O grupo terrorista que planeou os ataques em Paris (a 13 de novembro de 2015) e em Bruxelas (a 22 de março deste ano) estava a preparar um novo ataque para o Euro 2016, que vai começar a 10 de junho. De acordo com a informação avançada pelo jornal francês Libération, Mohammed Abrini explicou às autoridades que os atentados no metro de Bruxelas e no aeroporto de Zaventem não estava sequer nos planos desta célula terrorista e que estes só aconteceram porque se aperceberam que o cerco da polícia se estava a apertar.

Mohammed Abrini foi detido na última sexta-feira e admitiu ter estado envolvido nos atentados de Paris e em Bruxelas. O terrorista de 31 anos revelou ser o “homem do chapéu”, que deixou um saco com explosivos no aeroporto e depois saiu sozinho do local (os outros dois bombistas fizeram-se explodir no local), escapando à polícia durante mais três semanas. Abrini já era procurado desde novembro, por ter sido visto com Salah Abdeslam, o terrorista que escapou dos locais dos atentados de Paris, uns dias antes desses ataques, numa área de serviço. Os dois viajavam num Renault Clio preto, usado no ataque que vitimou 130 pessoas na cidade parisiense a 13 de novembro do ano passado.

Quem é Mohammed Abrini?

Os amigos tratam-no por “Brioche” porque Mohammed Abrini, o terrorista belga de origem marroquina, já foi padeiro. Nasceu em 1985 no bairro de Molenbeek, apontado como verdadeiro ninho de terroristas muçulmanos de origem marroquina e onde o desemprego se eleva até aos 30%. O “homem do chapéu” era amigo de infância de Salah Abdeslam e foi com ele que esteve durante os atentados de Paris, a 13 de novembro.

As autoridades já o conheciam: ainda não tinha 18 anos e já tinha largado o curso militar para se entregar ao mundo da droga e das armas, tendo mesmo estado preso por tráfico e por roubo. A última vez que os registos policiais falam do nome de Abrini foi em 2014. Nesse mesmo ano, o irmão Suleyman Abrini morreu na Síria após oito meses ao serviço do Estado Islâmico. Chorou, garante a mãe, e depois viajou. No ano seguinte, Mohammed Abrini já surgia na lista de 85 pessoas originárias do bairro de Molenbeek que podiam estar radicalizadas. A irmã do terrorista não acreditava na altura que ele tinha seguido os mesmos passos que o irmão mais novo: “Eles são como a noite e o dia. E o Mohammed sempre gostou de viajar”.

De viajar e de ganhar muito dinheiro, fosse de que forma fosse. Foi a descrição que Ali Oulkadi, um dos detidos dos atentados de Paris, fez às autoridades de Abrini: “O Brioche adora o dinheiro e já arranjou muito. Diz-se que conseguiu sacar 200 mil euros num golpe só. É um ladrão que nunca falou de religião ou sobre o que quer que tenha entre as mãos”. A polícia questionou Oulkadi sobre Mohammed Abrini, mas sabia que ele não estava em Paris a 13 de novembro: nesse dia, o “homem do chapéu” estaria em Bruxelas a assinar um contrato de arrendamento de um apartamento na capital belga. À família, Abrini disse que a casa serviria para viver com a noiva a partir de fevereiro de 2016. Em Parias apenas ajudou à fuga de Abdeslam.

A 24 de novembro de 2015, a polícia lançou um mandato de busca onde descrevia Abrini como um homem “perigoso e provavelmente armado”. Com a nota espalhada pelas autoridades havia uma fotografia e a informação de que Abrini já teria estado na Síria a receber treino militar do Estado Islâmico. Foi encontrado em Anderlecht, três semanas depois de ter estado envolvido nos ataques terroristas de Bruxelas. O seu material genético tinha sido encontrado no apartamento alvo de buscas em Schaerbeek, a partir do qual se planearam os atentados na capital belga.

Após a detenção, Abrini garantiu à polícia que era o “homem do chapéu” que acompanhava os bombistas do aeroporto de Zaventem com malas cheias de explosivos num carrinho. E explicou também que o atentado em Bruxelas foi um plano de última hora: a verdadeira intenção da célula terrorista seria voltar a Paris para atacar a Europa em pleno Euro 2016.

Será mesmo ele o “homem do chapéu”?

As investigações levaram a polícia desde o início a crer que Mohammed Abrini, que já havia escapado às autoridades depois dos atentados de Paris, era o “homem do chapéu” filmado no aeroporto e nas ruas de Bruxelas. Um dia depois de terem sido tornado públicas novas imagens do terceiro homem do aeroporto, Mohammed Abrini foi detido em Anderlecht e confirmou ser mesmo o “homem do chapéu” vestido de branco. Mas será verdade?

As dúvidas foram levantadas pelos especialistas, horas depois de as equipas de investigação terem avançado esta informação. O que leva um homem capaz de fintar as maiores equipas antiterroristas europeias por duas vezes – a primeira em Paris e a segunda em Bruxelas – a admitir tão rapidamente que era um dos indivíduos mais procurados do Velho Continente? Para muitos especialistas, escreve o El Español, Abrini está apenas a encobrir o verdadeiro homem do chapéu. Se assim for, ainda há um terrorista à solta com potencial para levar a cabo mais atentados terroristas nos próximos tempos.

É o que avisa Pieter Van Ostaeyen, um belga especializado em terrorismo jihadista: “Não posso crer que alguém com uma função tão importante no Estado Islâmico se declare de repente. Não acredito nisso nem por um minuto”. A única certeza que os especialistas têm é que Abrini conseguiu estar envolvido em dois atentados terroristas que puseram à prova as capacidades das forças europeias para fazer frente à ameaça terrorista no Ocidente.