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A alta cozinha desceu à terra e plantou-se à beira-mar, no número 505

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Os sabores do chef Vítor Matos, que manteve uma estrela Michelin na Casa da Calçada, viajaram até à Póvoa do Varzim. O 505 é um "projeto muito particular" que quer democratizar a alta cozinha.

Autor
  • Sara Otto Coelho

Avenida Repatriamento dos Poveiros, 505, Póvoa de Varzim. Esta era a morada do restaurante Dahlia, que fechou em janeiro de 2015, após quase uma década a servir poveiros e visitantes. No dia 21 de abril, o número 505 voltou a abrir as portas a quem quiser lá comer. Chama-se agora 5uinhentos & 5inco – Cozinha de Memória e a carta é da autoria do chef Vítor Matos. Mas não só. A garrafeira também foi escolhida por ele e até há quadros nas paredes que o próprio pintou.

“Quando surge a oportunidade para este projeto, mantendo a parceria que já existia entre o chef Vítor Matos e o Grupo Bodegão, vimos o espaço e traçámos como objetivo ter aquilo que ele e o chef Tiago Faria têm de melhor para oferecer, que é a alta cozinha, mas, ao mesmo tempo, fugindo um bocadinho a esse conceito.”, diz António Nunes ao Observador, um dos sócios, juntamente com Paulo Nunes e Paulo Gomes.

Fugir como? A julgar pelo “ambiente bonito”, como explica o sócio ao Observador, não parece haver grande fuga. As madeiras são a peça chave da decoração. As duas centenas de referências de vinhos estão espalhadas por todo o lado e são um dos principais chamarizes do restaurante. A meia-luz e as mesas divididas por diferentes divisões conferem-lhe um ambiente recatado.

Quem passar à porta do 505, perceber que a cozinha tem a mão de Vítor Matos e olhar bem lá para dentro, vai pensar que, para comer ali, terá de deixar em troca couro e cabelo. É a essa fuga que António Nunes se refere. “Mas porque é que há de ser só para uma minoria?”, pergunta. De segunda a sexta-feira há a opção de almoço executivo, com entrada, sopa, prato, sobremesa, bebida e café. Preço final: 11 euros. Com a vantagem de se poderem experimentar variações do menu.

restaurante 505 pregado com em crosta de pão de alho e espinafres

Pregado em crosta de pão de alho e salsa, um dos pratos que moram no 505.
(foto: © Divulgação)

“É uma cozinha elaborada, mas quisemos desmarcar-nos do gourmet“, assume. Todos estiveram de acordo que os pratos tinham de ir com uma boa quantidade de comida para a mesa. “É preciso criar um equilíbrio. Neste momento, e o Vítor Matos é dessa opinião, a alta cozinha tem de descer um bocadinho à terra.”

Se por um lado as aparências iludem em relação à conta final, por outro são um bom indicativo do que chega à mesa. Os pratos Vista Alegre e as andorinhas Bordalo Pinheiro nas paredes lembram os sabores tradicionais da cozinha portuguesa e é isso que se encontra no 505. “É o meu regresso ao passado, quando fazia uma cozinha de gosto, onde a simplicidade e o sabor eram importantes”, explica o chef Vítor Matos. “Sei que cada vez mais as pessoas procuram uma cozinha de conforto e com um ambiente descontraído. Fazemos uma cozinha sem pretensões, queremos acima de tudo que as pessoas se sintam em casa.”

Vítor Matos vê o 505 como “um projeto muito particular” na sua carreira. Não só fez a carta de comida como, pela primeira vez na sua carreira, fez a carta de vinhos. Entre as 200 referências, que são uma viagem pelo país — algumas das garrafas levam o seu nome — e com “margens de lucro mais pequenas do que em certos sítios”, 50 são de vinho do Porto. “Ele até nos matava se não tivéssemos as 50 referências de Porto, acha que os portugueses deviam bebê-lo mais.”, diz António Nunes. Os pratos que estão na mesa foram desenhados pelo chef, assim como a mesa da entrada do restaurante. Há também quatro quadros pendurados nas paredes que o próprio pintou. O 505 tem a sua identidade, ainda que não vá estar lá todos os dias fisicamente.

restaurante 505 vinhos

António Nunes recorda a alegria de Vítor Matos por estar a montar uma garrafeira pela primeira vez. Há 50 referências de vinho do Porto. (foto: © Divulgação)

A cozinhar todos os dias vai estar o chef Tiago Faria, que esteve com Vítor Matos dois anos na cozinha do Largo do Paço, em Amarante (curiosamente, depois de ter estado dois anos no Dahlia, entre 2008 e 2010). “A técnica está lá. Mas, por exemplo, se formos a falar de cozinha molecular, como é habitual num restaurante de estrela Michelin, aqui não se vai além de um certo limite”, explica o jovem de 26 anos. Ou seja, ganhar uma estrela Michelin aqui não é o objetivo. Para experiências dessas, Vítor Matos tem, neste momento, o Antiqvvm, no Porto.

Para falar então dos pratos, entra em cena quem os vai preparar. “A carta puxa pelos produtos portugueses o mais que pode”, conta Tiago Faria. Há o bacalhau confitado em azeite transmontano, com migas de couve da Póvoa, feijão manteiga e enchidos (15€). O tamboril é servido envolto em toucinho fumado com arroz cremoso de ervilhas e sapateira, numa emulsão de crustáceos com caril e chutney de manga (15€). Nas carnes, destaque para a alcatra de vitela (14,75€), para as bochechas de porco preto com camarão (15€), ou para a coxa de pato confitada com molho de citrinos algarvios, acompanhada com puré de batata-doce e legumes do mercado glaceados (14€) sem esquecer a opção costeleta de carne maturada (600 gramas ou um quilo, servida em tábua).

“Depois há os tradicionais, como o arroz de polvo ou as ameijoas à Bulhão Pato”, lembra. Na secção das sobremesas encontram-se, claro a aletria, neste caso dourada com pera bêbeda e abóbora. Também o pudim Abade de Priscos tem toque de Vítor Matos, sendo servido com mousse de baunilha e molho e tangerina. A tarte folhada de maçã caramelizada, que leva mousse de mascarpone e praliné de avelãs, parece um desafio de equilibrismo. “Estamos a falar de sabores portugueses que as pessoas se calhar nunca provaram desta forma”, resume. Todas as sobremesas saem das mãos do pasteleiro Bruno Botão.

restaurante 505 A minha versão do Pudin Abade de Priscos

Esta é a versão de Vítor Mato do pudim Abade de Priscos (foto: © Divulgação)

Nas entradas, a tosta de sapateira (7,50€) vai buscar o tradicional recheio de sapateira. “No entanto fazemos com laranja e empratamos à nossa moda”, destaca Tiago Faria. A sopa de peixe, que é típica da Póvoa, tem camarão, um toque de açafrão e uma espuma de coentros (6,50€). “Já entra aqui a técnica da alta cozinha”, aponta, para depois frisar que o que tem em mente, sobretudo, é “fazer simples e bom”. A vieira casa com presunto alentejano, brás de legumes e cogumelos (9€). Das entradas, o salmão será a opção com o toque mais moderno, por ser marinado com chili, creme de abacate, coentros, lima e creme de coco (8€).

Com tantas garrafas espalhadas pelo espaço, o 505 também vai acolher jantares vínicos, uma vez por mês, conduzidos por Vítor Matos. O próximo é no dia 3 de junho, sexta-feira, e o parceiro em destaque será o champanhe Pierre Trichet. Participar custa 50€ e as reservas já estão abertas.

Em caso de emergência gastronómica, em vez de ligar o 112, é digitar 505 no GPS. Situado a 500 metros da Praia da Lada e mantido por poveiros. Com a exceção de Vítor Matos, que nasceu em Vila Real e foi viver muito novo para a Suíça. “Na Póvoa de Varzim, as pessoas gostam de comer”, avisa António Nunes. “Quem vem cá comer não vai ficar a olhar para o prato e tentar descobrir onde está a comida. Essa foi uma das grandes preocupações do Vítor Matos quando estava a fazer a ementa. Não vai haver uma montanha de comida no prato, mas a pessoa vai comer e sentir-se satisfeita.” Veremos se, afinal, santos da casa também fazem milagres.

Nome: 5uinhentos & 5inco – Cozinha de Memória
Morada: Avenida Repatriamento dos Poveiros, 505, Póvoa de Varzim
Horário: De segunda a sábado das 12h às 15h e das 19h às 23h. Às sextas e sábados encerra às 23h30
Preço Médio: 35€. Existe um menu de almoço durante a semana por 11€
Reservas: Aceitam
Site: www.facebook.com/505restaurante

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