones para as perguntas mais diretas.

Aí, apesar do impermeável azul mal abotoado, já com algumas nódoas que mais não são do que vestígios de campanha à chuva, coloca a sua melhor pose de estadista, sem piadas, nem humor e responde com estabilidade. Estabilidade para o Governo de António Costa, sobretudo. Diz que acredita num possível acordo entre sindicatos e Executivo para as 35 horas, que “é natural” que o défice de 2015 suba com o Banif, deixa os adversários a falar sozinhos, seguindo o conselho do neto, e ainda deixa um último sorriso político para o primeiro-ministro. O candidato social-democrata está “feliz” por António Costa garantir que mantém a intenção de “continuidade nacional, apesar de mudar a política de Governo”, de continuar a descer o défice.

Resta saber se daqui a dez dias, a campanha de risco de Marcelo o vai deixar feliz.