Duas deputadas do Partido Trabalhista apresentaram uma moção de censura (os ingleses chamam-lhe moção de não-confiança) à liderança de Jeremy Corbyn, que será discutida já na segunda-feira, numa reunião do Labour. Margaret Hodge e Ann Coffey são as deputadas que o Financial Times apelida de “rebeldes”, por terem tomado a iniciativa de submeter uma moção contra o líder do seu próprio partido.

As duas deputadas enviaram o texto ao presidente do Partido Trabalhista e esse texto será votado por todos os deputados eleitos pelo partido — provavelmente na terça-feira — que assim se posicionarão sobre uma eventual mudança na liderança. O voto será secreto. Entretanto, já se fala na possibilidade de outros 50 deputados assinarem uma carta a exigir uma nova eleição. Durante o fim de semana esperam-se muitas movimentações.

Mas se quem prometeu o referendo foi David Cameron, e se quem mais se destacou na campanha pelo Brexit foi outro conservador — Boris Johnson —, por que razão o furacão está prestes a atingir o líder dos trabalhistas?

A grande crítica que é feita a Corbyn é que ele nunca esteve realmente empenhado na campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia. Defendeu o ‘Ficar’, mas foi pouco assertivo, muito menos apaixonado.

Na manhã em que se conheceram os resultados, Tony Blair apelidou a participação de Corbyn na campanha como “bastante morna” e houve quem não tivesse perdoado o facto de o líder do Labour não ter aparecido ao lado de Cameron e do mayor de Londres, o trabalhista Sadiq Khan, na defesa do ‘Ficar’.

Peter Mandelson, que foi ministro nos governos de Tony Blair e de Gordon Brown, disse ao Financial Times que a prestação de Corbyn foi “demasiado fraca”. E quando questionado sobre se Corbyn devia continuar à frente do Labour, afirmou: “Isso é o que ele tem de perguntar a si próprio”.

Angela Smith, deputada trabalhista, foi, segundo o Independent, a primeira a pôr em causa o lugar de Corbyn: “Jeremy Corbyn tem de assumir as suas responsabilidades. Ele devia considerar a posição que ocupa. Mostrou uma liderança insuficiente”.

O guião da discórdia

O The Guardian relata uma reunião do gabinete sombra encabeçada por Jeremy Corbyn que começou esta manhã e durou três horas, explicando que alguns dos deputados estavam “furiosos” com a resposta oficial do partido aos resultados. Pelas seis da manhã, a equipa de Corbyn enviou um guião com o discurso a passar depois da vitória do Brexit. Nesse documento — que entretanto já está disponível online — sugeria-se que os trabalhistas afirmassem que o partido estava perto do “centro de gravidade do público britânico” e que Jeremy Corbyn era um defensor “crítico” do ‘Ficar’.

“Jeremy é o único que se situa como um defensor crítico do ‘Ficar’. Ele compreende porque é que as pessoas votaram pelo ‘Sair’, ele compreendeu as críticas das pessoas à Europa — e é o único líder de um grande partido britânico a quem esta posição se aplica”, lê-se no guião enviado aos deputados.

A verdade é que Corbyn nunca foi um entusiasta da União Europeia, muito pelo contrário. Em 1983 subscreveu um manifesto eleitoral dentro do partido que defendia a saída do Reino Unido da então Comunidade Económica Europeia. Em 1992 — com Maastricht — e em 2007 — em relação ao Tratado de Lisboa —, o então deputado Jeremy Corbyn esteve contra a ratificação dos tratados pelo parlamento britânico.

O homem que se candidatou a líder dos trabalhistas depois de Ed Miliband se ter demitido foi eleito em setembro do ano passado com 59, 6% dos votos. Não se sabe quanto tempo mais durará. Por ele, a liderança não está em causa:

“Vou ficar. Absolutamente!”, sublinhou esta manhã Jeremy Corbyn.

O cerco pode apertar-se em torno de Jeremy Corbyn, mas quem pode suceder-lhe? Há vários nomes avançados pela imprensa britânica. Demasiados, talvez,o que demonstra que não há, nesta altura, um claro, forte e inegável nome na linha da frente para derrotar Corbyn.

O nome de John McDonnell é sempre referido — ele é o Lorde Chanceler sombra (na prática o número dois de Corbyn) — mas tanto é apontado como uma forte aposta na sucessão, como aquele que pode cair juntamente com Jeremy Corbyn.

O líder do grupo parlamentar dos trabalhistas, Tom Watson, é outro nome a ter em atenção. Foi um dos homens mais próximos de Gordon Brown, mas foi eleito líder da bancada parlamentar com pouco mais de 50% dos votos.

Para já, ninguém se mostra disposto a desafiar diretamente Corbyn. É aliás devido à falta de um “stalking horse“, ou seja, alguém que avance nem que seja para provocar eleições, que as deputadas optaram pela moção de censura, na esperança de que Jeremy Corbyn saia pelo seu próprio pé, caso não obtenha o apoio da maioria dos deputados na votação secreta da próxima semana.