As propostas não são exatamente as mesmas, mas algumas das iniciativas apresentadas pelo CDS sobre envelhecimento ativo e proteção dos idosos encaixam em ideias que fazem parte do Programa de Governo socialista. Uma delas foi até publicamente defendida pelo primeiro-ministro, António Costa: a possibilidade de quem está perto da idade da reforma trabalhar a tempo parcial. O debate sobre o tema está agendado para as 15 horas desta quinta-feira, na Assembleia da República.

A ideia dos democratas-cristãos é que os trabalhadores que se encontrem a um ano da idade legal da reforma possam escolher trabalhar a tempo parcial, comprometendo-se em contrapartida a permanecer no ativo durante mais um ano do que o previsto. No Programa do Governo, António Costa compromete-se a dar “apoio a reformas a tempo parcial”, com o objetivo de “promover a permanência dos trabalhadores mais próximos da idade da reforma no mercado de trabalho”. O compromisso é desenvolvido em espelho com iniciativas de promoção do emprego para os jovens, para estimular a renovação geracional das empresas.

Segundo o Expresso, a líder do CDS, Assunção Cristas, está pessoalmente empenhada em encontrar consensos sobre o tema dos idosos, tendo mesmo contactado diretamente o primeiro-ministro. Mas, ao que o Observador apurou, esta quinta-feira de manhã os socialistas ainda não tinham decidido o que fazer com as iniciativas apresentadas pelo CDS. Uma fonte próxima das negociações confirmou ao Observador que os projetos ainda estão a ser analisados.

Também os bloquistas não tinham ainda decidido o seu sentido de voto. O mesmo acontece com os comunistas, que pelo menos até quarta-feira ao final do dia estavam ainda a analisar as propostas dos centristas.

De entre os três partidos da esquerda, os contactos ao nível partidário para criar abertura a consensos tinham acontecido com os socialistas — não houve quaisquer diligências junto dos comunistas e o deputado do Bloco responsável por estas matérias também não tinha sido contactado. Com o PS, os democratas-cristãos acordaram uma espécie de armistício político até à hora marcada para o arranque do debate parlamentar. A ideia era dar tempo político para avaliar se os consensos serão possíveis, era acordar não discordar logo à partida.

A deputada do CDS Isabel Galriça Neto limitou-se, por isso, na quarta-feira a pedir ao PS que atenda ao desafio de Marcelo Rebelo de Sousa e que procure consensos. Mas não houve declarações dos líderes parlamentares dos dois partidos.

Do lado dos socialistas, a reunião regular entre o grupo parlamentar e membros do Governo, marcada para as 19h30 de quarta-feira foi aproveitada para abordar o assunto.

As ideias onde o consenso não parece impossível

A reforma a tempo parcial não é a única iniciativa do CDS que vai, de certo modo, ao encontro de ideias inscritas no Programa de Governo dos socialistas. Por exemplo, os democratas-cristãos propõem a reativação da linha Saúde 24 Sénior; e o programa do Executivo fala em “apoiar o desenvolvimento de programas de teleconsultas ao domicílio e de aplicações digitais para a saúde individual”.

Também querem ambos reforçar a formação e a prestação de serviços de apoio ao domicílio para idosos. Outra ideia próxima é sobre a ocupação dos idosos. O CDS recomenda incentivos à prática de voluntariado por parte dos mais velhos; os socialistas comprometem-se a inserir a população sénior em programas de serviço comunitário para apoiar o ensino de jovens desfavorecidos.

No essencial, o que sobressai é que apesar de haver, certamente, muitas ideias contrárias e distantes, há também iniciativas sobre as quais chegar a entendimento poderá não ser impossível.

No entanto, haver um entendimento sobre os objetivos não é tudo, conforme fará questão de notar o PCP. Os populares terão, à semelhança do que aconteceu com o debate sobre a natalidade, de suportar as críticas da esquerda de falta de credibilidade das suas iniciativas.

É de uma enorme hipocrisia política”, defende António Filipe, deputado comunista, em declarações ao Observador.

“O que o CDS quer é branquear a sua imagem e o que fez enquanto foi Governo”, atirou, lembrando que os democratas-cristãos, juntamente com o PSD, só não aprovaram o corte de 10% nas pensões porque o Tribunal Constitucional não permitiu.