Marcelo quis ser o candidato sem partidos, mas agora os partidos fazem questão de lembrar que Marcelo é o candidato deles. Fez a campanha toda sozinho, ao seu “estilo”, e só aqui e ali é que apareciam dirigentes do PSD e do CDS, sem serem formalmente convidados. A ideia do candidato da direita sempre foi clara: apesar de ter o apoio declarado dos sociais-democratas e dos centristas, sempre quis agradar a gregos e a troianos. Os sucessivos piscares de olho ao Governo de António Costa provaram isso mesmo. Agora, contudo, PSD e CDS fazem questão de lembrar que Marcelo é o candidato deles e lembram que tipo de Presidente querem que seja.

“Tal como prometeu durante a campanha, [Marcelo Rebelo de Sousa] vai ser o Presidente da estabilidade política, assim como vai dar importância às regras de confiança que são essenciais para uma economia que acabou de sair de um resgate e que precisa de crescer”, disse Paulo Portas esta noite em reação aos resultados eleitorais. “O novo Presidente da República comprometeu-se com essas regras e ainda bem”. Ou seja, que Marcelo nem tente alinhar com o discurso de incumprimento das regras europeias e internacionais, porque, lembra Portas, sempre as defendeu.

O tom do PSD, contudo, é mais distanciado. Poucos foram os rostos de peso que apareceram na noite eleitoral do professor e os poucos que falaram publicamente fizeram-no para dizer que a vitória é “dele”, e que o desejo daqui para a frente é que Marcelo seja um Presidente “imparcial”. Pedro Passos Coelho, em nome do PSD, lembrou logo que o papel do Presidente da República não é o de se sobrepor aos partidos mas sim estar além deles e colaborar com as instituições. Segundo Passos, Marcelo desempenhará esse papel “de acordo com os princípios do que constitucionalmente cabem a um Presidente da República”.

“Imparcial”, mas não deixa de ser o candidato da direita

Numa altura quente para a política interna, quando o Governo ultima o Orçamento do Estado e prepara-se para travar uma discussão acesa na Assembleia da República, PSD e CDS tiveram de fechar várias vezes os olhos aos elogios a António Costa que se iam ouvindo na caravana de Marcelo. Mas agora, fechadas as urnas e contados os votos, pedem-lhe que seja um Presidente “imparcial”, que ponha o “interesse nacional” à frente dos partidos “A, B ou C”.

Falando na Faculdade de Direito depois da vitória, o deputado social-democrata Duarte Pacheco defendeu que Marcelo deve ser “um verdadeiro árbitro” e que “não vai estar ao serviço de A, B ou C”. “Vai cumprir o seu mandato com competência, seriedade e imparcialidade e com uma componente lúdica como só ele sabe, foi por isso que o apoiamos”, disse. No mesmo registo, a dirigente centrista e candidata à liderança Assunção Cristas escreveu no Facebook: “Os portugueses foram claros no seu voto e estou certa de que Marcelo Rebelo de Sousa exercerá o seu mandato em benefício de todos, sem excepção, e com um sentido apurado do interesse nacional”.

Imparcialidade, sim, mas não esquecer que quem ganhou, para todos os efeitos, foi o candidato da direita. Foi isto que vários dirigentes (mais do CDS do que do PSD) procuraram lembrar nas suas intervenções ao longo da noite. Começou com o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, um dos únicos pesos pesados do PSD que esteve na Faculdade de Direito para aplaudir Marcelo, que comentou a “naturalidade” de não ter havido muitos membros do anterior Governo na campanha mas que não deixou de dizer que “houve certamente um grande apoio por parte dos membros do PSD” na candidatura.

Nuno Magalhães, líder parlamentar do CDS, foi mais incisivo: “Para quem criticou tanto Cavaco Silva por ser um candidato de fação, do centro direita, Cavaco fica agora reconfortado porque quem ganha é também o candidato do centro-direita”, disse na RTP. Ainda assim, Nuno Magalhães reconhece a “abrangência” de Marcelo e a capacidade que tem de “ir para além dos partidos que lhe recomendaram o voto”. Em todo o caso, e para todos os efeitos, o ex-líder do PSD “é o candidato do PSD e do CDS”, sublinhou.

A vitória é dele, a título pessoal, mas não esquecer que os portugueses escolheram um candidato apoiado pelos partidos”, lembrou o deputado Telmo Correia na Faculdade de Direito de Lisboa. “Se existe uma maioria sociológica confortável com esta maioria governativa, essa maioria não se manifestou aqui”, acrescentou ainda o ex-secretário de Estado do Turismo Adolfo Mesquita Nunes, na TVI.