Jardim Zoológico

Continua a ser seguro visitar um zoo?

Os zoos têm planos de segurança para preservar a integridade de visitantes, animais e tratadores. Mas por muito boas que sejam as barreiras dos zoos é preciso que as pessoas as respeitem.

As barreiras físicas existem para proteger animais e visitantes, mas as pessoas quebram muitas vezes as regras

AFP/Getty Images

A notícia sobre o gorila que foi abatido para resgatar uma criança no Zoo de Cincinnati (EUA) tem corrido o mundo e tem provocado reações distintas entre as pessoas. O abate de um animal que pertence a uma espécie tão ameaçada gerou alguma indignação, mas haveria forma de evitar esta situação? De uma forma simplista: sim.

Os zoos, quando criam as instalações dos animais, têm em consideração a segurança dos visitantes, dos animais e dos tratadores, lembra a diretora do Zoo Santo Inácio (em Vila Nova de Gaia), Teresa Guedes. Quando um dos elementos de um destes grupos quebra uma barreira ou medida de segurança, coloca-se a si, aos elementos do seu grupo e aos elementos dos restantes grupos em perigo. Posto de uma forma simples: se uma pessoa não respeita uma barreira de segurança coloca-se a si, aos animais e aos técnicos do zoo, que têm de a salvar, em risco. E o saldo pode ser negativo para um dos lados. Neste caso, foi para o lado do gorila.

Teresa Guedes felicita-se por nunca terem tido no Zoo Santo Inácio, inaugurado no ano 2000, uma situação deste tipo, mas confirma que “a vida humana prevalece em relação à vida animal”. Relembra, no entanto, que não se está apenas a falar de uma vida humana, “há também uma vida animal em risco” e que “qualquer tomada de decisão é sempre difícil”. “O fator tempo é o nosso maior inimigo.”

Os planos de segurança dos zoos são criados tendo em conta a categoria de risco das espécies – como tamanho, rapidez, mordedura -, mas também o tipo de instalação onde se encontram – se é um espaço aberto ou fechado, por exemplo. No caso do Zoo Santo Inácio existem vários avisos no parque alertando os visitantes para as medidas de segurança: “Animal perigoso”, junto aos animais que fazem parte da categoria 1, ou avisos para que as pessoas não ultrapassem as vedações e não incomodem os animais.

A diretora do Zoo Santo Inácio, com 15 hectares, refere que o zoo tem crescido muito nos últimos anos e que todas as instalações, regras de maneiro e condições de segurança seguem os padrões da Associação Europeia de Zoos e Aquários (EAZA). Com 800 animais, distribuídos por cerca de 270 espécies, Teresa Guedes lembra que apesar de existirem uma série de medidas previstas, cada animal, cada instalação e cada situação vão implicar uma avaliação da situação e uma tomada de medidas específica.

Sem nunca terem tido uma situação em que um visitante entrasse numa instalação, Teresa Guedes e Carla Monteiro, médica veterinária responsável no Zoo Santo Inácio, explicam que, para uma tomada de decisão, é importante perceber se o animal está calmo ou agitado, se está interessado (neste caso, na criança/adulto) ou não, se responde às instruções dos tratadores (como recolher às instalações interiores) ou não. A primeira medida será, naturalmente, pedir à pessoa que saia da instalação pelo próprio pé. Outra possibilidade poderá ser recolher os animais nas suas instalações interiores e permitir a entrada dos tratadores na instalação.

Entre as medidas que os técnicos do zoo têm à disposição contam-se as barreiras físicas, a contenção química (tranquilizantes) ou, caso nenhuma das outras medidas resolva a situação, o abate do animal. Carla Monteiro dá um exemplo: as araras são muito territoriais e, caso uma pessoa entre na instalação e seja alvo de ataque, usar redes ou escudos pode ser uma medida suficiente. Outras medidas incluem escudos gigantes com quatro metros de comprimento, laços de contenção, aguilhões elétricos ou até mangueiras de incêndio que permitem jatos de água de elevada pressão, refere a veterinária.

Os animais do zoo continuam a ser animais selvagens

Antes mesmo de falar nas decisões a tomar em situações de risco, Carla Monteiro considera que é importante apostar na educação das pessoas, não só para que não se coloquem em risco ultrapassando as vedações, mas também que se lembrem que os animais do zoo são animais selvagens. “A proximidade não o torna diferente de um animal selvagem.”

Os animais do Zoo Santo Inácio, e dos zoos que fazem parte da rede EAZA, não podem, atualmente, ser capturados na natureza para integrarem as coleções dos zoos. Os animais reproduzem-se em zoos e são trocados entre instituições para aumentar a diversidade entre os vários elementos da rede. Claro que os animais nascidos sob cuidados humanos estão habituados a ver pessoas – os tratadores e os visitantes – e podem até não reagir negativamente à sua presença, mas “não atacar não significa que estejam mais dóceis”, explica Carla Monteiro. Qualquer animal que veja o seu território invadido poderá tentar defendê-lo. Como nós o fazemos se um ladrão nos entra em casa, compara Teresa Guedes.

É verdade que os animais do Zoo Santo Inácio respondem pelo nome e obedecem a certos comportamentos treinados pelos tratadores, mas não existe contacto físico entre ambos. A importância da relação de confiança que se estabelece entre os tratadores e os animais serve: primeiro, para que os animais recém-chegados se sintam confortáveis na sua nova casa; depois, para que ao fim do dia, na hora da recolha, os animais se dirijam para as instalações onde passarão a noite sem problemas.

O bem-estar dos animais é um dos focos principais do Zoo Santo Inácio. E Carla Monteiro admite que, em relação aos planos de segurança, a parte a que dedicam mais atenção até são os casos de fuga dos animais. Embora esta situação também nunca tenha acontecido no parque zoológico de Gaia.

A saída dos animais das instalações está acautelada. E a entrada de humanos (visitantes) também. Teresa Guedes não diz que seja impossível a alguém entrar numa instalação de felinos, mas é extremamente difícil. Os felinos têm muros de betão ou redes com quatro metros de altura, com cercas elétricas a várias alturas, e as redes afunilam no topo para evitar que os animais consigam sair. Também nos primatas, as instalações têm redes a toda a volta, para evitar que os animais possam trepar e fugir. No caso dos felinos, e da instalação que reproduz uma savana, entre a vedação para visitantes e os limites da instalação dos animais existe um espaço com, pelo menos, metro e meio. Na “savana”, os animais não conseguem sair porque a instalação fica abaixo do nível dos visitantes.

Os planos de segurança preveem também a segurança dos tratadores. Além de todas as regras de maneio, que incluem que o tratador não esteja na instalação ao mesmo tempo que os animais, existem verificações diárias obrigatórias aos equipamentos, como os sistemas de fecho elétrico das portas ou os cadeados. Aliás, as instalações interiores têm um sistema de cadeado duplo para reforçar a atenção do tratador.

O Observador tentou obter esclarecimento do Jardim Zoológico de Lisboa sobre as medidas de segurança que tomavam no espaço. O Jardim Zoológico afirmou, por email, que “as regras instituídas nos parques têm de ser escrupulosamente cumpridas sob o risco de acontecerem situações deste género [situação do gorila], que põem em causa a segurança das pessoas e dos animais”. “No Jardim Zoológico existe um plano de segurança interno que foi submetido e aprovado pelas autoridades competentes. Este plano de emergência interno é parte integrante das medidas de autoproteção do Jardim Zoológico e inclui, entre outros riscos, a fuga de animais. As instalações estão classificadas de acordo com o nível de risco e para todas está definida uma instrução particular de emergência.”

Era preciso abater o gorila Harambe?

Nenhum zoo, que tenha como função o bem-estar dos animais e a preservação das espécies, abate um animal de ânimo leve. Assim como também não o fizeram os responsáveis do Zoo de Cincinnati.

Os argumentos de que o gorila não estaria a agredir a criança e que estaria a tratá-la com a curiosidade própria de um primata terão a sua validade. Mas é importante não esquecer que os animais em zoo, ainda que nascidos sob cuidados humanos, como o caso de Harambe, mantêm os comportamentos de uma espécie selvagem.

No caso do gorila não quer dizer que atacasse a criança como um predador, visto que se trata de um herbívoro, mas Harambe era um dorso prateado, uma macho adulto, que tem como função defender o seu território e as suas fêmeas. Além do mais, um animal com 180 quilogramas podia magoar a criança involuntariamente graças à sua enorme força. E um dardo tranquilizante, antes de adormecer o gorila (o que pode levar uns 10 minutos), poderia também provocar uma reação perigosa do animal.

“Não houve nenhum momento de agressão aguda, como também reconheceu o diretor do zoo. Se o gorila tivesse querido matar o menino, podia tê-lo feito com um soco. As pessoas não têm noção da força sobre-humana dos gorilas”, afirma o primatólogo Frans de Waal, citado pelo El País. O especialista não condena a decisão do zoo que teve de ser tomada num tempo muito curto, mas considera que é preciso haver mais debate sobre as melhores medidas a tomar em situações como esta.

Adam Roberts, defensor de direitos dos animais na associação norte-americana Born Free (Nascer Livre), questiona, citado pelo Guardian, se o animal abatido não poderia ter caído sobre a criança, tornando esta uma má medida. Ian Redmond, presidente da associação dedicada à conservação desta espécie – Gorilla Organisation, pergunta, citado pelo Guardian, se os tratadores tentaram distrair Harambe, o macho de 17 anos, antes de o matarem.

Os responsáveis pelo Zoo de Cincinnati dizem que voltariam a tomar a mesma decisão num caso como este, porque acharam que o gorila estava nitidamente agitado. Ainda que, no vídeo, as pessoas pudessem ter uma perceção diferente, ninguém melhor do que os tratadores e técnicos do zoo para reconhecerem um comportamento típico ou anormal de um determinado animal.

Entre o ano de 2014 e 2015, o Zoo de Cincinnati recebeu 1,5 milhões de visitantes entre eles muitos pais e nunca nenhuma criança caiu dentro da instalação dos gorilas, refere a Vox. Aliás, desde que abriu, em 1978, esta foi a primeira vez que o zoo teve uma situação como esta. É por isso que o zoo anunciou que vai abrir um inquérito à atuação da mãe da criança. Algumas petições online pedem mesmo que os serviços de proteção de menores investiguem a mãe do rapaz de quatro anos.

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