Foi preciso chegar ao final do debate entre Durão Barroso e António Guterres para que houvesse um ponto de discórdia: o Governo à esquerda. O antigo presidente da Comissão Europeia defende que foi “um erro” e que não tem condições de sustentabilidade, enquanto o antigo alto-comissário da ONU para os Refugiados defende que todos os portugueses devem estar unidos para que “as coisas corram bem” e que o executivo de Costa mantém fidelidade à União Europeia. Quanto à candidatura de Guterres a secretário-geral das Nações Unidas, Barroso diz que “gostava muito” de o ver nesse cargo.

Num encontro promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) e pela RTP, os antigos rivais políticos – lembre-se que Durão Barroso chegou à liderança do PSD em 1999, ficando assim à frente do maior partido da oposição ao Governo socialista de António Guterres – encontraram mais razões de convergência do que discórdia quando analisaram os principais problemas do mundo. Foi só na reta final, quando a atenção se virou para a situação interna do país que as duas figuras entraram em claro desacordo. “Somos os dois homens de partidos e é preciso dizer que os partidos são bons”, afirmou Durão Barroso, argumentando a seguir que considera que na sua perspetiva “foi um erro a forma governativa seguida” em Portugal.

O antigo presidente da Comissão Europeia defendeu que se trata de um “governo minoritário” e que o PS se juntou a forças que estão “contra o consenso europeu, contra a NATO, contra a Organização Mundial do Comércio”. “Este Governo não tem condições de sustentabilidade daquilo que é necessário para o país. Era importante que o país não voltasse atrás. Custou muito sair do ajustamento”, avisou o social-democrata – acrescentando durante o debate que agora que já não está na política, o seu “nível de sinceridade tem aumentado”.

Já António Guterres afirmou que estava contra esta visão e que “o mais importante é que todos procuremos que as coisas corram bem” e que o país tenha êxito “do ponto de vista das pessoas”. “No acordo político houve um aspeto muito criativo no quadro europeu, que foi que os partidos que apoiam o Governo minoritário terem aceitado que este Governo mantivesse posição de fidelidade face aos compromissos europeus e atlânticos de Portugal”, argumentou o socialista.

Sobre a candidatura de Guterres à ONU, e apesar dos conflitos do passado, Durão Barroso disse que gostava muito de ver o socialista neste papel e que não ponderou sequer candidatar-se a este mesmo cargo. “É uma das funções mais importantes que temos a nível mundial”, afirmou o antigo presidente da Comissão Europeia. Guterres respondeu dizendo que Barroso tem sido “gentil” durante todo este processo de candidatura e que lhe está “reconhecido”. No entanto, Barroso afirmou que quem manda na ONU “é o Conselho de Segurança”. Já Guterres mostrou que tem ideias para a sua possível liderança, afirmando que a organização precisa de “capacidade inovadora” e de “modernização”.

O que falta em Portugal? Organização, educação e elites

Sobre a perceção no estrangeiro de Portugal, Barroso e Guterres fizeram a mesma descrição. “É visto com respeito em relação à sua história, mas também como um país pobre e atrasado. Atrasado do ponto de vista de educação. É visto com condescendência, uma condescendência que me magoa”, afirmou Durão Barroso dizendo que há “insufuências grandes” como país e que não há alterações substanciais nas condições de vida das pessoas porque quem está bem consegue resolver os seus problemas. “É um problema de elites”, concluiu.

Também António Guterres vê o problema desta forma. “Há um atraso estrutural na organização e na educação. Mas temos um povo extraordinário. As elites portuguesas não estão à altura do povo”, considerou o antigo primeiro-ministro socialista. Guterres afirmou ainda que Portugal se encontra neste momento numa posição única na União Europeia, já que o país não tem “uma questão de identidade” por esta ter sido construída “numa permanente encruzilhada de civilizações”. “Portugal é o único país onde a xenofobia não paga a nível político”, rematou Guterres, indicando que não há apoio político em Portugal para o populismo de extrema-direita.

O populismo e o euroceticismo na Europa continuam a procurar Durão Barroso mesmo depois de ter saído de Bruxelas. Perante a possível saída do Reino Unido, o antigo chefe da Comissão Europeia indica que quem ganharia com esta retirada seria Moscovo – que está a financiar a campanha pela saída – e os eurocéticos que veriam os seus objetivos de uma Europa mais fraca concretizados. Mas os problemas não se ficam por aí. “Não temos só o ataque dos eurocéticos, mas temos também a desilusão dos pró-europeus. Devíamos ter algum orgulho na Europa”, afirmou Barroso.