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Panama Papers

Novos dados levantam dúvidas sobre filho de José Eduardo dos Santos

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Panama Papers. José Filomeno de Sousa dos Santos, filho de José Eduardo dos Santos, pode ter usado o Fundo Soberano de Angola para 'lavar' cinco mil milhões.

José Filomeno de Sousa dos Santos, filho de José Eduardo dos Santos (na foto) será, alegadamente, um dos rostos do esquema de corrupção em Angola

PEDRO PARENTE / ANGOP/LUSA

Autor
  • Miguel Santos Carrapatoso

Mais uma peça que se junta ao híper complexo escândalo dos Papéis de Panamá, desta vez com Angola como o centro de todas as operações. De acordo com um artigo publicado pela Rede Africana dos Centros de Reportagem de Investigação e pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, de que fazem parte a TVI e o Expresso, o Fundo Soberano de Angola, liderado por José Filomeno de Sousa dos Santos, filho de José Eduardo dos Santos, pode ser, na verdade, um veículo criado para lavar cinco mil milhões.

A história gira à volta de um conjunto de personagens que, por si só, já deixam antever a complexidade desta teia de relações. “Um enteado do vice-presidente, um presidente de um banco alemão caído em desgraça, gestores condenados por gestão danosa, um banco russo privado” e o Fundo Soberano de Angola (FSDEA), gerido por José Filomeno, ou Zenu, filho do Presidente angolano, assim descrevem a TVI e o Expresso.

Segundo a investigação jornalística, este alegado esquema de corrupção gira em torno de três instituições: o FSDEA, a conselheira financeira Quantum (com sede na Suíça) e o Banco Kwanza, um banco de investimento antes conhecido como Banco Quantum. A certa altura, as três instituições foram criadas e geridas pelo mesmo grupo de pessoas: o próprio Zenu; Jean-Claude dos Bastos de Morais, presidente e maior acionista do Banco Kwanza; Marcel Krüse, diretor executivo do Banco Kwanza e ex-diretor da Quantum; e Erneste Welteke, membro dos conselhos de administração da Quantum e do Banco Kwanza.

O dinheiro do FSDEA, avança a investigação jornalística, terá sido lavado através do Banco Kwanza, que depois fazia circular o dinheiro por várias entidades desconhecidas, incluindo Kijinga – em 2015, este veículo recebeu 100 milhões de dólares (88 milhões de euros) apenas numa única transação. O fundo liderado por Zenu desmentiu sempre qualquer irregularidade.

O enteado do vice angolano e as ligações a Portugal

Existe uma figura incontornável neste processo: Mirco de Jesus Martins, enteado do antigo presidente do Grupo Sonangol, Manuel Vicente, atual vice-presidente de Angola. Martins era, supostamente, o testa-de-ferro das principais figuras do regime angolano. Seria ele o dono de várias empresas fantasma, criadas com único objetivo de lavar dinheiro angolano – mesmo a Mossack Fonseca admite, em documentos agora tornados públicos, ter dificuldades em perceber quem eram os proprietários reais destas offshores.

Num documento de 2013, que ajudava a mapear a rede de empresas ligadas a Martins, foram detetadas pelo menos dez empresas que existiam simplesmente para deterem contas bancárias no Líbano, Portugal, Gibraltar e Suíça, e outras cinco para deterem igualmente ações em empresas portuguesas e em duas empresas ligadas a aviões classificadas como [empresas de] compra e consultoria.

Com o apertar da malha nas Ilhas Virgens Britânicas, e com a opacidade das empresas supostamente detidas por Martins, a KPMG Financial chegou mesmo a aconselhar a Mossack Fonseca a transferir para o Liechtenstein várias empresas alegadamente detidas pelo angolano.

Há políticos envolvidos nesta estrutura e o nosso contacto na KPMG informou-nos de que seria melhor para nós largarmos estas empresas por motivos de risco”, pode ler-se num email trocado em 2001 entre o escritório da Mossack Fonseca no Luxemburgo e o gabinete das Ilhas Virgens Britânicas.

De acordo com a investigação jornalística, “fontes de alto nível alegam que políticos de alto nível angolanos podem ter estado inicialmente envolvidos mas a sua participação terá sido parcial ou totalmente transferida para Martins como beneficiário.”

Martins ter-se-á mesmo irritado quando a Mossack Fonseca pediu mais detalhes sobre a propriedade das empresas-fantasma que alegadamente detinha. A isto, Martins terá respondido que se a informação que transmitira ao Banco do Luxemburgo era suficiente para as autoridades luxemburguesas, então deveria ser suficiente para a Mossack Fonseca. E o nevoeiro tornava-se ainda mais cerrado.

Esta, no entanto, parece ser apenas a ponta do icebergue. A investigação levanta ainda suspeitas sobre a relação entre os regimes angolano e russo. Offshores, bancos privados russos, beneficiários desconhecidos, regras opacas ou duvidosas, o FSDEA e o Banco Kwanza. Estas parecem ser as várias peças de um “esquema perfeito” criado para lavar dinheiro angolano, adianta a investigação jornalística.

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