Da galeria de sound bytes publicitários que ganharam fama nos anos 80, consta um vigoroso “diga bom dia com Mokambo”, retirado do anúncio à homónima mistura solúvel de café e cereais, nessa época muito em voga nas mesas de pequeno-almoço nacionais. Muitos anos passaram desde o auge do produto mas a associação continua a ser imediata e inevitável: basta ouvir-se a palavra Mocambo/Mokambo para logo alguém começar a cantarolar o famoso refrão.

(Talvez contribua para tal que ao longo do reclame a palavra seja dita ou cantada 15 vezes — um fabuloso rácio de 0,5 mokambos por cada segundo de vídeo)

Mas Mocambo, com , tem um significado histórico em Lisboa, cujo reconhecimento é menos unânime que a supracitada peça publicitária. Foi o nome atribuído ao bairro, que começava na atual Madragoa, onde se instalou a primeira verdadeira comunidade africana da capital. E é esse Mocambo que Mafalda Nunes pretende homenagear no espaço que abriu há um par de meses entre a Graça e Santa Apolónia e a que chamou, convenientemente, Casa Mocambo.

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A ementa é convidativa, mas a Casa Mocambo é mais do que um restaurante.
(foto: © Tiago Pais / Observador)

“A ideia é que esta seja uma casa mestiça, com várias atividades”, explica a responsável, que tem uma relação próxima com África — trabalhou em Angola — e com o próprio bairro do Mocambo, já que cresceu na Madragoa. E tudo começa no restaurante, a face mais visível do espaço e onde, refere Mafalda, há a intenção “de dar a conhecer a gastronomia da África lusófona.” Isto faz-se não só recorrendo às receitas típicas de Angola ou Cabo Verde — há muamba e cachupa ao fim-de-semana — como à africanização de alguns clássicos portugueses. “O nosso bife à Mocambo (8€) é uma espécie de bitoque mas com batata-doce e mandioca frita, além de feijão”, conta a mentora do projeto. Sucesso igual faz a kibeba (8€), prato típico do Sul de Angola e do Brasil que junta choco, mandioca e óleo de palma.

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A decoração do espaço também remete para o universo do Mocambo.
(foto: © Tiago Pais / Observador)

Mas a Casa Mocambo não se fica pelos comes e bebes. Longe disso. Além de ter uma pequena vertente loja com alguns artigos de inspiração afro à venda, logo à entrada, a cave do espaço é utilizada como galeria de arte e palco de workshops, concertos ou leitura de poesia. Nesta altura, por exemplo, é possível ver um trabalho fotográfico de JRicardo Rodrigues, intitulado “O Feitiço do Batuque”, que é, como se lê na descrição da obra, “uma revelação do esquecido Bairro do Mocambo na poderosa Lisboa do século XVIII.” E a agenda está em constante atualização: já dia 7 de julho haverá leitura de poesia por parte de atores e músicos angolanos e a 23 do mesmo mês subirá ao palco o Malenga Trio, liderado pelo multifacetado artista moçambicano com o mesmo nome, que inaugurará uma exposição nessa data.

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A vertente cultural da casa acontece na respetiva cave.
(foto: © Tiago Pais / Observador)

E se depender de Mafalda, os convidados não se limitarão a enriquecer a dimensão cultural da Casa Mocambo. “Queremos ter pessoas de fora a orientar a cozinha em noites especiais, dedicadas à cozinha de um país”, revela. Já o fizeram uma vez, com o Senegal, e fá-lo-ão novamente assim que surja oportunidade.

Outra das suas missões é promover o copo ao fim do dia. E nem precisa de ser alcoólico — ali serve-se, por exemplo, sumo de tamarindo e de hibisco (ou jus de bissap), a bebida nacional do Senegal. Dizer bom dia com este Mocambo é que ainda não é possível: durante a semana a casa abre apenas às 18h. Mas dizer boa noite é fácil. E bom apetite também.

Nome: Casa Mocambo
Morada: Rua do Vale de Santo António, 122A (Santa Engrácia), Lisboa
Telefone: 91 250 9906
E-Mail: casa.mocambo@gmail.com
Horário: De terça a sexta, das 18h à 00h (sexta até às 02h). Sábado das 12h às 02h. Domingo, das 18h à 00h
Preço Médio: 15€
Reservas: Aceitam
Site: facebook.com/Casa.Mocambo