“Nós, do lado do FMI, fizemos uma enorme cedência — e mais vale ser franco em relação a isso. Tínhamos defendido medidas imediatas de alívio da dívida mas aceitámos que elas sejam aprovadas no final do programa“. A frase é de Poul Thomsen, diretor do departamento europeu do FMI, e indica que o governo alemão levou a melhor na disputa que há longos meses se arrastava e que, mais do que a disponibilidade do governo grego para tomar medidas, arriscava fazer descarrilar o terceiro resgate à Grécia.

Poul Thomsen afirmou que “todos mostrámos flexibilidade“, mas reconheceu, citado pelas agências noticiosas, que a participação do Fundo Monetário Internacional (FMI) estará apenas condicional ao resultado de uma análise à sustentabilidade da dívida que incorpore as novas medidas de austeridade.

Haverá algumas medidas de alívio da dívida de curto prazo, mas ficam sujeitas a aprovação no final do programa, em 2018, as iniciativas com maior potencial para reduzir (indiretamente, nunca por cortes nominais) o fardo da dívida grega aos fundos europeus.

“A primeira coisa a notar neste acordo é que todas as medidas de médio de longo prazo para o alívio da dívida são apenas compromissos, nada foi aceite realmente por qualquer membro da zona euro”, escrevem os analistas do Rabobank em nota de análise desta manhã. A aprovação de mais medidas de alívio da dívida será, portanto, avaliada apenas em 2018, após as eleições federais na Alemanha, como queria o ministro alemão Wolfgang Schäuble.

O acordo desta madrugada significa que a Grécia não obteve, realmente, qualquer alívio da dívida. E a participação do FMI não deixa, também, de estar condicional a uma análise à sustentabilidade da dívida em poucos meses (depois do referendo britânico, o que é crucial). Portanto, é bem possível que estejamos de volta à mesa das negociações dentro de alguns meses”, diz o Rabobank.

Além do referendo britânico, em finais de junho realizam-se, também, as eleições em Espanha — outro fator que pesa nestas considerações.

Ainda assim, o FMI sublinha que também conseguiu uma vitória porque, na sua opinião, o resultado da reunião trouxe um reconhecimento por parte dos líderes europeus de que a dívida pública grega é insustentável, como o fundo defende há quase um ano.

No comunicado final do Eurogrupo, surge, também, o reconhecimento europeu de que “num horizonte temporal mais longo, não é possível haver estimativas sobre a sustentabilidade da dívida, apenas pressupostos, tendo em conta o elevado grau de incerteza em torno da evolução macroeconómica”.

De qualquer forma, o comunicado deixa claro:

O possível alívio da dívida será concedido no final do programa, em meados de 2018, e o grau de alívio será determinado pelo Eurogrupo na base de uma nova avaliação à sustentabilidade da dívida feita em cooperação com as instituições europeias (…) e sujeita ao cumprimento pleno do programa”.

Por outras palavras, perdão da dívida grega aos fundos europeus? Talvez, caso a Grécia cumpra o memorando de entendimento e o Eurogrupo — não o FMI — julgue se esse alívio (e quanto alívio) é apropriado, só no final do programa. O resultado fica longe do que queria o FMI, isto é, medidas imediatas, algo que o fundo há muito defende e que admitia deixar a Grécia chegar perto do precipício para pressionar a Alemanha (segundo revelou um WikiLeak explosivo divulgado em abril).