Quando Pedro Sánchez assumiu a liderança do PSOE, a 28 de junho de 2014, tinha três missões difíceis:

  • Unificar o PSOE, confrontado com divisões internas;
  • Recuperar os votos perdidos, sobretudo após o mau resultado obtido nas eleições europeias, em 2014, que resultou na demissão de Alfredo Pérez Rubalcaba;
  • Travar o crescimento do Podemos como partido emergente de esquerda.

No seu discurso, após serem conhecidos os resultados das eleições internas, Sanchéz prometeu “mudar o partido”, para que possa voltar “a ser uma maioria”, e garantiu que “o princípio do fim do tempo de Mariano Rajoy” estava perto.

Menos de dois anos depois, a 20 de dezembro de 2015, veio o primeiro grande teste com as eleições legislativas do país. Num Congresso dividido entre quatro forças, o PSOE conseguiu o segundo lugar com 22,01 % dos votos, equivalentes a 90 deputados. Na altura, Sanchéz disse: “Fizemos história, fizemos presente e o futuro é nosso”.

Este, no entanto, foi o pior resultado de sempre do PSOE nas eleições, inferior a 2011 quando Pérez Rubalcaba obteve 28,7% dos votos com 110 representantes. Em relação a 2008, quando PP e PSOE dominavam o cenário político do país, José Luis Rodríguez Zapatero foi reeleito com maioria absoluta com 43,8% dos votos e 169 deputados.

O resultado obtido em dezembro foi criticado dentro do partido. Susana Díaz, presidente do governo regional da Andaluzia, destacou que o PSOE não conseguiu ganhar ao PP, “que tinha nas suas costas a maior brecha de desigualdade entre os cidadãos e que tinha ainda contra si graves casos de corrupção”. “Se o Partido Popular nos ganhou estas eleições, nestas circunstâncias, é porque não estávamos no caminho certo”, afirmou, citada pelo jornal Abc.

Contra a expectativa de muitos, Sánchez reivindicou que poderia formar um governo, após Mariano Rajoy ter recusado o convite do rei Felipe VI para tentar formar governo. A confirmação chegou a 2 de fevereiro, quando foi anunciado que o líder do PSOE tentaria uma investidura. A paciência foi a arma de Sánchez no seu segundo ato de insistência.

As negociações com Pablo Iglesias, líder do Podemos, foram longas e terminaram sem sucesso. “Há coisas que nos separam, mas há uma que nos une a todos — temos de acabar com o Governo de Mariano Rajoy e do PP”, disse. A principal “linha vermelha” entre os dois partidos era a realização do referendo sobre a autodeterminação da Catalunha. Entretanto, Sánchez chegou a um acordo com o Ciudadanos, após o líder do PSOE ter aceitado uma série de exigências de Albert Rivera, entre elas uma reforma da Constituição em cinco temas. “Estamos prestes a ver um acordo entre duas forças políticas relevantes, de centro-direita e de centro-esquerda, e [o acordo] será uma boa base para liderar uma política diferente”, afirmou, naquele momento, Sánchez.

O apoio do Ciudadanos não era suficiente para garantir a investidura, mas ainda assim foi a votos. Com 131 votos a favor e 219 contrários, o líder do PSOE falhou a tentativa, com a abstenção do Podemos e a oposição do PP. O líder do PSOE precisava de maioria absoluta, pelo menos 176 votos. “Continuo confiante no diálogo e num eventual acordo que resulte num Governo de mudança e que melhore a vida de todos os espanhóis”, escreveu Sánchez na sua conta do Twitter.

O resultado das eleições legislativas, neste domingo, devolve a Pedro Sánchez o lugar onde esteve nas últimas eleições. O PSOE manteve-se como segunda força política do país, com 85 deputados, menos cinco em relação a dezembro. No discurso que fez após conhecer a nova formação do Parlamento espanhol, reconheceu a derrota nas urnas, ao dizer que “não estava satisfeito”. O resultado, no entanto, teve um sabor de vitória contra dois adversários: Pablo Iglesías e as sondagens.

Numa conferência de imprensa, neste domingo, Sánchez dirigiu críticas a Pablo Iglesias, a quem culpa pelo crescimento do PP, que obteve a maioria simples com 32,93% dos votos, equivalentes a 137 deputados.

Apesar das dificuldades extraordinárias, de que iam ultrapassar o PSOE e que apontavam para uma perda da nossa importância, o PSOE voltou a reafirmar a sua condição de maior partido de esquerda”.

O líder do PSOE acredita que o resultado poderia ter sido evitado se tivesse conseguido um acordo com o Podemos. “Disse em dezembro, e digo agora, que havia uma coligação com mais de 20 partidos com o único propósito de ganhar ao PSOE. Espero que o senhor Iglesias reflita. Teve oportunidade de aprovar um Governo progressista do PSOE (…). Mas a intransigência e o interesse pessoal por cima do interesse da esquerda, produziram uma melhoria dos resultados da direita”, criticou.

Ao longo deste domingo, as sondagens à boca das urnas indicavam que o partido de Iglesias, em coligação com a Izquierda Unida, superaria o PSOE na intenção de voto. “Os espanhóis tratam muito melhor o PSOE que as empresas de sondagens”, afirmou durante a campanha eleitoral, citado pelo jornal El Español.

Começa, assim, o terceiro ato de resistência de Sánchez. Segundo lembra o El País, Rajoy e Iglesias vão pedir ao PSOE para negociar um futuro governo: enquanto o PP busca o apoio ou a abstenção do partido de Sánchez, o líder do Podemos precisa do improvável apoio de Sánchez e de partidos independentistas para tentar uma investidura. Independentemente da decisão, Sánchez tem de lidar com efeitos políticos colaterais, como o inevitável debate sobre a liderança interna do partido. Dirigentes do PSOE ouvidos pelo El Español garantem que não será uma tarefa fácil. “Existe um partido interno”, asseguraram. “Os cidadãos não confiaram no PSOE para cuidar do governo e isto é algo que devemos aceitar e atuar em consequência”, avaliou Susana Díaz.