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Encher o mealheiro para ir ver Kobe. E os Lakers, claro

Dois irmãos passaram anos a juntar dinheiro para irem a Los Angeles ver os Lakers e Kobe Bryant. Um nevão ameaçou acabar com tudo, mas até deu para um deles dar um "high five" num jogador.

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Filipe Pardal, de 25 anos, é o da esquerda, e ao lado tem Pedro, de 33

Pedro Pardal

Filipe Pardal, de 25 anos, é o da esquerda, e ao lado tem Pedro, de 33

Pedro Pardal

Filipe mantém-se colado ao telemóvel. Não há golo, jogada ou grito que o distraia da tarefa de confirmar que tudo está bem. “Ok, o voo está no alinhamento”, vai dizendo ao irmão, palavras de alívio para ambos. Saem do estádio descansados, felizes da vida pelo Benfica, que ganha, e ansiosos pela aventura que aí vem. Assim que chegam a casa se sentam à mesa, contudo, o jantar serve-lhes uma preocupação.

“Voo cancelado.” Aparece o aviso que os dois irmãos temiam, mas que não esperavam ler. O frio e a chuva conspiram para gelarem gotas de água e fazerem com que um nevão caia sobre Nova Iorque. A cidade que dizem não ter tempo para dormir escondia-se sob um manto branco e, durante dias, raro é o avião que a consegue destapar. Muito menos o de Pedro e Filipe Pardal, a quem a United Airlines informa que o voo não vai sequer descolar. Mal são avisados, ambos desesperam. É um sábado à noite. Acabam de chegar a casa, vindos do Estádio da Luz, e ficam a achar que, dali a dias, é impossível estarem dentro de um pavilhão em Los Angeles, a ver outro tipo de bola a saltar.

O porco mealheiro que, durante anos e anos, ambos foram engordando, fica ameaçado por uma “noite miserável”. Estão a “desesperar”. Pedro sente-se “completamente deprimido”, incrédulo à medida que o irmão mais novo não larga o telemóvel e liga para todos os números e mais alguns. É preciso resolver o imbróglio. “Fiquei a noite inteira a tentar falar com a companhia. Tinham as linhas ocupadas. Às vezes ficava quase uma hora à espera”, conta Filipe, o mais chateado por antecipar que não há tempo para, na terça-feira, se sentarem no Staples Center, em Los Angeles. Liga, religa, abusa do telemóvel, mas nada feito. “Epá, vou ligar à companhia e pedir para reaver o dinheiro. Estou farto disto, não dá, não dá”, ouve Pedro, da boca do irmão.

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Filipe está quase a desistir quando lhe vem à cabeça o Facebook. Toca a tentar falar com a página oficial da companhia aérea. É por lá que, depois de quase uma hora à espera, recebe uma resposta. Há esperança. A troca de mensagens diz-lhe que há a hipótese de, através da Lufthansa, os irmãos irem até Munique para depois voarem diretos até Nova Iorque. “Ao menos fiquei logo com o jet-lag acertado”, resume Filipe, 25 anos, que passa a noite acordado, mas exulta de alegria. “Ele acorda-me às oito da manhã, todo contente, a dizer que tinha tudo resolvido”, lembra Pedro Pardal. É normal e não demora a explicá-lo: “Em vez de ser do Sporting ou do Benfica, o Filipe é dos Lakers. Se pudesse ser sócio, ele era. A paixão pelo Kobe Bryant, então, é incrível”. E já dura há muito tempo, desde miúdo.

Tinha oito anos quando ia a casa de um primo e se agarrava ao comando de uma Sega Saturn. Na velhota consola de jogos estava um jogo de basquetebol e Filipe, porque “a farda chamava atenção”, escolhia sempre jogar com os LA Lakers. O grafismo, em 1998, não era grande coisa, mas “havia um boneco com o cabelo afro, que era jovem” e nem tinha uns atributos do outro mundo. “Mas corria-me tudo bem com ele”, resume. Esse boneco era Kobe Bryant e, quando o miúdo passou a adolescente, o bichinho cresceu e, como qualquer boa teimosia, fê-lo adorar o jogador, os Lakers e a NBA. “Fazia grandes birras para ficar acordado, a ver os jogos. Até ia dormir antes para acordar a meio da noite e, depois, ir para a escola. Sou quase fanático, mesmo”, garante, recordando a adoração de anos que lhe espicaça o entusiasmo na voz. Em tempos, até chegou a deixar a televisão com o volume no 24 — número que Kobe usa na camisola de jogo –, por superstição.

Foi esta idolatria que lhe enfiou na cabeça o sonho de, um dia, estar num pavilhão onde jogasse Kobe Bryant. Por isso, algures entre 2009 e 2010, os irmãos começam a juntar uns trocos. “Não foi logo exatamente com a ideia de ir a Los Angeles. Foi mais para ver no que dava, deixar o tempo passar e por a ideia na cabeça”, explica Pedro, de 33 anos. O tempo foi o suficiente para cada um dos irmãos pagar 200 dólares (quase 178 euros) por um bilhete que, a 26 de janeiro, os deixou assistir ao LA Lakers-Dallas Mavericks a poucos metros do campo, quase atrás do banco de suplentes da equipa da cidade dos anjos. Os joelhos de Kobe não o deixam jogar, mas nem isso tira o sorriso à cara de Filipe, que sai contente do pavilhão.

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Uma vez aterrados e com o check-in feito no hotel, os irmãos foram diretos ao LA Life, complexo onde está o Staples Center. Passaram lá horas, a admirar tudo e a “fotografar as estátuas dos jogadores que estava à entrava do pavilhão”. A semana que passaram em Los Angeles chegou-lhes para visitarem Hollywood, espreitarem os estúdios da Universal e irem até Santa Monica. Mas nada que batesse a experiência da NBA. “Os americanos têm muitos defeitos, mas no desporto são um exemplo a seguir. As pessoas são mais civilizadas, consegues estar no pavilhão com um adepto de outra equipa ao lado, a gritar, e ninguém diz nada. As cadeiras são almofadadas, em Portugal nem consegues imaginar isto, iam logo à vida”, enumera Filipe, e Pedro dá-lhe razão: “Não há tempos mortos, está sempre a acontecer alguma coisa. É um ambiente espetacular”.

No dia seguinte os irmãos chegam cedo ao pavilhão para aproveitarem tudo o que podem e assistem ao aquecimento dos Lakers — de muito perto. “Ficámos lá em baixo, junto ao campo. Deixaram as pessoas irem mesmo até ao lado do campo”, diz Filipe. Tão perto fica que, numa das vezes em que os jogadores lhe passam ao lado, estica um braço e alguém lhe corresponde. “Consegui dar um high five ao Ron Artest, que agora se chama Metta World Peace. Mudou de nome, é totalmente maluco da cabeça”, conta, a rir-se, exaltando o toque entre as palmas das mãos por “esse jogador ter sido campeão nos Lakers, em 2010, na última vez” que a equipa conquistou a NBA: “Logo ele, foi espetacular!”. Mas melhor foi o que aconteceu depois.

A NBA não para quieta e, a cada dois dias, é comum as equipas jogarem. Na quinta-feira, os Lakers regressavam ao campo para defrontar os Chicago Bulls e lá estavam Pedro e Filipe. Os bilhetes, desta vez, eram para lugares “mais lá em cima”, embora a uma distância suficiente para ver Kobe Bryant. “Aí ele já jogou, com o bónus de o Pau Gasol jogar também. Ele tinha sido dos Lakers na última vez que foram bicampeões. Também tive a oportunidade de o aplaudir. O Kobe fez um jogo discreto, marcou 10 pontos, mas só vê-lo a fazer um lançamento triplo… Foi um espetáculo. O principal objetivo era ver o Kobe jogar. Os Lakers perderam os dois jogos, mas isso nem me interessou”, confessa Filipe, que fez “um roteiro da cidade” que “girava à volta do basquetebol”.

O cenário retirou cerca de dois mil euros às poupanças de cada um, com viagem, alojamento, bilhetes e alimentação à mistura. Até deu para, num dos jogos, verem Floyd Mayweather, o campeão do mundo de boxe em pesos pesados. “Vimo-lo a mexer numa mochila, talvez tivesse um milhão de dólares lá dentro”, brincou Pedro Pardal, aludindo à ocasião em que o pugilista alegou que levava essa quantidade de dinheiro em cada viagem que fazia.

E euros é o que, feita esta viagem, Pedro vai de novo começar a juntar até ter os suficientes para fazer a próxima. “Já estou a preparar o próximo mealheiro”, garante. Filipe ainda não pensou nisso, é cedo, embora reconheça que “é provável” voltar aos EUA. “Mas nunca vai bater esta experiência. Não conheço a NBA sem o Kobe Bryant, é o meu maior ídolo seja em que área for, desde sempre”, explica. E sem ele, que está com 37 anos e a fazer a última época da carreira (o derradeiro jogo é já em abril), fica menos aliciante.

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